Zé Caxangá viaja solo no EP Clara

por em quarta-feira, 6 junho 2018 em

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Anos atrás Fabão, também conhecido como Zé Caxangá, me falou que faria um disco mais rock. Eis que ele saiu e para a surpresa eis que não é tão rock assim. Existe sim, mas as influências que permeiam as outras bandas que Fabão toca estão presentes. O EP Clara surgiu em um momento conturbado da vida do músico e isso refletiu na produção que tem ares soturnos e introspectivos que contou com a colaboração de vários parceiros de longa data, já conhecidos da cena local para formar o Seu Conjunto.

Batemos um papo com Fabão sobre o disco.

Na primeira audição achei o disco introspectivo, até soturno. O que foge da sonoridade que caracterizou você. Qual o ponto de partida que levou a essa construção?

Opa mano… Você pegou a essência, é isso mesmo. Estava num momento bem difícil na minha vida, tinha acabado de me separar depois de quase dez anos, voltava a morar na casa dos pais e depois morando só a tristeza pegou mesmo. As canções vieram naturalmente e tava convivendo bem mais também com essas pessoas que participaram e que fazem um som bem diferente que o meu como Pedras, Henrique Lopes, o Arthur (do Ópera Lóki), o Walter (do Mahmed). Todos esses caras me influenciaram bastante musicalmente. Aprendi a escutar muita coisa nova que nem sabia que existia.

E como foi unir essa bad com essa trilha? Já tinha o fio condutor ou foi sendo criado a medida que as músicas foram saindo?

Já tinha um pequeno fio, digamos assim. Mas no geral foi se criando mesmo. Digamos que me entreguei pra tristeza, mas de uma forma não tão dark. Não me afundei em drogas ou coisa do tipo, mas me entreguei sim a introspecção, a melancolia. Escutei muito Homeshake, Mac DeMarco e voltei a minha veia rock que sempre tive. Escutar coisas psicodélicas como Júpiter Maçã, pesquisar sua obra, sou um cara que gosta de ir a fundo nos artistas que ouço.


Você tinha me falado tempo atrás que era um disco de rock, mas ele tem várias influências. Até uma pegada eletrônica. Os integrantes da banda surgiram das músicas ou as músicas surgiram dos integrantes? Conte o processo.

Então cara, na verdade eu quis me deixar livre, o rock mais na atitude (o que tem já em outros projetos meus) mas o processo tiveram três momentos. O primeiro foi com o Daniel Grossmann que tinha um estúdio e era meu vizinho de quarto no albergue que morávamos aqui na Vila de Ponta Negra onde o proprietário é o artista Gil Leal, responsável por toda nossa arte visual. Então foi uma coisa natural de tocarmos juntos. A primeira música a gravarmos foi “Música Para Elevador”, que é só uma vinheta, um experimento. Gravamos eu, Gil e Daniel. Depois de algum tempo surgiu “Bloqueou Meu Coração” exatamente pelo motivo óbvio e gravei também com Daniel lá no estúdio dentro do albergue. Como ele toca com várias galeras e muitos músicos apareciam pra gravar e fazer som com ele, ele aproveitava e mostrava pra eles e alguns gravavam. Como foi o caso do Diego Brasil que gravou em “Boqueou Meu Coração”. A partir daí começamos a tocar juntos só eu e Daniel e fazer um repertório mais livre ainda do que fazia com a Orquestra Boca Seca, por exemplo. Tocava música romântica, tocava carimbó, tocava axé do meu jeito. Até hoje é meio assim. Mas antes era com Daniel. Aí o fim do primeiro processo se deu com a gravação de “Feiticeira”, que compus logo depois que fui pro festival de stonner lá no Galpão 29. Quando vi a Son Of a Witch pela primeira vez foi foda demais, me identifiquei muito. Me lembrou muito Black Sabbath na sua fase que mais gosto: o Master of Reality. A gente gavou “Feiticeira” e chamei o Flávio Horroroso pra gravar. Ficou foda e quem estava lá no processo só olhando era o Pedras, parceiro de outras bandas como Luisa e Os Alquimistas e na época o Ópera Lóki. Foi uma coisa natural ele participar e gravou um synth em “Feiticeira” e nunca mais saiu. O Daniel foi morar em Pipa, eu soube que ia ser pai e voltei com minha ex-mulher, o projeto ficou meio que de lado. Mas logo em seguida começa o segundo processo que foi com Pedras já na banda. Tocadas apareceram e ele começou a produzir uma musica minha e tocar oficialmente comigo, aí a parada ficou bem mais eletrônica. Não teve como fugir, é a pegada dele e achei isso incrível. Estava pirando em Pedro Santos e pegamos um sample de uma música dele e gravamos “Tambaba” ano passado. Aí com as correrias da vida ficamos sem gravar e eis que esse ano vem o mote do Caxangá Festival e decidi botar pra fora as outras músicas que já existiam, que ainda não tinham sido gravadas, mas todas já tocadas em shows. Como “Cogumelo Rain Beat”, “Quero tu” e “Feiticeira” que gravamos em duas semanas, mixamos, Gil fez a arte e eis que surge CLARA.

Você acha que esse processo ficou redondo ou ainda cabia algo mais? Digo esperar um pouco mais e mudar. Ou está do jeito que é pra ser?

Está do jeito que é pra ser. Na verdade já até tinha passado do tempo. (risos)