Reverbs, distorções e microfonias criam a ambientação caótica da Vênus In Fuzz

por em sexta-feira, 24 novembro 2017 em

venus
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A Vênus in Fuzz é de João Pessoa e ataca com reverbs, distorções e microfonias. São três registros lançados onde o mais recente é de julho de 2017. Se você ouvir os três discos perceberá uma diferença na sonoridade principalmente da bateria. Motivo da entrada de Angie Silva com suas próprias características e peculiaridades. Ainda fazem parte da banda Igor de Lima (baixo, voz, synths, theremin), Gilberto Bastos (voz e guitarra) e Tarcísio Victor (guitarra, synths, theremin). Se você gosta de um som carregado, com ambientação beirando o desconforto e caos vai gostar.

Batemos uma papo com a banda toda.

Ouvindo do primeiro lançamento pro mais recente, se nota, digamos, um refinamento, um lapidamento no som final. Isso foi uma coisa natural ou que vocês perceberam que era necessário?

Gilberto –
Na Room Tapes gravamos de forma bruta três registros intencionalmente demos mesmo. Captados por celular e num ambiente bem rústico. Há um apreço muito grande pelo simples trabalho. Foi um “do It yourself”, pra provar que é possível ter um registro que lhe identifique. Funcionou. Já o novo a ideia foi totalmente diferente. A formação é diferente. Pensamos num som mais denso e mais barulhento. Porém com uma qualidade superior. Entramos num estúdio que abraçou nossos pensamentos e deram uma estrutura incomparável. Foi um EP trabalhado com a alma e amor. Um registro inquieto mas verdadeiro. O refinanciamento se dá principalmente ao belo trabalho de Pepeu Guzman e Marcelo Piras que produziram toda a barulheira.

Igor – A gente tava sem grana pra produzir um material como a gente queria, com camadas de guitarras, ambiências. A mudança na formação também influenciou bastante, porque a gente passou a usar mais pedais, mais efeitos, como sempre foi a nossa intenção e nesse registro a gente teve tempo pra por em prática esse interesse que já existia. Experimentar mais e o momento atual da banda e a parceria da Mardito Discos na captação, mixagem e masterização, foi muito importante nesse processo. Entre o Room Tapes, tivemos o EP do projeto Juntar as ideias que foi um lançamento coletivo do material de 6 bandas pelo selo Subfolk. Foi muito importante participar, mas nesse registro atual podemos fazer a coisa pelo selo que montamos, o Silo Records, e focar mais na produção do material, tendo mais tempo disponível.

Angie – Natural, foi fluindo… Depois que eu entrei, como tocava há pouco tempo fui aprendendo e evoluindo com a banda, já inserindo minha identidade nas músicas.

Assistindo o doc do Stooges, o Gimme Danger, Iggy fala que não queria as letras iguais as de Bob Dylan (grandes). Queria o mais minimalista possível. A pegada é essa com vocês também de propósito?

Gilberto – A forma de composição na banca cai nas mãos do Igor e nas minhas. Particularmente nesse EP Igor compôs todas as quatro letras. Costumo dizer que nossas formas de compor se completam. Eu utilizo uma linguagem mais poética e Igor costuma utilizar de prosa pra narrar o dia a dia caótico que enxergamos. Sua visão é perfeita e forte. Essas quatro canções se entrelaçam num tema pessoal que ele enxerga, da forma dele. Isso é inspirador. Próximo trabalho será a minha vez de falar as realidades pulsantes que vivemos. Letras minimalistas e textos enormes, narrativas, etc, possuem o mesmo poder. Precisamos saber utilizar as palavras da melhor forma para aquele momento.

Igor – Nossas letras tem influências de coisas variadas, poesia, cinema, política e acho que acaba sendo um reflexo disso, algo natural saca? Elas tratam de muitas coisas, deixam em aberto quem escuta nosso som a interpretar, algo livre, não são letras tão diretas e explicitas, ao mesmo tempo são viscerais e simples, sem firulas.

Angie – Eu não fiz parte, ainda, da produção de letras, mas acho direto e sem enfeites.

A sonoridade apesar de apontar pra vários lugares me chamou a atenção semelhança com Sonic Youth quando eles estão mais sujos. É uma das influências? O que vocês tem ouvido que faz a cabeça de vocês?

Gilberto – O Sonic Youth é uma bela referência pra qualquer banda que tenha o noise como estilo. Mas não utilizamos afinações peculiares ou as reservas técnicas que os mesmos dispõem. A construção sonora do Vênus In Fuzz as vezes parte de textos, poemas, narrativas e improvisos ligados a vontade de fazer barulho. Eu tenho sacado muitas bandas. Algumas influenciáveis pra mim como The Cult Of Lip, Ringo Deathstarr, Magic Shoppe. Bandas nacionais como o Loomer, o Sileste, a EX são referências sonoras tão importantes quanto.

Angie – Minha maior influência foi o próprio Vênus. Eu curto muita coisa mas ainda não conhecia o shoegaze. E depois que fui apresentada a bandas do gênero foi que eu fui sacando e acrescentando ao som referências tocando na Vênus. Seriam bandas como The Stone Roses, My Bloody Valentine, Slowdive, Galaxy 500 e Spacemen 3. Como baterista minha primeira influência mesmo foi o Nick Mason.

Igor – Todos temos referências em comum, inclusive escutamos música juntos, indicamos discos uns pros outros e sempre que a gente pode, assiste junto shows de outras bandas. Em João Pessoa existe uma cena feminista com Margaridas em Fúria e Matriarcaos que respeito demais, não só pelo som, mas pela luta que elas protagonizam e tem sido cada vez mais importante essa postura combativa em um meio ainda ainda machista. Carrapatos, Invéxis, Beat!rix, Electro Bromance, Disfuzzia e Rieg são outras bandas locais que tem surgido.

Tarcísio – Minhas referências para o Vênus vão entre bandas nacionais e de fora, Rakta, Sileste, Ludovic, Radiohead e o My Bloody Valentine, são algumas delas.

Esse disco mais novo tem uma pegada mais lenta, uma bateria mais “preguiçosa”, por assim dizer. Não que as demais músicas dos outros discos sejam todas rápidas, mas existe. É uma tendência ou rola música rápida e ligeira?

Angie – A mudança de bateristas influenciou muito. Tendência não seria a palavra… E rola sim.

Gilberto – Tivemos dois bateristas com características diferentes. Cada som tem sua levada. Esse EP teve canções mais densas e naturalmente a bateria pulsa de seu jeito. Realmente no nosso set temos músicas bem mais rápidas e outras mais cadenciadas. Cada som com sua batida. Simples.

Igor – A gente bebeu mais do que no disco anterior (risos) e nunca tivemos a intenção de fazer música realmente rápida, ficar nessa de que música barulhenta sempre tem que ser punk, hardcore e metal não é a nossa. Gostamos de bandas desses estilos e respeitamos a correria deles, mas a ideia da gente sempre foi fazer uma lombra muito barulhenta e climática e quando a música sai mais rápida ou lenta, fazer isso soar do nosso jeito.

Lançar em formatos de EPs e não um disco cheio é uma estratégia?

Igor – Teoricamente sim, mas nossa vontade sempre foi fazer um disco cheio, 10 faixas ou mais. As dificuldades existem, mas estamos em parceria com a casa Hera Bárbara articulando um selo, o Silo Records, então hoje eu acho que a nossa estratégia tá muito mais voltada a isso, para que as 4 bandas do selo, caminhem juntas, divulgando, gravando, rachando equipamentos e experiências. Na realidade estamos tendo uma estratégia agora e tem muita novidade massa a caminho.

Gilberto – Na verdade não vejo nesse sentido. Conseguimos desenvolver quatro sons muito próximos entre si. Haviam outras canções mas não eram pra esse momento. Esse EP foi a primeira experiência num estúdio com a nova formação. A formação definitiva. E pra Tarcísio Victor (guitarra) e Angie Silva (bateria), foi a primeira experiência num estúdio de gravação. Então foi algo especial mas com pé no chão e com certos cuidados. Provavelmente nosso próximo trabalho seja o nosso primeiro álbum, mas precisávamos experimentar, descobrir pra amadurecer esse disco que virá. Esse EP está tendo uma boa recepção e lançaremos em formato físico no começo do ano quando entraremos em estúdio visando provavelmente esse disco “cheio”.

Clique na capa e ouça o EP Venus in Fuzz.