TV Is Dead: Maquiladora enterra de vez o sinal analógico em novo clipe

por em quarta-feira, 29 março 2017 em

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A tevê analógica morreu – ou está morrendo, dependendo de onde você está – e ninguém chorou no funeral. Hoje (29) foi o último dia de transmissão do sinal analógico para o estado de São Paulo e para comemorar, o quarteto de Mogi das Cruzes Maquiladora soltou o vídeo da faixa “Nothing But A Lie”.

Dirigido por Eduardo Viné e editado por Danilo Sevali (que estrela o vídeo ao lado de Helena Duarte, ambos da Hierofante Púrpura) e orgulhosamente filmado em Super 8, o filme mostra sem censura alguma o assassinato de um aparelho de televisão daqueles que a vovó tinha quando você era criança.

Assista abaixo:

Assim como “Jack”, single anterior da Maquiladora que ganhou um vídeo em stop motion, “Nothing But a Lie” foi gravada no ano passado, em rolo de fita analógico em 16 canais. Segundo Thania Só, voz e guitarra da Maquiladora, as gravações foram as primeiras depois de um período de idas e vindas da banda, após o lançamento do EP The Fine Line Between Fun and Danger (2014).

“[A música] é sobre como muitas vezes num relacionamento a gente descobre falhas que dentro dos nosso valores seriam inaceitáveis e que, por fraqueza, insegurança, dependência ou preguiça, a gente acaba preferindo ficar se enganando, usando como desculpa as velhas promessas de mudança… E nesse jogo de enganação, a gente não percebe que sair de uma prisão emocional pode ser muito simples. Resumindo, é sobre a insegurança, a dependência e a fraqueza emocional que muitas de nós vivemos”, explica.

Apesar de gravadas juntas, as faixas são na verdade sobras de um período anterior de produtividade. Gravadas sem muito compromisso além do registro, como uma fotografia de um passado recente. “Esses dois sons eram as primeiras músicas de um álbum que queríamos fazer… Mas o processo de composição foi interrompido várias vezes por coisas da vida”, conta Thania. “Fato é que quando começamos a compor de novo, essas músicas destoavam dos sons que começaram a rolar. Mas quisemos dar um lugar especial pra elas com os vídeos!”

“Como gravamos no Mestre de uma maneira bem como das antigas, com o equipo analógico, achamos que os vídeos tinham que seguir numa estética que acompanhasse essa vivência. A banda jogou o desafio na mão dos meninos que trabalham e têm experiência nisso, confiando totalmente no talento deles e o resultado foi ótimo!”.

De fato, Danilo não é nenhum novato ao modo analógico de produção. Diretor da vários vídeos da Hierofante, nerd de equipamentos de áudio e vídeo, ele não se diz atraído puramente pelo fetiche. Como um autêntico possibilista, está mais interessando em sair da zona de conforto e estimular os limites da própria criatividade.

Na sequência, confira um bate-papo com ele sobre o vídeo, cinema de guerrilha, o futuro da televisão & outras lombras.

O Inimigo: Fala um pouco sobre a concepção do vídeo. Por que o formato super 8? A banda participou do roteiro, ou foi uma criação individual?

Danilo Sevali: A ideia partiu do parceiro que acabou assumindo a direção do filme, que é um cineasta / diretor de fotografia mogiano chamado Eduardo Viné. Ele foi sacando toda a concepção inicial das gravações dos dois singles da banda Maquiladora (que foi realizada em fita de rolo 1 polegada aqui no estúdio Mestre Felino). Aí lançamos o primeiro clipe, uma animação em stop-motion com desenhos da Helena. Tudo já trazendo uma esfera de “artesanal”, uma certa crueza nos contextos do analógico etc…o Eduardo observando isso foi meio que natural ele propor gravar em Super 8, o que não deixa de ser sempre uma realização ou um desafio gostoso nos dias digitais de hoje, onde tudo se resolve com certos plug-ins mas que sempre tem aquele gostinho de artificial. O bacana foi que a banda deu total abertura para evoluirmos na idéia, confiaram cem por cento na equipe que montamos para construir isso. Edu tinha um argumento na mente, sem roteiro sem nada, o que brotou foi a essência latente do cinema de borda (ou marginal, ou de invenção) que eu e ele possuímos de longa data. Algo que sempre pautou nossas iniciativas cinematográficas.

O Inimigo: A tecnologia analógica está sempre bem presente nas produções do Mestre Felinto, nos teus trabalhos em vídeo, no Hierofante  e solo também. Além do fetiche do equipamento, o que é que te atrai no analógico? O que você consegue com uma câmera super 8 que uma digital não pode te oferecer, por exemplo?  

Danilo Sevali: Primeiro de tudo a experiência em si, o formato, o escape das zonas de conforto digitais que hoje predominam qualquer produção audiovisual indie ou mainstream. Ai vem a textura original, inigualável e imbatível (chega a ter cheiro até). Por fim a necessidade ou o desejo puro e simples de produzir num formato dito antiquado ou obsoleto e chegar num resultado palpável, fetichista que seja, porém, sempre recompensador…posso dizer até mesmo mágico. São anos estudando e assistindo filmes realizados em película, então numa produção dessa você mergulha de cabeça nesse conceito único de cinema, é diferente…tem outro astral. Tinhamos apenas um rolo de filme, foi tudo rec-editado no dedo e no olhar do Eduardo, baita desafio esse! O mais divertido foi sacar a sincronia que rolou quando jogamos a música por cima na ilha de edição, momentos assim são inexplicáveis, o resultado sempre vem quando se encara o lance da maneira certa. Outro efeito curioso que se alcança trabalhando com película é que na primeira metade do clipe várias interferências / intervenções foram realizadas diretamente no filme, com o auxilio de um óculos-lupa (em vista do minúsculo tamanho que é um fotograma na bitola 8mm) algo assim como se eram realizados os efeitos especiais no primeiro cinema (com George Melies, Fritz Lang e outros monstros sagrados) que manipulavam coloração e outra série de efeitos incríveis com ação direta no material já revelado.

O Inimigo: Rolou alguma história curiosa nos bastidores? De quem era a tevê que foi linchada?

Danilo Sevali: Foi uma produção ao melhor estilo guerrilha, expressa, tipo “isso tem que acontecer aqui e agora”. Saímos pra procurar locação em Mogi, a luz natural já estava baixa no meio da tarde (isso pra película é um perigo), então corríamos total contra o tempo. Em coisa de menos de uma hora tivemos que produzir: cenário, figurino, elementos de cena (tinta, gasolina, flores, tv, enxada, martelo etc…). A única coisa que tínhamos em mãos era exatamente a TV que o Eduardo comprou numa loja de usados qualquer, mas tudo fluiu e conseguimos filmar. O ponto de partida do argumento era um ritual, que incluía esse “sacrifício” da televisão, e o ápice seria mesmo atear fogo na peça…despejei uns litros ali em cima e quando o fogo subiu BOOOM!! Caraaaca, foi uma labareda nervosa, aqueles vários passos pra trás um tanto em choque (embasbacados com o poder do fogo). Aí da-lhe extintorzinho do carro em cima e tudo sob controle. Eu perdi nesse dia, por causa da tinta vermelha que usamos no “rito”, uma jaqueta e um par de sapatos de couro, uma calça jeans e uma camiseta, tudo lambuzado. O carro do Edu até hoje tem uma mancha vermelha também. O que não fazemos pelo cinema, né?

O Inimigo: Agora que a tv analógica morreu, temos algo para comemorar? Ou o caso é chorar mesmo?

Danilo Sevali: Tomando como exemplo o nome da música, que na minha concepção já diz tudo: “Nothing but a lie”. É o que a tv, aberta ou paga, hoje representa (em diferentes escalas ou níveis) como criadora oficial e difusora massiva de mentiras. A simbologia dessa catarse que registramos em película traz até um certo alívio, ou um orgulho às avessas. Foi bastante libertador descer a marreta naquele tubo; porque na realidade ela não morre, ela infelizmente evolui, infelizmente fica mais forte, com mais alcance e definição digital de aúdio e de som… então o caso é chorar mesmo, ou se revoltar e começar arrancando aquela que fica ali te hipnotizando no seu quarto ou sala ou cozinha ou banheiro ou onde quer que ela se encontre, abrir espaço pra uma prateleira de livros, talvez. Sei que essa não é a mensagem principal buscada pelas Maquiladoras quando escreveram e compuseram a canção, mas a beleza de se criar em conjunto é exatamente isso, abrir os horizontes, re-significar, deixar em aberto as interpretações e criar a sua própria.

Maquiladora – “Nothing But a Lie”
Ficha técnica:
Direção, argumento e manipulações em película por Eduardo Viné
Edição e Finalização por Danilo Sevali e Priscila Ynoue
Assistência de Produção por Ana Corvisier
Performance por Rosa e Selvagi
Produzido por Estúdio Mestre Felino
Revelado em AGF Laboratorio cinematográfico