Tupi Machine abraça e dialoga com o tradicional e o moderno

por em sexta-feira, 16 novembro 2018 em

LinkedIn

Hugo dos Santos tem a carreira com seu nome onde músicos paraibanos da Rieg são a banda de apoio quando vêm pro lado de João Pessoa, Natal, Recife. Inclusive foi em João Pessoa que gravou seu disco. Mas com a Tupi Machine a parceria é com o DJ PTK, que atua na periferia de Teresina levando cultura a quem mais precisa. Já que a cultura e o esporte são meios de tirar os jovens do mundo das drogas e consequente violência. O nome da dupla já entrega muito do que é o som: o tradicional mais o moderno. Temas locais (porque não nacionais?) com os beats da mpc 1000. Batemos um papo com Hugo sobre o projeto, a realidade social e da cultura em Teresina e Piauí, bem como sobre o futuro nada promissor com o novo governo nacional.

Pra começar, o nome Tupi Machine já diz bem ao que a banda se propõe. Sendo assim, existe uma pesquisa sobre o som “tradicional” e como fazer essa mistura com sonoridades mais modernas?

Como tu já falou, o nome diz bem a proposta. Minha família é do interior do Maranhão, onde vivi boa parte da vida. Lá ao lado da casa da minha avó tem um Terreiro, cresci ouvindo os tambores do Maranhão. Lá também tive contato com tribos indígenas, minha bisavó era índia. O boi bumbá lá e no piauí são muito fortes. Quem vem do interior do Nordeste cresce ouvindo também forró, aboio e “brega” nas inúmeras serestas que em todo interior tem. Nas serestas a galera usa teclado, um beat programado e o gogó, tem que ser bom pra segurar uma seresta durante 5 horas. Em Teresina comecei com banda e a primeira que fiz parte foi a Captamata, um grupo que trabalhava com ritmos nordestinos misturando com elementos do Rock. Foi onde comecei com as misturas dos ritmos da tradição nordestina. Depois toquei com uma banda de reggae, a Regaplanta. Com eles também comecei a perceber melhor principalmente as linhas de baixo, já conhecia o Afrobeat e fui misturando também. Com a Trinco e a Guardia Nova (lançamos dois Eps em 2011) começamos a usar os elementos eletrônicos por necessidade, tínhamos banda na época mas pouquíssima estrutura para gravar, os elementos eletrônicos foram surgindo a partir disso.

Além dessa mistura, algo que fica bem claro é o caráter social das composições. Não deve faltar exemplos/vivências pra isso em teresina, certo?

A música “Naquele Tempo” é uma história real que aconteceu em Dom Pedro (MA). Lá a violência já era grande no começo da minha adolescência, as coisas se resolviam na bala e hoje está pior. A cocaína e o crack chegaram lá e em todo interior do Nordeste. Teresina é difícil já por ser Nordeste do Brasil, mas sinto que somos a periferia do Nordeste. Somos uma capital um tanto isolada, sem praias. Teresina tem pouco mais de 30% do seu esgoto tratado. E talvez por isso mesmo temos um povo muito aguerrido, criativo. Tupi Machine é isso, é sobre esse povo que tem que trabalhar tanto e ter tão pouco em troca, nem saneamento básico tem. Básico!

Seguindo nesse ponto, como você vê as mudanças que já começaram agora com transição de governo, no que tange a classe artística?

Quando tiraram Dilma e tentaram fechar o Ministério da Cultura fizemos ocupação, foi um momento de muita luta e diálogo. Mas isso acontecia de forma micro. Naquela época fomos fazer uma manifestação na principal avenida de Teresina e a população literalmente tentou nos matar, botaram arma na cara da gente e tudo. Ali tive a certeza de que o povo já estava em outra. Sinceramente estou muito apegado a um trampo que está me pagando uma grana certa todo mês e isso tem me dado condições de articular algumas atividades culturais. Tiro do bolso o possível porque preciso da arte/cultura para viver minimamente feliz e curioso. Tá na cara que vai piorar muito porque já tem um tempo estão sabotando todas as articulações possíveis de diálogo com o estado sobre investimento em cultura. A luta vai ser bem mais árdua. O músico/artista, cidadão, tem que trabalhar feito louco pra tentar ao menos pagar as contas. Então o que vejo é que muitos sairão do fazer/produzir arte, festivais, obras… e vão virar escravos de vez. Nesse sentido, pra quem é de Teresina, essa sempre foi a realidade.

Aí entra a questão “cena”. O que eu vejo aqui e com gente de todo país, quando falo sobre, é que na verdade a cena é um gueto, por assim dizer. Por aí deve ser a mesma coisa.

Hugo, no geral quem consegue fazer turnê, dar uma rodada com sua produção e coisas do tipo ou são bancados por familiares ou é através do estado. Se o estado para de financiar, quem sobra? E você acha mesmo que a galera indie, descolê o caralho, vai se importar em tocar pro povão, em ir tocar pra quem realmente precisa? Essa galera toca pra galerinha que já fala inglês. E digo isso porque conheço bem o meio, toquei em alguns lugares assim. O ápice é ir tocar pra galera descolada de sampa. É ou não o que quase todxs querem? É a mesma galera que faz política nas redes sociais, e que excluem seus diferentes, é a mesma prática da vida. Nós da música somos no geral a nova classe média que quer tocar pros seres iluminados e cheios de saberes que frequentam seus clubes em SP. No geral, claro que tem uma galera diferente.

Você enxerga isso por onde passa tocando também? Ou há lugares diferentes?

O que conheço bem é o Nordeste, tenho 33 anos de Nordeste. Morei em algumas capitais e interior e vejo que o som e festas mais democráticas no Nordeste são os forrós, bregas e serestas. Que no geral são desprezados pela elite, inclusive pela esquerda. A Tupi Machine pra mim é esse resgate, estou voltando a trabalhar com ritmos que eu tinha deixado de lado, linguagem que eu tinha deixado de lado após frequentar universidade e tocar pra nova classe média que quer ser gringa. E lógico, estamos em 2018, meu parceiro DJ PTK é da periferia e tem mpc 1000, conseguiu ir estudar na França através de projetos sociais, depois de mais de 12 anos tocando em Teresina, fui descobrir na periferia o que tínhamos de mais moderno. Talvez eu já esteja fazendo há alguns anos, o que o Brown sugeriu no discurso no RJ: voltar pra base. PTK grava toda a periferia de Teresina, faz isso há 15 anos. Grava faixa a r$ 200 pra perifa. Faz toda a produção, o cara só chega e canta. Ele faz tudo. Eles tem a casa do hip hop há 15 anos, hoje meu filho é b-boy e mc e treina lá. A casa do hip hop, por exemplo, tá sofrendo. Já botaram parede e meia uma escola militar mirim. Toda vez que tem ação agora na casa a polícia bate lá fazendo revista e botando medo. Eles querem tomar a casa e ampliar a escola mirim, na real é isso. Os militares já estão em tudo e cada vez mais. E foi debaixo das nossas ventas.

Esse trabalho de base tem algum incentivo governamental ou vocês fazem porque tem a necessidade e não tem quem faça?

Tanto Jean quanto eu já aprovamos editais. Acho importantíssimo o investimento do estado na cultura, principalmente na nossa realidade onde não temos a possibilidade de estudar as manifestações artísticas nas escolas. Jean e eu estamos indo pras escolas. A casa do Hip Hop por exemplo já tá indo pros seus 15 anos. A maior parte do tempo quem trabalha pra isso acontecer, faz porque quer mudar sua vida e se possível de outras pessoas. Lá na casa tem professor de capoeira, os b-boys e b-girls, grafiteiros, artistas plásticos…todxs continuam indo à casa e praticando as atividades com as crianças e adolescentes sem apoio financeiro nenhum. Ao contrário, investem seu tempo e dinheiro por amor. Ontem estive com dois amigos que falaram que no momento a prioridade não é cultura, é emprego…e tô falado de dois caras em q um ja tocou comigo e o outro ama música. Enquanto isso aumento no STF, dívida de bancos perdoada, e TRILHÕES que saem do país para “paraísos”. Um dos países mais ricos do planeta que congela investimento em 20 anos em educação e saúde. Esse novo governo já deixou claro que vai cortar mais ainda os gastos com cultura, e pelo visto tem o apoio de grande parte da população. Isso me faz ter mais apego ao meu trabalho formal que me garante um fixo pra continuar investindo em cultura. Trabalho triplicado. Meu segundo filho tem dois meses… Dormir pouco e trabalhar muito, eis o momento. Tenho a sorte de ter amigos que são grandes artistas, gente que rodou o mundo, de Japão a Europa, mas que não tem condições de pagar seu próprio plano de saúde, que dirá de um filho. Ainda há muito trabalho a ser feito pra que essa situação mude minimamente. E essa mudança só vai acontecer trabalhando a base. Ocupando as escolas e vivendo a cultura lá. Os militares já estão fazendo isso. A igreja sempre fez. Se você pensar em manifestações como forró, sertanejo, brega e todas essas manifestações culturais que o povo adora, e pensar quem está mais próxima dela hoje, a direita ou a esquerda? Sinto que todxs querem ser ouvidos e se sentirem amadxs. A máquina não substitui o amor, mas hoje dialogam.

Pra finalizar: você falou sobre uma certa rejeição pra o que não é hype por parte do público, onde o Tupi Machine tá se inserindo ou tentando se inserir? Tem buscado editais e contatos com festivais/produtores pra rodar?

A Tupi Machine é um projeto que nasce da necessidade de transformar os sons do nosso cotidiano em Teresina. Depois veio o disco como consequência. É um trabalho novo e sem compromisso algum com o “mercado” da música. Estou trabalhando pro disco chegar nas pessoas, pro diálogo acontecer. Vamos lançar o disco dia 17 no festival Mulera Sun, aqui em Teresina. Tem muita coisa pra acontecer se a vida assim quiser. Adianto que tem um vídeo pra sair fim de novembro pra começo de dezembro, e estamos organizando uma turnê pra abril de 2019. O que mais gosto nesse universo artístico é o contato com as pessoas, os diálogos com outras realidades. Nossa música é expressão em diálogo.

Foto: Maurício Pokemon