Pornography é uma viagem ao que há de mais obscuro no subconsciente

por em segunda-feira, 17 dezembro 2018 em

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Esse álbum faz parte de um grupo de discos do The Cure, que jamais foi lançado oficialmente no Brasil. O disco está na linha ascendente dos discos anteriores, uma proposta de afastamento de pop punk de “Boys Don’t Cry” e indo a um direcionamento artístico sério de um compositor querendo fazer algo mais denso. O Cure, já nesse período, tornou-se o veículo do compositor Robert Smith, são dele todas as principais decisões, restando ao grupo, apenas colaboração e execução de suas ideias. O título do disco nasceu da tentativa de inserir sons da tv como sampler em uma música de título “Pornography”. Ocorreu que um debate sobre pornografia, chamou a atenção de Smith e do produtor Phil Tornaley que colocaram um microfone no aparelho e inseriram na música. Essa coincidência batizou o nome do LP.

A sonoridade do álbum é conduzida por uma bateria forte, simples, com efeitos e repetitiva tal qual um mantra de Lol Tolhurst, em sincronia com as linhas simples de contrabaixo, de Simon Gallup, mas eficientes em apoiar a harmonia sempre em tons menores da guitarra. Essa conduzida por riffs interruptos ou dando ambiência. Os sintetizadores tem papel importante nas músicas, mixado por último, no fundo, dando um toque frio, fúnebre nas canções. Em síntese, a sonoridade oscila entre o psicodelismo e o gótico.

Os vocais foram gravados com estranha limpidez que dão nitidez as letras que são aparentemente abstratas. No entanto, o letrista Robert Smith declarou que as letras desse disco, foram inspiradas em leituras voltadas a psiquiatria e demência, com incursões a experiências reais. Numa leitura mais atenta, é percebível os temas relacionados à suas leituras, na ambígua relação entre o sexo, amor e o desejo de morte que mediam relações doentias entre as pessoas (“Siamese Twins”); o sentimento de arrependimento paranoico e de culpa (“Figurehead”). A insignificância da vida e descrença total na humanidade são temas em “One Hundred Years”. A descrição da morte em “A Short Term Effect” que também é tema de “Cold”. O fim do mundo ou um sentimento devastador podem ser o escopo dos versos de “Strange Days”. A música mais conhecida do disco “The Harging Garden”, trata da experiência real sobre efeito de drogas, em que Smith, ao acordar numa madrugada com o ruído de gatos, foi sair para vê-los e a visão dos animais, sobre efeitos de alucinógenos, originou a letra . Por fim, a faixa que dá título ao disco tem a letra abstrata apoiada numa sonoridade caótica, psicodélica e experimental.

As referência literárias, o consumo de alucinógenos diversos e depressão serviram de inspiração para músicas. A estranha obsessão de morrer aos 24 anos e ambição de fazer um álbum definitivo (último?), foram a força motriz desse disco difícil de ouvir, mas surpreendente.