Os vários mundos de Sérgio Ugeda

por em sexta-feira, 24 agosto 2018 em

sergio
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Os mais velhos se lembram do Debate, Diagonal e selo Amplitude. Tudo tinha as mãos do Sérgio Ugeda e já tiveram seu fim. O inquieto músico lançou seu disco solo República da Voz Fina (ouça no fim da entrevista) e segue compondo, gravando e tocando em vários projetos. Sérgio está ligado no agora e no que virá, mas não esquece os tempos do vinil, das fitas cassetes e dos selos. Coisas que ligavam as pessoas corpo a corpo. Sérgio esteve em Natal 10 anos atrás com o Debate, que se apresentou em forma de duo. Na época vimos o show e trocamos umas ideias com ele. Dez anos depois conversamos com ele de novo, sobre o passado e o presente. O futuro é continuar gravando e tocando.

Você esteve aqui na Casa da Ribeira com o Debate em forma de duo. De lá pra cá, pelo que vi, rolou muita coisa. Inclusive uma morada nos EUA. Nesse meio tempo em que esteve aqui e agora, conta aí o que ocorreu na sua vida musical.

De lá pra cá publiquei no Bandcamp algumas coisas. Pra começar o próprio Debate gravado pelo Steve Albini em um único dia glorioso e mais recentemente projetos que tenho mantido em órbita de um estúdio que estou terminando de montar em Cotia (20km de SP) como o Arados com o Thiago Padilha, do Projeto Trator; Combinado com o Henrique Zarate do College/Gigante Animal/HEZ, Mario Pina do Bandits/End Hits e meu vizinho Rubens Adati que também tem estúdio (como quase todo mundo, né?) e com quem também toco no Paradas junto com o Tché do Holger. Tentando tocar o máximo que dá! Ah, ainda por cima tem também um disco que começou na minha cabeça como uma tentativa de manter o Debate mas acabou virando um álbum solo, já que foram necessários anos pra terminar e todo mundo cansou de mim e das músicas. Mundo cruel.

Lá nos EUA mantenho um programa de rádio tocando 2h de musica brasileira toda terça das 14h às 16h (de lá) na FM para todo o estado do Arkansas.

Pois é. Eu ouvi o seu disco solo e isso me motivou a fazer o contato. Porque o que eu tinha em mente do Debate (por mais que apontasse o som pra vários caminhos) e quando ouvi o solo pensei “porra, bem delicado o som, pop. Como funciona esse sincronismo entre tudo? Vai levando ou existe um planejamento? Causou uma estranheza boa. Porque esperava algo mais pesado, não sei. E ouvi um disco delicado, bem bonito. O processo de feitura do disco foi longo. Como se processou tudo?

Era para ser o contrário de um trator de propósito. (risos) Existe a vontade de tocar melhor todo dia, manter idéias no ar. Brinco com o Padilha que é o melhor assunto que existe quando ele passa tempo por aqui assim como os outros: tocar pela amizade antes de mais nada mesmo. Claro que com vontade de tocar e tudo mais, mas o Kike do Combinado é pai de 5, por exemplo. Aí tocamos quando dá e pronto. Sem grande projeção. O Bandcamp pode ser o melhor site que surgiu desde sempre na minha opinião nesse sentido. É simples e acessível ter contato com quem curte seu som sem ninguém no meio mesmo. Mais rápido que mandar fita pelo correio embora eu endosse a volta do K7 com a mão no peito. (risos)

Começou comigo querendo compor no piano com arranjos para cordas – e quem me ajudou muito foi o Munha do Satanique Samba Trio. A primeira sessão de gravação foi em Setembro de 2011 e a última voz deve ter sido gravada em Abril de 2015 antes de me mudar por 2 anos lá nos EUA. Aí quando voltei criei vergonha na cara e pedi ajuda ao Padilha para finalmente desovar essa “primeira parte”. Ainda como “segunda parte” tem umas 10 músicas compostas e gravadas no mesmo processo lento mas que quero regravar aqui em Cotia agora desde da estaca zero. São músicas ainda mais simples. Levo sua “estranheza boa” como um baita elogio, muito obrigado!

E o Rebate com integrantes de países diferentes? Gostei do som também. Vai ficar no disco ou pretende botar pra tocar e viajar?

A idéia é tocar. O Rebate foi composto em uma fazenda durante 2013 e entramos em um estúdio que tive na Lapa em São Paulo por um ano, muitas ideias sobraram além dessas 6. Assim que eu conseguir encontrar o Steve, que mora hoje em Sydney, nossa ideia é gravar muito mais!

Você falou no Bandcamp. Como você, que teve o selo Amplitude, vê esses streamings?

A minha impressão do Bandcamp como site aborda o “uploader” como prioridade com pontos como qualidade da musica/arquivo e opção sobre cobrar ou não pelo download. Já a indústria do streaming, embora no consenso de que “inevitável”, abre margem para que a indústria do vinil esteja melhorando e voltando a se estruturar. Eu não uso nenhum serviço, ainda escuto disco inteiro, aquele papo todo. Na Amplitude o projeto foi de abrir espaço a bandas que não tinham. Falar do som do Elma ou Debate, por exemplo, há 15 anos atrás gerava tabu pra marcar show, conseguir existir mesmo. O Satanique Samba Trio foi a única a perdurar e hoje colhe bem o resultado de uma geração toda que consumiu a música deles por streaming e é essa exatamente a diferença se você for a um show do SS3 hoje ou se tivesse ido em 2008 quando encerrei a Amplitude como gravadora. A verdade é que Amplitude foi um nome que dei para a gravadora, mas que foi originalmente o nome que dei para meu TCC em Radio e TV onde entrevistei em 2004 a Stela Campos que acabou de lançar um disco novo incrível. Então hoje gosto de pensar que a Amplitude ainda existe como deveria ser originalmente, um programa de radio abrindo espaço.

Interessante esse ponto de vista. Quando você tocou aqui eu comprei um disco da SS3 e Alexis do Elma (se não me engano). E como você falou hoje voltou a ter essa opção do vinil. Caímos na questão do como ouvir música e muita gente hoje, ou a maioria, usa a música como trilha do dia. Não para pra ouvir música. Você acredita que num futuro próximo voltemos ao “estágio” do vinil em termos de apreciar a obra?

Talvez no futuro vamos pagar pelo silêncio! Penso em quem procura um disco de vinil como uma busca para sentir a música com o corpo ao invés de apenas com os ouvidos. E acho que essa relação corporal com a música nunca vai deixar de existir, seja pela minoria ou maioria. Acho também que com o tempo a apreciação geral tende a melhorar ao invés de piorar. Quem escuta música fazendo outra coisa escuta um certo tipo de música. Outros tipos de música precisa de tempo e atenção. Assim sempre foi. Acho que a questão não é como apreciaremos no futuro mas será que logo apenas música que não exija nenhum tipo de atenção será tocada?

Sérgio, esse seu disco solo tem um caráter, pelo menos pra mim, introspectivo. E como você disse durou bastante a produção. Mudaria algo nele?

Não, é isso aí e pronto! Tive a felicidade literal mesmo de contar com o Apollo 9 mixando na nave invocada dele. Sobre o tempo entre 2011 e 2012 o instrumental todo do disco já estava pronto mas precisou de 2 anos e meio e até aula vocal 3 vezes por semana por quase um ano até eu encontrar uma “voz fina”. A professora, Dadá Cyrino, é a mãe do Paulo Babylon (ex-Elma) é quem canta comigo 5 das 9 faixas.

Para terminar: como você vê os festivais Brasil afora? Não lembro na época do Debate. Tem intenção de tentar circular com alguma das bandas que você está fazendo parte? Quais os planos?

Tenho a intenção de tocar sempre onde for possível. Cada grupo tem um dilema diferente. Por isso fico mais concentrado em gravar outros aqui em casa já que parece um plano mais fácil de acontecer. Mesmo assim tenho cobrado o Padilha pra marcar show do Arados em Curitiba todo mês. (risos)