Régine Chassagne: Rainha de mil sons do Arcade Fire

por em sexta-feira, 22 dezembro 2017 em

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Apesar de continuar a ser chamada indie, Arcade Fire é uma banda mundialmente conhecida pela qualidade de sua música e por apresentar concertos fodásticos, como o que passou por São Paulo e Rio neste início de dezembro. Em 16 anos de estrada, os canadenses que chamaram atenção de David Bowie acumularam fãs ardorosos, são queridos pela crítica – a ponto do álbum Everything Now (2017), mesmo considerado ruim por muitos, ser encarado como uma espécie de truque conceitual – e também costumam ser indicados a premiações do naipe do Grammy, que considerou The Suburbs o melhor álbum de 2011.

Porém, o que me levou a prestar atenção neles foi um aspecto absolutamente narcísico: um dia disseram que eu parecia com a “menina do Arcade Fire”. Encontrei alguma semelhança no cabelo encaracolado e no nariz pequeno, enquanto demorava a entender o que exatamente ela fazia ali. A banda parece um cabide de empregos – tem instrumentos e gente pra caramba, é um agito no palco. Em um clipe, a tal mulher aparecia cantando, em outro tocando acordeon, em uma apresentação tocava bateria em uma música e teclado na outra, em vários vídeos ela dança. A confusão e a versatilidade me fizeram correr atrás para desvendar quem é Régine Chassagne.

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Foi aí que aprendi que o Arcade Fire tem um casal-casado no front: Régine e seu esposo Win Butler, unidos pela música e pelo afeto, não importa em qual ordem, desde 2001. Embora ele a tenha convencido a juntar-se à sua ideia de banda, é possível que o sabor do improvável que tanto diferencia o som deles tenha grande influência dos gostos peculiares de Régine.

Medieval Times

Régine Chassagne nasceu em Montreal, Québec, filha de imigrantes haitianos que pediram asilo político no Canadá nos anos 1960, acossados pela ditadura de Jean-Claude Duvalier. Em trecho de uma entrevista à CBS, Régine conta que, como tinha pouco acesso à música, desde criança aprendeu a lembrar-se e fixar os sons como se tudo fosse desaparecer. Tornou-se um prodígio musical, apaixonada por diversos instrumentos, muitos deles pouco usuais no contexto da música pop.

No fim dos anos 1990, enquanto cursava faculdade de cinema e comunicação, Régine juntou-se ao grupo de música medieval Les Jongleurs de la Mandragore. Nele, tocava flauta, outros instrumentos de sopro e tamborim. Era uma época em que florescia em Montreal o que pode se chamar de uma cena de arte medieval. O conjunto, então, se apresentava em um restaurante e eventos temáticos. No verão de 2001, Win Butler, que vinha de um universo completamente diferente, mas já se insinuava como parceiro artístico de Régine, chegou a participar de um clipe do grupo, enfiado em uma armadura de cavaleiro, como pode ser visto a seguir.

Os colegas dessa fase lembram do espírito buliçoso e criativo de Régine como musicista e performer, que impulsionava o trabalho de todos, ao mesmo tempo em que mostrava desejo de se aventurar por experimentações que não cabiam naquele projeto. Les Jongleurs gravaram um álbum e iam muito bem, mas Régine passa a se dividir entre eles e o Arcade Fire, que começa a ganhar destaque e excursionar. Em 2004, a artista acaba decidindo deixar a música medieval e abraçar de vez o rock contemporâneo, capaz de dar vazão a seu impulso de experimentar com diversos instrumentos e estilos musicais.

Como co-fundadora do Arcade Fire, além de emprestar sua voz a algumas das mais singelas canções a cada álbum, em quase todas as outras, a multinstrumentista se insere tocando acordeão, bateria, piano, xilofone (em alguns casos, feito de garrafas de vinho), teclado e o exótico hurdy-gurdy, que mistura teclas, cordas e uma manivela. Curiosamente, deixou de lado os sopros de seu conjunto medieval. A polivalência não se restringe ao estúdio – Régine também toca todos esses instrumentos ao vivo nos shows.

Sangue caribenho

O Haiti e a musicalidade de seu povo entraram como um lugar mítico no imaginário de Régine. No primeiro álbum do Arcade Fire, Funeral (2004), ela interpreta uma canção de melodia alegre e letra contundente, que mistura francês e inglês para homenagear o país que pouco conhece, mas ao qual pertence. Confira abaixo uma das apresentações ao vivo da música Haiti.

A relação de Régine com o Haiti motivou a banda a engajar-se em um projeto humanitário para ajudar a recuperação do país, marcadamente após o terremoto que arrasou Porto Príncipe, em 2010. Ela é co-fundadora da KANPE, organização que promove educação e autonomia econômica para famílias pobres haitianas e, desde 2005, a banda doou mais de USD 4 milhões, arrecadados da venda de tickets para os shows. Esse retorno às origens, a empatia pelos haitianos e a participação do Arcade Fire em suas festas de carnaval também aparecem como forte influência na gravação de Reflektor (2013).

Em abril deste mesmo ano, nasce o primeiro filho de Régine e Win. O casal prefere manter discrição quanto ao assunto e sequer revelam publicamente o nome do bebê. Os Arcade Fire são rockstars bem família, ao que parece. Embora o sucesso e a fortuna de Régine tenham vindo por meio de sua verdadeira paixão, a música, a artista continua perseguindo um propósito maior e deseja retribuir ao mundo a “sorte” que teve. Em reconhecimento a seu trabalho humanitário e por sua contribuição à música mundial, em 2016 a artista recebeu o título de doutorado honorário da Universidade de Concórdia, para que também sirva de inspiração para os estudantes da escola onde se formou.

Nesta playlist você encontra as músicas interpretadas por Régine em seu reinado à frente do Arcade Fire.