O que é um show do Radiohead?

por em quarta-feira, 25 abril 2018 em

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Não é fácil apreender o ocorrido num show do Radiohead. Não é só capturar com o olhar e os ouvidos e depois retornar da experiência com algo substancial, com uma impressão que pareça concreta e não fluida, não escorregadia, não lenta e fragmentada. Um show do Radiohead é uma fabricação, uma usina em andamento. Parece ser um processo e um exercício; talvez até por isso o setlist jamais é estático (obviamente a quantidade de músicas à disposição do grupo é decisiva nesse rodízio, mas enfim), cada execução é uma reencarnação da música registrada, um experimento. Descrever o ocorrido nas quase 2h30 de muitos clássicos na Jeunesse Arena, no último dia 20, é também um exercício perceptivo. Primeiro vêm os afetos, depois os momentos mais bonitos, depois os momentos inéditos e, por isso, históricos (True love Waits só voz e violão não ocorreu em quase lugar algum do mundo nessa tour).

No Rio de Janeiro, o espaço não teve os problemas de localização do público que rolaram em São Paulo: uma pista só, com até algum espaço sobrando mais pros lados ou para trás. Nas arquibancadas, não restaram muitos sentados. Muita gente em pé se apoiando nas grades. No mais, o som estava levemente embolado. Por vezes a dinâmica era desfavorecida, com graves que roubavam o som dos instrumentos, ao invés de acentuar suas presenças. No show do Junun, frequências baixas quase desapareciam e um BOOOM ribombante de baixo troava por cima das vozes.

Antes de falar do show propriamente da banda inglesa, é necessária menção aos shows de Junun e Flying Lotus. O Junun, projeto do guitarrista e compositor Shye Bem Tzur, dos Rajasthan Express e de Jonny Greenwood, é um choque entre guitarras, baixos e instrumentos arcaicos de origem bengali, que consegue fazer com que a famigerada world music ultrapasse a fronteira da curiosidade e do exotismo. O exotismo está lá, mas há uma PRESSÃO singular, uma negociação entre um pop torto e uma música espiritual, onde o lúdico e o experimental se encontram. Junun é o pop VÉDICO.

Já o Flying Lotus foi, se brincar, tão profundo quanto o Radiohead. Steven Ellison pilota suas picapes fechado entre duas camadas sobrepostas de um telão onde imagens psicodélicas, de figuras geométricas a mini-curtas de animação vão se intercalando entre as flutuações da música do produtor. Por sinal, Flying Lotus também leva além sua apresentação ao vivo, fazendo de suas músicas registradas em disco um exercício muito mais elástico ao vivo. Sampleando e editando bases contidas em seus discos Cosmogramma, You’re Dead, Los Angeles e Until the Quiet Comes, Ellison ainda tocou temas retirados de To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, da série Twin Peaks, do anime Ghost in the Shell e de Drunk, de Thundercat. Um set hipnotizante e pesado (uma sequência de beats lá pelo meio do show faz quase a arena explodir).

Por fim, depois de intervalo pra montagem do palco, os ingleses sobem ao palco com uma iluminação que produz um céu estrelado no ambiente. Começam com a lenta “Daydreaming”, de A Moon Shaped Pool, seguida por “Ful Stop” e “15 step”, de In Rainbows, o marco do Radiohead nova era. Daí pra frente a fileira de hits incluiu “Lucky”, poderosa já no Ok Computer mas ainda mais intensa ao vivo, a psicodélica “Myxomatosis”, até “Reckoner” e “Bodysnatchers”, outras pérolas de In Rainbows, até “Street Spirit (Fade Out)”, faixa de The Bends cantada em coro pela plateia. Um dos destaques foi a execução de “True Love Waits”, com Thom Yorke sozinho no palco com seu violão cantando para milhares de pessoas em silêncio total.

O Radiohead no palco é impactante esteticamente e musicalmente: um vídeo dos músicos ao vivo que é transmitido em um telão parece na verdade ser um compêndio de melhores momentos da turnê, mas em verdade é um registro ao vivo de cada um dos músicos concentrados, desenvolvendo as canções em seus epicentros harmônicos. Por vezes uma guitarra parece passar de um lado a outro das caixas de som, como a guitarra tocada com um arco de cello por Jonny Greenwood em “Pyramid Song”. Outras vezes, a parede sonora de música eletrônica transforma o ambiente numa verdadeira rave, como em “Idioteque”. Outras vezes a força da canção transborda ainda mais que no disco, como em “Present Tense” e “I Might be Wrong”. É o resultado desse exercício, desse experimento que ultrapassa a execução, que parece ser uma expressão à parte do universo do Radiohead. É como se necessitasse de uma fração de tempo, uma fórmula que gera uma magia distinta da de um estúdio, mas com a mesma fundação, a mesma força. Como se a mesma música estivesse nascendo uma segunda vez (ou terceira, ou milésima).

Um show do Radiohead (e um do Junun, e um do Flying Lotus) não é fácil de resumir. A sensação quando acaba é de um vazio esquisito, um vazio de continuidade, que só uma audição compenetrada e paciente de cada um dos discos, de A moon shaped pool a Pablo Honey, ou de King of the Limbs a Kid A, pode remediar e consolar.