Simulacre é a estreia de Potyguara Bardo

por em sexta-feira, 10 agosto 2018 em

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Em 1981, o filósofo francês Jean Baudrillard apresentou os conceitos de simulacro e simulação pela primeira vez num livro cujo nome era, vejam só!!, Simulacro e Simulação. Nesse tratado, Baudrillard defende que os simulacros são cópias ou representações de objetos da realidade, mas que não correspondem a objetos da realidade (por exemplo, ídolos, efígies, personagens). A realidade que conhecemos, pois, nada tem de conceitualmente real: tudo ao nosso redor não passa de ficção, já que vivemos num mundo de simulação, povoado de simulacros. A drag queen, cantora, atriz e performer Potyguara Bardo não só concorda como espalha a ideia dessa realidade imaginada em seu Simulacre, lançado nessa quinta-feira em todas plataformas digitais. O título do disco, inclusive, mescla o que há de mais millenial nas redes sociais e na nova realidade brasileira com a concepção de simulacro que aqui falamos: o simulacro também lacra.

O disco de Potyguara é um passeio referencial por diversos símbolos sonoros e visuais das últimas décadas; produzido por Walter Nazário, Dante Augusto e Mateus Tinôco, em colaboração com o Estúdio Dosol por meio do projeto Incubadora, há uma fileira de samples que vão de Xaropinho (do Programa do Ratinho) até o sucesso mossoroense do Youtube Zuzu, flertando com ritmos variados, entre lambada, reggae, house, chillwave e funk carioca. A produção bem cuidada serve de alicerce para a narrativa do disco, uma viagem de Potyguara Bardo sob efeito de “shimagic” à procura (ou abandono) de um Eu que a todo momento se esfumaça e se perde nas várias sendas que as canções produzem. Sem medo da livre associação, músicas como “Karamba” (com participação da drag potiguar Kaya Conky) e “Lambada do Flop” flertam com sonoridades brasileiras para as pistas; “Expedição”, “Plene” (com participação de Luisa Guedes, de Luisa e os Alquimistas) e “O Jogo da Vida” experimentam com as possibilidades vocais de Potyguara e são os momentos mais plácidos da obra; “Você Não Existe” parece fechar a narrativa sem respostas fáceis, explorando os limites dos simulacros (“você não existe e eu também não / tudo que tem nessa vida é fruto da imaginação”).

Com elementos pops que expandem a todo momento a própria sonoridade, a sólida narrativa que não desgasta o ouvinte, a estranheza e a irreverência que tanto estão em falta na música brasileira, Simulacre dá acesso a um mundo novo, que expande seus tentáculos para lugares que nem mesmo víamos na nossa “realidade”. Como a própria Potyguara aponta, é como uma viagem holística por dentro de sua identidade; mas, como mergulho existencial que é, em algum lugar dessa caminhada algo se ilumina e nos mostra o universal que há em toda forte experiência.

Arte: Pedro Eduardo