Os Mutantes: 50 anos de um clássico

por em quinta-feira, 16 agosto 2018 em

Data da foto: 1968
Arnaldo Baptista, Rita Lee e SÈrgio Dias Baptista, do conjunto Os Mutantes.
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As histórias em volta do trio Mutantes – que depois virou quinteto – são várias. A maior de todas é sobre a qualidade de seus discos que era reflexo deles como instrumentistas. Não bastasse isso eles ainda contaram com a participação de Rogério Duprat e do terceiro irmão Baptista, Cláudio, que era o engenheiro e professor Pardal por trás dos equipamentos da banda. O álbum de estreia, Os Mutantes, completa 50 anos ainda com cara de novidade. Mesmo com muita banda se dizendo experimental e psicodélica nos dias de hoje.

Em 1967 se apresentaram com Gil e orquestra executando “Domingo no Parque” com arranjos de Duprat. Arrancaram do público vaias e aplausos. O interessante é que meses antes do festival aconteceu a famosa passeata contra a guitarra elétrica onde estavam Elis Regina e o próprio Gil. Caetano, que não participou da passeata, se apresentou com a banda argentina Beat Boys. A sequência foi o surgimento da Tropicalia e o resto é história.

Os Mutantes “nasceram” pelas mãos de Ronnie Von que apresentava o programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, na TV Record, e batizou a banda assim graças ao livro O Império dos Mutantes, de Stefan Wul. Antes o grupo se chamava O’Seis – composto também por Raphael Villardi, Mogguy e Pastura – e já tinha lançado um compacto com as músicas “Suicida” e “Apocalipse”. Coincidência ou não, a banda surgiu no mesmo ano que Pet Sounds, dos Beach Boys, e Revolver, dos Beatles (influência confessa da banda).

Os discos dos Mutantes nunca venderam bem quando lançados, sempre foram vistos como esquisitos ou avançados demais. Fato é que, olhando bem, não são. Mas sim uma junção de muitas influências de uma vez só. No disco de estreia, das 11 músicas apenas 4 (O Relógio, Senhor F, Trem Fantasma e Ave Gengis Khan) são escritas por eles. Cinco são de gente da categoria de Humberto Teixeira/Sivuca ou Gil/Caetano. “Le Premier Bonheur du Jour” é de Frank Gérald/Jean Renard e fazia parte da antiga banda de Rita Lee, a Teenage Singers. “Tempo no Tempo (Once Was a Time I Thought)” é de John Phillips e ganhou uma versão em português.

Os Mutantes abre com “Panis et Circenses” já mostrando já mostrando a esquisitice do trio com orquestrações e colagens. Inclusive com um falso final e um retorno que leva ao final verdadeiro com diálogos e barulhos de objetos mostrando o que às vezes é o caos de uma refeição. “A Minha Menina” é de Jorge Ben e caiu como uma luva com seu violão com efeito e a guitarra de Sérgio Dias. A percussão dá o toque final ao samba psicodélico. “O Relógio” é uma imagem em forma de música com colagens musicais sobre a descrição de um relógio, a cara do Tropicalismo. “Adeus Maria Fuló” de Humberto Teixeira/Sivuca é um Baião sem sanfona. O xilofone é o que comanda o clima de sertão nordestino com sons ao fundo, mais uma vez dando a cara de imagem a música. “Baby”, de Caetano Veloso, com letra simples sobre uma série de coisas a se saber e fazer, ganhou uma cara pop com riffs e base no órgão.

“Senhor F” tem influência da televisão, de seus programas e personagens, que naquela época começava a se popularizar. Orquestrada por Duprat com a mãe de Rita ao piano e uma pegada irreverente conhecida do trio. “Bat Macumba”, mais uma de Gil e Caetano, é autoexplicativa. Uma mistura da cultura religiosa africana com o personagem herói. A pegada da percussão com a guitarra casa perfeitamente aliando viagem e dança. “Le Premier Bonheur du Jour” como escrito antes fazia parte do repertório de Rita Lee no grupo Teenage Singers. Originalmente uma canção folk que foi convertida em psicodélica.

“Trem Fantasma” é uma das minhas músicas favoritas da banda. Mais uma vez uma música transformada em imagem. No caso a narrativa de um passeio de trem fantasma. Quem já andou em um parque sabe dos altos e baixos do trajeto, do suspense, dos sustos e do alívio ao fim. A música transmite isso de forma perfeita. “Tempo no tempo” é uma versão em português da canção “Once Was a Time I Thought”, do The Mamas & the Papas, lançada dois anos antes. A letra parece que foi escrita para os dias atuais. O disco termina com “Ave Gengis Khan” e mantém o clima psicodélico e experimental de todo o álbum com a voz de César Baptista, pai de Arnaldo e Sérgio, ao contrário e repetição do título da canção por toda a música com marcação inicial do piano e seguindo com vários instrumentos em diferentes dinâmicas.

O disco é e será sempre uma amostra da criatividade do grupo com a junção de música universal e brasileira, seja na sonoridade como nos temas. Aliando o regional ao universal. Além do trio Arnaldo/Rita/Sérgio Dias, que tocaram vários instrumentos, a obra ainda contou com a participação de Dr. César Baptista, Dirceu (bateria) e Jorge Ben (violão em “A Minha Menina”). A Produção musical é de Manoel Barenbein, arranjos de Rogério Duprat, Stélio Carlini como técnico de som, foto da capa de Perroy e ilustração da contracapa pelos próprios Os Mutantes.