O Filho de José e Maria: de aberração a cult

por em quarta-feira, 29 agosto 2018 em

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O Filho de José e Maria, de Odair José, não tem nada a ver com a música brega. Os discos anteriores de Odair, por imposição das gravadoras, apresentavam  uma diluição da música Roberto Carlos,  formatando o que conhecemos por música brega. Mas o DNA roqueiro corria nas veias do artista e  não  foi  de estranhar que,  um dia,  ele fosse fazer algo mais ousado.

Em 1977, com a carreira consolidada, ele gravou esse disco. As dez faixas tratam do nascimento, vida, casamento, viagens psicotrópicas, sexualidade e morte aos 33 anos de um personagem chamado Jesus. Na narrativa, os pais do menino Jesus, fizeram a criança antes do casamento e tiveram que se unir em matrimônio às pressas para não difamar a família. No entanto, o menino não era filho de José, e sim de uma relação extra-conjugal de Maria!

O cantor continua sua história com o divórcio do casal, aprovado no Brasil naquele ano, passa por outros tabus como uma possível inclinação homossexual, o uso de drogas e a ronda constante da morte. Com esse LP acredito que ele queria discutir sobre certos tabus na época – já explorados por ele em outras músicas – e usou a história de Jesus como metáfora.

O disco tem como músicos a banda Azimuth (que tocava com Hildon) e que dá uma sonoridade soul, rock progressivo e MPB. Apesar da proposta sofisticada, o objetivo de Odair era ser o cantor pop de guitarra na mão tal qual Peter Frampton.  Porém a obra foi considerada imoral e essa polêmica provocou seu fracasso. Trata-se de uma formidável ópera-rock que anos depois foi redescoberta e se tornou cult. Culminando com sua execução no Teatro do SESC 24 de Maio, em São Paulo.

Foto: Bruno Christophalo