Um deus, um homem, um fantasma, um guru

por em terça-feira, 23 outubro 2018 em

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A memória é como uma névoa densa e incoesa. É lugar comum achar que a saudade, para existir, precisa antes respirar, como se ela exigisse um tempo mínimo, uma armação cronológica essencial para desenvolver-se enquanto som. Mas existem aquelas lembranças que mal se materializam diante da memória e já fazem ecoar um tipo pungente, pulsante e violentamente imediato de saudade.

No domingo retrasado (14/10), eu já sentia saudade de ter visto o show do Nick Cave (e suas sementes do mal) antes mesmo de eles terem subido ao palco. Que lembrança colossal, oh Buddha! Que saudade, oh Allah! Ecos de bronze e aço.

Quando os primeiros acordes de “Jesus alone” começaram a soar, preenchendo o Espaço das Américas com timbres sombrios e ruídos sincopados, a platéia pareceu se dividir entre duas reações fundamentais: euforia insana – marcada por gritos, assobios, grunhidos e mãos no ar – ou catatonia hipnótica – olhos vidrados, falta de ar, silêncio quase tântrico. Confesso que fiquei estranhamente preso entre os dois: gritei, mas foi mais como um espasmo do que como um louvor consciente. Era difícil acreditar que eu estava presenciando a “segunda volta” desse sujeito que é uma espécie de misto entre guru punk e messias rocknroller.

A turnê de 2018 de Nick Cave, que passa pela América (Latina e Não-latina), segue divulgando o aclamado disco Skelleton tree (2016) – (estonteante) décimo sexto disco do artista, sob o frontispício “& The bad seeds”, e primeiro disco lançado desde a trágica e acidental morte de seu filho Arthur Cave. Como não poderia deixar de ser, esse disco é ainda mais sombrio, denso e lutuoso que a maioria dos discos de Cave, projetando-se quase como uma peça única, tingida por tons de desesperança. Nesse show em São Paulo, canções do mais recente disco, como “Jesus alone”, “Magneto” (sons que inauguraram o setlist nessa gig), “Girl in amber” e “Rings of saturn” (última música do bis), fizeram par com grandes clássicos da discografia do poeta rock’n’roll – e tiveram igual impacto no ávido público, diga-se de passagem.

Contrariando possíveis expectativas criadas pelo clima do disco, no entanto, o show de Cave passa longe – muitíssimo longe – de ser algo monocromático ou lento.

Depois de abrir o show com dois sons do disco mais recente, foi a vez de Warren Ellis (o abutre barbudo que faz as vezes de violinista/guitarrista/tecladista/pianista/flautista/“esposa do trabalho” de Cave) pegar a guitarra e puxar a magnífica mais-longa-que-dez-minutos “Higgs Boson Blues”, para a surpresa do público e meu delírio pessoal. É uma das minhas favoritas… e eu realmente não imaginava que eles mandariam esse petardo. Hannah Montana, motherfucker!

Na sequência, “Do you love me?” fez tremer o chão de concreto e vibrar as paredes. Mas foi com “From her to eternity” – uma das mais antigas do set – que se instaurou uma das atmosferas de insanidade, noise e caos absoluto mais intensas do show… e isso deve ter se estendido pra mais de 15 minutos. Eu não faço ideia. Who cares?!!

Mantendo a pressão no talo (!), a dobradinha “Loverman” e “Red right hand” foram a prova cabal de que o homem é, de fato, algum tipo de entidade sobre-humana subterrânea e obscura, espécie de feiticeiro maligno que eventualmente emerge das profundezas e pisoteia o solo terrestre com suas patas de bode e sua voz vulcânica. Coube a “The ship song” a tarefa de acalmar os ânimos e preparar o público – completamente transtornado a essa altura – para um dos momentos mais magnificamente sublimes do show: “Into my arms”. Essa, que eu considero uma das canções de amor mais bonitas já escritas por mãos humanas, foi anunciada como uma “oração pelo Brasil”; e os versos finais da música nunca ressoaram tão delicada e profundamente políticos (And I believe in love/ And I know that you do to/ And I believe in some kind of path/ That we can walk down, me and you/ So keep your candle burning/ And make her journey bright and pure/ That she will keep returning/ Always and evermore).

“Shoot me down”, “Girl in amber” e “Tupelo” ecoaram densamente no pulmão de aço e concreto do Espaço das Américas, mas foi “Jubilee street” que elevou o show novamente a níveis estratosféricos. “I’m transforming/ I’m vibrating/ Look ate me now” cantado aos berros – com direito a solo overdrive-noise de violino de Woz – é um troço que não se vê todo dia!

Daí pra frente, a fina barreira espaço-temporal que mantinha aquele show sobre a terra se partiu, e todo o lugar subiu – ou desceu – a uma dimensão paralela. Em “The weeping song” Nick Cave andou pelo meio do público e se juntou ao coro de “Ele não” (“Ele não… indeed”, disse o guru), que surgia e ressurgia entre as músicas; em “Stagger Lee” parte da platéia estava em cima do palco pra gritar “Bang bang bang” junto com o fantasma obscuro do caos (com direito ao homem afastar os celulares das mãos dos que tolamente “faziam lives” no palco… aquele tapa delicioso na geração vivo-a-vida-através-da-tela-do-meu-smartphone). Fechando o set, “Push the Sky away” fez derreter todos os neurônios saudáveis do meu cérebro. Essa canção é um testemunho de como as ideias de rock’n’roll selvagem e velocidade/barulho não são intrínsecas – ao contrário do que boa parte da rockeiragem maldade acha.

Depois daí – quase que imediatamente – seguiu-se o bis. “City of refuge” parecia novamente falar do Brasil (You better run!); “The mercy seat” – adicionada ao set da noite aparentemente de última hora (“voltem, voltem” ordenava ao maestro à banda movediça, que já se reorganizada para a próxima canção) e anunciada como “uma das muitas canções que eu compus em São Paulo” – fez a casa cair pela bilionésima vez; “Jack the ripper”, a grande surpresa da noite (tocada pela primeira vez ao vivo em 2018), conseguiu, de algum modo, pôr mais lenha naquela fogueira que, àquela altura, parecia tomar em labaredas todo o hemisfério sul.

Por fim, “Rings of Saturn”, chutando uma última vez o diafragma do vulcão, fez a realidade derreter e impregnar-se eternamente como uma memória viva e flutuante no espaço, marca intangível em cada retina, em cada tímpano, em cada coração. A noite se foi em gritos de “This is the moment/ This is exactly what WE are Born to be/ Then this is what WE do/ And this is what WE are”.

Voltar pra casa e reencontrar a realidade não parecia mais uma opção. E, de algum modo, eu sinto que ainda estou lá, preso ao momento em que os primeiros acordes ressoaram nas paredes da moderna armação de aço e carne, timbre, cobre, vulcão, barulho, sereias………………………………

Foto: Fabrício Vianna