Monocromáticos – 10 anos dos Automatics

por em sexta-feira, 28 janeiro 2011 em

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Em 2011 a banda The Automatics completa 10 anos de rock. Sempre produzindo, tocando em Natal, em cidades vizinhas e chegando até a São Paulo, onde tiveram a honra de gravar no estúdio Quadrophenia, de Sandro Garcia. Os 10 anos servirão para novos lançamentos e para consolidar a banda como uma das “resistentes” aos modismos que passam por Natal. O som, que apesar de incluir algumas novidades aqui e acolá, é monocromático. Tal qual os pensamentos de Alexandre Alves (baixo/guitarra/vocais/harmônica) que não mudam ao longo do tempo. Na entrevista a seguir ele fala sobre a banda, os selos (Solaris e Dia 32), loja, bandas, shows, produção. Enfim, sobre o que permeia a produção musical. The Automatics é formada também por Henrique Pinto (guitarra / violão / baixo / vocais / loops / teclados), Augusto C. Tavares (bateria) e Christiane Pimenta (baixo).

Primeiro fale sobre esse box-set que a banda irá lançar como parte do aniversário de dez anos dos Automatics.

A ideia inicial do box-set era de lançar uma caixa contendo quatro discos, sendo um DVD com nossos 08 vídeos – incluindo um novo, “Monocromia” -, uma coletânea com vinte faixas, nas quais duas são inéditas, um disco em MP3 com toda a discografia dos nove álbuns da banda e os dois EP’s, o que juntando tudo ultrapassa as 100 faixas, e mais um disco ao vivo, que seriam as gravações feitas no Dosol Música Contemporânea de 2009 e 2010. Por motivos de custos, o CD ao vivo vai ficar somente na discografia em MP3 e será lançado em separado. O box-set ainda vai ter um livreto colorido com cerca de 20 páginas com fotos, textos publicados na imprensa sobre a banda ao longo dos 10 anos. A intenção é a de fazer um balanço dos dez anos da banda, não é o de comemorar nada. Acho que banda de rock norte-rio-grandense de 2001, daquelas que gravam, lançam discos, divulgam e tocam ao vivo, nem que seja 10 vezes por ano como nós, somente estão “vivos”, infelizmente, de 2001 pra cá, Os Bonnies e nós, prova de que algo está errado…

Nesse tempo de banda a história dela se mistura com o selo Solaris. Fale da transição da loja, para selo, o fim dele e o surgimento do Dia 32.

Olhe, a Solaris começou em 1996 lançando fita K-7, inclusive vendemos centenas de fitas numa época de explosão do rock independente brasileiro. Fizemos a transição para os CD’s e CD-R’s ainda em 2000, abrimos a loja nesse mesmo ano e fechamos no ano seguinte por não termos tempo de nos dedicarmos a ela. Começamos com 500 CD’s e terminamos com quase 1.000. Já quanto ao selo, em 2006 vi que eu estava sobrecarregado para manter a Solaris. Era gravação, arte gráfica, capa, show, foto, tudo para eu resolver. Desisti, mas havia uma razão… Muita gente pensa que foi por causa da queda nas vendas, mas os CD’s nunca deram lucros, eram apenas parte do capital de giro. O que matou a Solaris foi simplesmente a preguiça das bandas com as quais eu lidava, fossem elas daqui ou de fora, era uma letargia crescente. Depois que decretei o fim da Solaris, um alívio para mim, formei o Dia 32 apenas para lançar os discos dos Automatics e algumas coletâneas para divulgar a cena “poptiguar”.

O Automatics, como suas outras bandas, sempre seguiu uma linha sonora definida. Simples, influenciada principalmente por nomes americanos e ingleses. Porque nunca tentaram inserir outros elementos, outras influências?

O Movement, meu primeiro grupo, era uma guitar band à la Class of ’86 inglesa, de grupos como Pastels, Loft, Razorcuts, mas os caras também gostavam de R.E.M. e Smiths. Já o Chronic Missing era barulhento, “noise pop” à la Curve, Darling Buds, Lush, vocalistas femininas sob barulho ao mesmo tempo. Henrique Pinto, guitarrista dos Automatics, tocou na última formação. Depois, ele e eu montamos o Girassol-em-Fuga em 2000 para fazer letras em português, eram duas guitarras e sem baixo, talvez soando mais pop, mas não deu certo por vários motivos. Depois, comprei um baixo modelo Jazz Bass e comprei um pedal de distorção da Boss. Chamei Henrique para ir tirar um som no estúdio de Vlamir (Cruz), onde Joab (primeiro baterista do Bugs) trabalhava. O primeiro ensaio foi nesse dia, 30 de dezembro de 2001. Desde a época do CM que o meu modus operandi é esse. Não sou “músico”, sou ultra-limitado, mas crio canções, lembro da posição das notas e toco, do mesmo jeito que é nos Automatics hoje. O único músico na banda é Henrique, mas ele compõe bem menos que eu hoje em dia. Para mim, existem apenas dois tipos de banda: as que mantem suas características, criando uma sonoridade que a marque, e as que experimentam, procuram novos caminhos ou novos instrumentos. Pessoalmente, eu estou mais preocupado em criar canções simples e melódicas, que foi o que sempre escutei. Big Star, Ramones, Velvet Underground fase Loaded, New Order, Jesus and Mary Chain, The Church, B.R.M.C., For Against, e jamais posso esquecer do Pin Ups, de São Paulo. Depois de escutar o LP Time will burn, de 1989, eu decici tocar daquele dia em diante. Quanto ao nosso som, já acho os Automatics até diversificado de acordo com nossas limitações sonoras. Por exemplo, em cada disco nosso há uma faixa instrumental, fato que nenhuma outra banda de rock da cidade que tenha um vocalista faz com frequência. Também tocamos frequentemente de forma acústica, inclusive ao vivo, coisa que raramente ocorre com outros grupos potiguares. Nossas primeiras canções eram de dois a três minutos, Buzzcocks total. Já gravamos “Neblina” no álbum triplo e só ela tem mais de 17 minutos! Já colocamos loops de bateria em várias faixas e também constantemente usamos teclados nas gravações. Então, acho que existem outros elementos, mas sempre em “linha reta”, estrofe, refrão, estrofe, refrão… gosto de melodia e harmonia, se tiver barulho no meio, melhor. Essa questão de “novidade” na música pop para mim é fora de questão. O Teatro enquanto representação artística, está aí há mais de 3.000 anos e quase não mudou nada. Para quepensar que o tal do rock and roll perdeu sua vitalidade se ele tem apenas pouco mais de meio século?

Fale sobre a tour de São Paulo e outros shows interessantes que já fizeram.

A mini-turnê que fizemos em São Paulo, em julho de 2005, serviu para desmistificar uma cena que não é muito diferente daquelas existentes nas capitais do nordeste, o que eu já desconfiava. Wagner Moura, baixista do The Concept, um cidadão que está tocando em bandas independentes desde 1990, disse pra mim quando cheguei lá: “Você vai ver a enganação que é a tal cena paulistana”. Seriam oito shows, mas foram só seis. Entre eles tocamos numa Funhouse lotadíssima, tocamos no Outs meio lotado e tocamos no Dynamite Pub para exatas doze pessoas, ironicamente o menor público dos Automatics até hoje. Cara, São Paulo já tinha 12 milhões de habitantes e havia apenas uns 10 lugares decentes dentro do aspecto do cenário independente. A única diferença é que tinha cachê fixo e havia amplificadores Marshall pra tocar… Não é muito diferente de Natal, com 800 mil habitantes e somente o Dosol levantando a bandeira do rock, ou de João Pessoa, com o Espaço Mundo. Se você for comparar a quantidade de habitantes e a quantidade de lugares pra tocar, vai dar empate. Henrique vive dizendo que quer ir tocar lá de novo. Eu prefiro tocar no nordeste, PB, PE, AL, CE, SE, e desbravar o interior potiguar um dia… Alguns shows legais ficaram marcados na minha mente. Tocamos no Cantagalo, em Parnamirim, e isso durou mais de duas horas, tocamos quase 30 músicas e os loucos na frente, gritando. Outra apresentação memorável foi no fechamento do Bar Pé na Areia, em Ponta Negra, quando tocamos de frente para o mar, olhando as ondas e a luz solar se esvaindo. Viagem total. Outros shows marcantes foram o de 2005 junto com os Mellotrons no Teatro Sandoval Wanderley lotado e o MADA de 2004, quando o cara do som de palco disse depois que nosso volume estava quase igual ao do Sepultura de acordo com o medidor de decibéis. Me acabei de rir com essa história.

Fale da influência de Sandro Garcia no trabalho de vocês.

Olhe, conheço Sandro desde 1997 e sempre curti o trabalho das bandas dele, Charts, Momento 68 e Continental Combo. Acho a música que ele produz simples e talentosa. Eu gostaria muito de ter composto “Na estrada cinza”. Quando fomos a São Paulo, vimos o C.C. ao vivo e gravamos duas faixas acústicas no estúdio dele, com Sandro produzindo e depois tocando sua guitarra de 12 cordas. Surreal. Quando acertei a vinda dele pra cá em 2009, disse que queria tocar bateria e chamei Henrique pra tocar baixo. Nunca mais vou esquecer que toquei “Na estrada cinza” e outros pequenos clássicos do psicodelismo-folk (!) nacional.

Como anda a “cena” de Natal? Mudou alguma coisa no(s) último(s) ano(s)?

Bem, da última vez que falei sobre isso deu muita confusão. Nos últimos dez anos, já vi os últimos resquícios de mangue beat na cena potiguar, já vi a febre do hardcore melódico, já vi os órfãos dos Los Hermanos – pra mim, uma das piores bandas dos últimos anos -, já vi trocentas bandas de new metal, já vi tentativas de eletropop na cidade e agora estou vendo o emo chegando e já já indo embora. Os Automatics continuam tocando há dez anos, nem que seja para os 50 ou 100 que vão aos shows, não importa. O que eu quero dizer com isso? Que Natal é uma cidade modista e que é difícil mudar isto, parece que faz parte da juvenília potiguar dos últimos anos. Pouca informação e aquele desejo “aborrescente” de tocar. Dou aulas para esta faixa etária adolescente e pós-adolescente e o que eu vejo beira a alienação sobre a realidade, incluindo a musical, parecendo que o tal rock and roll nasceu hoje de manhã. Quanto às bandas, Calistoga e Bonnies são dos mais antigos e que continuam tocando rock, seja pra dez ou 1.000 pessoas, não importa. Da safra mais nova, Bandini, Planant, Hey Apple e Alien TV me deixaram contente, fazendo com que os Automatics não sejam mais os “estranhos no ninho”. Não posso deixar de citar os Camarones (Orquestra Guistarrística)como o único projeto potiguar com chances de aparecer na grande mídia, pois são organizados e disciplinados como nenhuma outra banda local, e também dizer que se não fosse gente como Rafaum, que é o chefão do Quintura em Mossoró, e a dupla dinâmica Ana Morena/Anderson Dosol, esse Estado só teria festival de banda cover. E olhe que eu já presenciei pessoas desta cidade defendendo uma tal “utilidade cultural das bandas cover”, inclusive pedindo respeito pelo trabalho. Quando é que uma cidade com pensamentos retrógrados como este pode ter algum avanço cultural na área musical, em que um “músico copista” se acha no direito de ter relevante importância? Acho impressionante a falta de inventividade de certas pessoas que se dizem “músicos”.

O que a entrada de Christiane Pimenta (baixo) na banda melhorou?

Christiane já tinha sido vocalista do Chronic Missing na sua segunda formação, entre 1998 e 1999. Nas composições a partir de Crepuscular, nosso cd de 2006, percebemos que a gente precisava de uma segunda guitarra. Primeiro, tentamos com Rafael F., que é dos “mortos-vivos” Deadfunnydays. O horário ficou complicado, mas mesmo assim ele tocou várias vezes conosco nos shows de 2008. Depois, com a entrada de Chris em 2009, o som ficou mais trabalhado, com as duas guitarras se completando e Henrique mais solto para fazer os arranjos. Prova disso são as faixas “Hide” e “Out in the sun”, impossíveis de funcionar somente com uma guitarra. Além do mais, eu me livrei do baixo, instrumento que detesto tocar. Com Chris, algumas faixas ficaram mais leves e outras mais pesadas. O baixo distorcido em algumas faixas, como “The breeze”, é invenção dela. E ela adora tocar nossas músicas mais barulhentas ao vivo.

Há planos da banda fazer tour para divulgar Atlantic e a box-set comemorativa?

A ideia é tentar tocar nas capitais do Nordeste que já tocamos, João Pessoa e Recife, além de outras que não tocamos ainda, como Maceió e Aracaju, além de Fortaleza. Recebemos uma proposta recente para tocar em Mossoró e Areia Branca, que deve se concretizar em breve. Devemos fazer também mais apresentações acústicas este ano, e assim tocar em locais que jamais tocaríamos devido ao barulho que produzimos ao vivo.

Leia resenha sobre Atlantic, mais novo lançamento do Automatics, e baixe.