Módulo 1000: Lançado ao espaço e esquecido

por em domingo, 15 maio 2011 em

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É muito fácil cultuar Black Sabbath, Pink Floyd, Led Zeppelin e demais bandas gringas que foram os pais do hard rock, do progressivo e do metal. Um pouco de boa vontade, ouvido inquieto e falta de preconceito com o que é produzido nacionalmente, mais o auxílio do google, pode levar a boas bandas brasileiras que fizeram bonito nos mesmos estilos das grandes mundiais. E praticamente na mesma época. O que prova que a influência passava da mera cópia, já que era alimentada com criatividade.  A Módulo 1000 foi uma banda carioca formada por Luiz Paulo Simas (órgão, piano e vocal), Eduardo Leal (baixo), Daniel Cardona Romani (guitarra e vocal) e Candinho (Bateria). A banda atacava com altas doses de progressivo, psicodélico e hard rock. Muito orgão, bateria inquieta e solos de guitarras ferozes. O resultado disso foi o álbum Não Fale Com as Paredes, lançado em 1972.

A história começou como a de tantas outras bandas, com amigos formando um conjunto. Na época tocavam em bailes, inclusive nos dos clubes Fluminense e Botafogo. Entre os covers estavam Beatles, Stones e semelhantes. Ainda com o nome de Código 20 e outra formação, a banda ganhou concurso de bandas amadoras na TV Globo e faturou quatro apresentações em um programa e mais alguns instrumentos. Como Módulo 1000 fizeram uma temporada na boate Catraka tocando Beatles, Hendrix, Air, Stones. Antes de gravarem o LP de estréia emplacaram músicas em compilações que não agradaram a todos os músicos. Mas a gravadora Odeon sim. Nesse período começaram a compor todas as músicas que saíriam no álbum de estréia. A guinar pro hard rock/psicodélico que iria caracterizar a banda dali em diante. A vontade de criar levou os quatro rapazes a um som mais forte, mais pesado, mais soturno. Os shows já eram bem frequentados, rendendo até uma prisão por parte do DOPS em Minas Gerais. A “façanha” se deu pela letra “subversiva” em latin de “Turpe Est Sine Crine Caput”.

Depois da temporada em São Paulo na boate Catraka, de volta ao Rio de Janeiro, a banda teve a sorte de ter trabalhado com o empresário Marinaldo Guimarães. Figura que gostava de provocar reações da platéia. “Aberto para Obras” pode ter representado o auge de suas proposições estéticas. Montado no Teatro de Arena do Largo da Carioca, o espetáculo obrigava o público a entrar por corredores chegando aos palcos separados por cercas de arame farpado. Após chegar aos lugares, duas opções: a Módulo 1000 abaixo, ou O Terço acima. Também havia uma mulher preparando pipoca em um fogão e mais adiante, sentado em um vaso sanitário, o irmão de Jorge Amiden (d’O Terço) empunhando estático um violão por três horas seguidas, apenas para quebrá-lo no fim.

O álbum foi finalmente gravado pela Top Tape, com o aval do DJ Ademir Lemos, que produziu o disco. Mesmo a banda estando em um período de transição, resolveram gravar as músicas que já eram tocadas nos shows. O resultado foi uma grande dor de cabeça para o diretor da gravadora e para os técnicos. O diretor chegou a classificar o disco como merda. O que foi rebatido pelos músicos, já que sendo ele diretor, não havia aparecido nas gravações.

A faixa de abertura “Turpe Est Sine Crine Caput”, com letra em latim, vozes e instrumental soturnos que cabem em um filme de amor como A Profecia já mostram a que vem o álbum. A homônima “Não Fale Com Paredes” lembra Sabbath. Mas no meio da música uma surpresa. A bateria fica sozinha fazendo viradas com o vocal ao fundo, lembra muito afoxé, um Olodum psicodélico. Até a guitarra e o orgão entrarem de novo dando novo peso. O título do álbum fazia referência ao período de ditadura que o país passava. Haviam muitas paredes, principalmente ligadas as artes. Chamadas muitas vezes de subversivas. “Espelho” com voz, violão, guitarra e orgão, lembra Mutantes. A letra fala em entrar no espelho, mudar de lugar. “Lem – Ed – Êcalg” é glacê de mel, ao contrário. Apenas 1m18s de psicodelia instrumental, improvisação, uma jam alucinante. “Olho Por Olho, Dente Por Dente” tem letra minimalista, a repetição do título acrescido de “quanto maior o pulo, maior a queda”. A viagem cabe a parte musical. Sombria, a repetição causa incômodo. “Metro Mental” é uma jam sofisticada onde os músicos mostram suas habilidades com quebras de andamento. “Teclados”, como o nome já entrega, é uma música só com o instrumento. Uma suave melodia de menos de dois minutos. “Salve-se Quem Puder” é quase um blues, só que fantasmagórico. A temática fala de se salvar de várias coisas, inclusive boas. Em muitos momentos é necessário mesmo. Encerrando o álbum “Animalia” é mais uma curta música sem letra onde os instrumentos dialogam entre si formando uma atmosfera densa com menos de dois minutos.

O melhor é que a Módulo 1000 não era única. Se muito do rock brasileiro ficou perdido entre Jovem Guarda e anos 80, é por simples falta de boa vontade de quem gosta do estilo em buscar referências diferentes. Som Imaginário, A Bolha, O Têrço, os próprios Mutantes, até Ronnie Von que, diferente de Erasmo e Roberto, enveredou por uma carreira psicodélica. A Módulo 1000 chegou a participar do V Festival Internacional da Canção. E como outras em sua época, não conseguiram boas vendagens. Muito provavelmente pelo som inovador que assustava a maioria ouvinte de MPB, Jovem Guarda, Samba e outros estilos tão comuns, banais ao dia a dia. E ao contrário de outras bandas que seguem o estilo progressivo/psicodélico, as músicas não são extensas ao ponto de se tornarem um engodo.

A banda acabou em 1973 pela falta de perspectivas, mesmo estando com músicas prontas para gravar um segundo álbum e estando a caminho de uma nova rota musical com inclusão de bandolim e sintetizador. Os integrantes seguiram carreira musical. Cada um por um caminho diferente.

O álbum existe para vender no mercado. O preço passa dos R$ 100.00. O que não chega a ser muito, já que a Polysom está relançando discos das décadas de 80/90 a R$ 85.00. O disco foi relançado por um colecionador de discos do Rio de Janeiro que comprou os direitos junto a Top Tape e transformou o LP em CD, com um número limitado de cópias. O CD saiu pela Zaher Zein/Projeto Luz Eterna. Mas sem divulgação. A obra também está em coletâneas e listas na Europa como um dos mais influentes e raros do mundo.

Módulo 1000 – Não Fale Com Paredes

01. Turpe Est Sine Crine Caput
02. Não Fale Com Paredes
03. Espêlho
04. Lem – Ed – Êcalg
05. Ôlho por Ôlho, Dente por Dente
06. Metrô Mental
07. Teclados
08. Salve-se Quem Puder
09. Animália

No CD, além das nove faixas originais, ainda vieram “Curtíssima” e “Ferrugem e Fuligem”, gravadas em outro período.