Milk Music volta mais a fim de confundir do que de explicar

por em sexta-feira, 30 junho 2017 em

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Nos termos atuais do jogo da música, independente ou não, a Milk Music é um autêntico bicho do mato. O quarteto de Olympia, Washington, não tem Facebook e mesmo já tendo quase dez anos de estrada, só entraram no Spotify anteontem. Os caras praticamente só têm um site bem fuleiro, desatualizado desde 2013.  Acompanhar as novidades da Milk Music é um caça ao tesouro por blogs de download, sebos virtuais, zines e  sumidouros de vídeos no YouTube – aquele tipo de coisa que fazíamos a pé nos tempos em que a MTV prestava pra alguma coisa e vinil era mais barato que CD. Por isso e pelo som no melhor estilo guitarra-brisa-pura, é uma das bandas que mais contribui para devolver a graça de curtir som nos dias digitais.

Não é o caso de ouvir a banda só pela dificuldade de encontrar os discos. A onda também é entrar para um grupo seleto de fãs que trocam informações e impressões sobre shows em comentários do YouTube, blogs de downloads e fóruns sobre música, como viajantes que deixam bilhetes em pontos estratégicos da estrada, para ajudar os que vierem depois.

Até pouco antes do lançamento do novo Mystic 100’s, a página sobre a banda na WikiPedia continha a frase: “Se você busca novidades sobre o Milk Music, lamento informar que a banda não dá sinal de vida desde 2015″.  Depois que o disco saiu, alguém editou a página e removeu a frase. Mas tava lá, juro.

Enfim: depois de soltar meus foguetões particulares e ouvir o Mystic 100’s  umas três vezes com o volume topado, fui atrás de saber mais sobre disco e por onde andava a banda nos quatro anos que correram desde o debute, Cruise Your Illusion.

Em linhas gerais, o som continua guitarreiro e chapado (mais sobre isso adiante). A novidade é que a banda pode mudar de nome e daqui pra frente, atender pelo nome do disco – Mystic 100’s. Não me surpreenderia se a mudança tivesse a ver com o aplicativo de streaming da Samsung, mas na verdade me interessa mais a disposição da banda em criar confusão com isso, publicando o disco no Bandcamp com o nome de Milk Music, mas assinando o créditos do álbum como Mystic 100’s. Fuleiragem.

Mesmo que o nome seja novo, as pessoas por trás dele continuam as mesmas – Alex Cohen (guitarra, vocais), Charles Waring (guitarra), Dave Harris (baixo), Joe Rutter (bateria). A munheca também continua firme nas plalhetadas, com algumas diferenças.

É um disco com menos senso de urgência do que tudo que o Milk Music lançou antes. Mais contemplativo, mas não menos pesado. O nome do disco não é grátis. A angústia espiritual já apareciam no disco anterior, vide “Crusing With God”. No disco novo, a releitura particular do misticismo continua pelo prisma de um fuzz topado, em faixas como “He is Coming”, “Who’s Been In My Dreams” (linda e dolorida demais!) e “Dare to Exist”.  A última, uma porradinha das boas com um riff grudento em par com os de Beyond Living, traz a pérola poética do disco: “There’s too much gravity in the world/ For you to exist”.

“Crying Ward” que ocupa no disco novo a posição estratégica que foi de “Illegal and Free” no disco velho é conhecida nos shows há algum tempo. Ela abre esse set completo de 2015, em exibição  permanente no YouTube:

A saideira é “Burning Light”, faixa ex-instrumental do Beyond Living que agora ganhou letra. Fim de um ciclo? Se for, OK porque o som continua joia.

Tchau, Milk Music;  olá, Mystic 100’s.