Meia noite na Rua Chile ou outra volta dos que não foram

por em sexta-feira, 10 novembro 2017 em

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Entrar na Rua Chile nessa quinta feira de novembro (09/11) foi uma experiência semelhante à de Gil Pender (Owen Wilson) em Meia Noite em Paris (2011) – a diferença é que entrávamos no ano de 2008 de volta, com os mesmos freqüentadores de matinês do Dosol, aqueles que já viveram a juventude mais extrema, aqueles que hoje já são aposentados dessa vida de ROCK, outros que já denotam o quase decênio nas costas e trazem consigo outra vida, outras marcas. Entretanto, para todo natalense que viveu a vida de Rua Chile entre 2004 e 2012, a quinta feira 09/11 era um dia de êxtase. Era a volta do Calistoga, o que pra nós foi o mais perto de El Paso que chegamos, o que pra nós era o respiro de uma forma contundente e transcendente de fazer música, o que pra nós era o Norte, a maior banda possível. Nessa noite, com o acréscimo das bandas Dot Legacy (FRA) e Medulla (RJ), em um dos Sideshows do Festival Dosol 2017, o Calistoga voltaria aos palcos, e nada mais importava. Destarte, peço perdão aos interessados, mas deixarei de lado as apresentações das outras bandas, com um pequeno adendo: o Dot Legacy, surpresa do Festival Dosol de 2015, parece ter perdido um vigor que quase botou abaixo o El Rock, o próprio Dosol e algumas cidades do interior do RN naquele ano. Agora a banda está higienizada, séria, comportada. Triste fim dos mais loucos franceses.

Ademais da apresentação longa e (para alguns) empolgante, talvez, dos franceses, havia umas duas gerações de natalenses e não-só-natalenses à espera do Calistoga e seu repertório de memórias ali. Uma ansiedade quase incrédula. Dosol cheio como só nos idos do final dos anos 2000, figuras míticas que só baixavam ali em 2007 ou 2008 ou 2009.

Sem aviso prévio, sem apresentação, tomados por essa ansiedade que vem de 5 anos dormitando, o Calistoga estava no palco tocando “New Way To Say”, como em 2006, como em 2007, como em 2008. Na platéia, as mesmas pessoas que já estiveram ali em 2006, em 2007, em 2008. O Calistoga tocando novamente é uma promessa da vida, uma potência – é um aviso de que estamos nós aqui fluindo, que as águas continuam a ir e vir sem perder sua força. Os meninos no palco (o vocalista Dante Augusto, os irmãos Gustavo e Henrique Rocha, baixo e guitarra, respectivamente, o guitarrista Rafael Brasil e o baterista Daniel Araújo, com o antigo batera Fernando Gomes dividindo o set) estavam por demais à vontade nesse reencontro, como se remontassem a um tempo sem data, um presente puro, um laço com aquele lugar e com aqueles que estavam ali de forma quase espiritual, sim.

Depois da antiga “New Way to Say”, a fileira de hits variou entre a fase final da banda, mais experimental e psicodélica, com “Hopeful Air”, “Happy Tool” e “I Believe”, e grandes momentos da discografia egressa, com o primeiro baterista Fernandinho assumindo as baquetas (Get Together, Sanity Seeker, Accepting You), produzidas ainda sob o impacto das audições de hardcore e screamo + At the Drive-In, American Football, Faraquet e cia. A banda como um todo, como já frisei, nunca esteve tão à vontade; era visível a alegria de todos, a descarga emocional fortíssima, o modo como vocalista Dante Augusto parecia crescer uns 3 metros no palco – em completa identificação e comunhão com a platéia, que cantava junto e se apinhava ao pé do palco. Os limites entre palco e platéia não eram assim tão demarcados, era como se fosse uma coisa só. Vendo de dentro, a experiência era ainda mais potente.

Após o Calistoga e seu show de 1h, feito pra amigos e fãs, e pra capturar um ou outro desavisado, a carioca Medulla fez seu show também pra fãs (creio). Peço perdão novamente, mas não sei apontar o que aconteceu no show dos cariocas. Acho que os fãs ficaram felizes.

Mas o cerne dessa noite, o que estava no ar, era um tempo que passou e não passou, e que só se eterniza e permanece na música, num modo de captura que só essa expressão permite. Em notas, em harmonias, em letras que muita gente se identifica. Na vontade expressa na entrega desses músicos. No palco e fora dele, a experiência purificadora do Calistoga (aqui num exemplo direto, mas também tudo aquilo em que depositamos um afeto) parece um consolo e uma promessa de que algo não acabou, de que há certas sensações que compartilham daquilo que calhamos de chamar “eterno”.

Foto: Pablo Dias