Manifesto Sobre o Despedaçar

por em sexta-feira, 26 outubro 2018 em

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Parece que essa sexta é a última de todos os tempos. Os sinais são fortes. Depois do split Falso/Underground Morto agora é a vez da Deuszebul e Sanskara Drone Ensemble. Após o player com a música “Manifesto Sobre o Despedaçar” leia as palavras que estão no Bandcamp da Deuszebul.

“Esse cheiro que chega até você te põe em transe. O miasma da sociedade funesta, doente, te seca os sentimentos. Põe-te sobre carcaças moribundas e te faz engolir veneno. Um podre gosto de nada. Soterrado por propagandas que induzem ao consumo. Coma! Compre! Compre! Compre! Gaste! Gaste tempo. Gaste vida. Gaste saúde. Gaste seu último suspiro e gere lucro, capital. O sangue que corre em suas veias só vale o quanto ele produz em bens. Você não é livre. Consumo não é liberdade. Pelo contrário, é arreio. É arrego! Você só come os restos. Você só vive o resto… as migalhas. E quando você para pra respirar, é morto.

Esse foi o mundo que você foi obrigado a moldar. Um mundo que ruiu como seus sonhos. Afundando em uma lama tão espessa que te falta forças para manter-se na superfície. Todos estão afundando. A cada movimento somos soterrados. Engasgamos… vomitamos… voltamos a rastejar servindo de pavimento para alguns poucos andarem sobre nossos ombros roubando cada gota de vitae. Leprosos de caráter, Grão bastiões da indolência, Senhores das mortes. Somos como gado. Produtos. Descartáveis, como manda a demanda da oferta e procura.

Vivemos sobre vigília. Cada passo marcado, cronometrado, medido. Um bicho livre preso a panóptico mais perfeito já criado, onde cada degrau da sociedade joga a favor do grande irmão. O titã invisível que esmaga. Arranca cada felicidade. Coloca-te no estado letárgico e proíbe seu pensamento, tornando ameaça qualquer livre expressão. Pois mordaças nunca serão físicas para todos e aqueles que ousarem erguer sua voz serão chamados de loucos e apodrecerão abaixo de sete palmos.

E assim construímos um mundo cova cheio de mortos vivos. Sem almas. Estagnados e encorajados a sustentar uma sociedade que é tão fictícia como um conto de fadas. O cansaço chega e te rouba à vontade. Vida sem gosto. Asco do quotidiano. Injúrias de uma vida regada ao temporário. Apatia. Insanidade. Vislumbres decadentes. Caracteres… dígitos… mecanicidade… tudo que você construir vai ser falso, sem vida. Apenas consumo, apenas um caminho descartável que te faz afundar, que te engole como um abismo de lama. As amarras que te prendem, as mordaças que te calam, as rédeas que te guiam, são os mesmos cifrões que te fazem “feliz”. Minta pra si mesmo e envelheça com arrependimentos. A vida real não é essa vida descartável onde a felicidade é vendida em porções. Ilusões só fazem brotar sorrisos amargos. O amor não pode ser comprado. Uma vida não pode ser comprada. Meu mundo não pode ser comprado. Então por que colocar preço em vontades, em desejos, em ideias? Tudo que te explora deve ser destruído. O dinheiro nunca deve estar à frente da felicidade. Por isso, negue o consumo, negue deu$, negue as palavras de veneno, negue os covardes, negue a paz. O que cala deve ser combatido. O que causa a fome deve ser esmagado. O que causa o sofrimento deve ser extinto. O mundo já é ruim o suficiente. Não precisamos de mais correntes para arrastar. O câncer já faz você apodrecer a cada dia… então por que viver uma vida podre todo dia ao levantar? Acorde por um segundo. Veja se vale a pena manter o mundo que te esmaga… se matar em nome no lucro… sua vida vai além de seu consumo.

Vida atropelada, derrotada e fulminada pela condição de ser escravo. Ser vivente, mudo, apavorado por consequência de vivencias catastrófica. Por paixão, poremos fogo na ultima cidade e expulsaremos os indignos exploradores, converteremos a insanidade em desejo e nos afogaremos em nossa folia. Festejaremos o carnaval. O caminho será coberto pelas cinzas do céu, que cairá em chamas durante o crepúsculo. Nosso festim de vontades e cobiças ao encontrarmos nosso lugar de descanso será interminável, nos tomará as forças, roubará suor, sangue e, aos poucos, a vida deixará de ser frágil, se tornará pedra, calos e ardor de esperança. Os sacrifícios nos colocarão de joelhos, mas pelo cansaço, jamais pela obediência.

E haverá uma época onde poeira travará na garganta, a chuva não cairá. Os pés racharão pela caminhada sobre espinhos e escombros. Os olhos que nunca se abrirão. O cheiro que nunca chegará aos pulmões. Nenhum anjo prenunciará o fim, nem abrirá os portões do paraíso. O clarão ao horizonte trará a nuvens escuras e barrigas vazias. A dor perpétua no ar espesso. Ninguém se acostuma a sofrer, nem a sacrificar desejos por esperar por um mundo ameno. Mas na última vila, ainda reinará a discórdia e o sofrimento. Os peões ainda cairão para proteger lordes. Os murmúrios irromperão sobre os muros, chegarão às cavernas e bunkers. O sutil dará lugar ao profano e individual. O poder ainda corromperá e expulsará a razão e a dignidade. Tudo ainda será odiado: amor, desejo, caricia; tudo dará lugar a instinto, sobreviver, ou abandonar a vida na terra decrépita. Então deveremos alimentar nossa paixão e mover nossas vontades de mudança, sem esperar por qualquer glória dada aos que resistirem. Tudo é efêmero e passageiro. A vontade de mudar e de insurreição devem ser os motivos que nos unem a luta. Nenhum desejo, além desses, deve existir ou ser alimentado. A igualdade, a conspiração contra o domínio. Vamos alimentar a chama. Colocar fogo nas ruas e templos do deu$ capital e anunciar o novo amanhã. Sem donos, sem heróis… O herói, esse não mais existirá, será destruído junto com suas farsas e dogmas. Apenas exemplos. Nenhuma imagem, ou busto deve ser erguido. Árvores serão plantadas para dissolver a necessidade de imagens de perfeição, do líder. Deixe-se sangrar, regue a terra, semeie-a. Permita-se acordar depois do frenesi da conquista. Anuncie a realização; destrua o desejo pelo objeto. Vamos anunciar a glória, ficando em silêncio em respeito aos que sacrificaram sua existência para derrubar a opressor. E somente isso será lembrado.

Aqui chega o fim do primeiro ato de tantos que atuamos sem gostar dos personagens. Então, sob uma perspectiva de ruina, jogamos ao mundo uma ode ao fim. Não o fim que é eternizado na morte. Mas o fim de uma existência condenada a vagar sem rumo. Seremos o câncer do mundo”.