MADA 2017: Diversidade, inclusão, bons shows e público receptivo

por em domingo, 8 outubro 2017 em

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A principal tarefa dos festivais era mostrar ao público bandas e artistas novos. Ser a porta de entrada do público para novos trabalhos. Esse caráter se perdeu quando a internet virou onipresente e o novo se torna velho antes mesmo de ganhar visibilidade. Uma coisa que ainda parece ser um problema, pelo menos aqui, é trazer headliners novos. Quem são os artistas e bandas que saem do campo do mediano e avançam para o time dos grandes nomes? Nando Reis e Pitty reinam por aqui. Mas pelo menos em 2017 a BaianaSystem veio para mostrar que fugir do óbvio é bom, mesmo a banda estando em evidência há pelo menos dois anos e na ativa há 10.

Abrir festivais é a tarefa inglória e coube aos potiguares Eliano e Kung Fu Johnny. Cada um em sua praia na sexta e sábado, respectivamente. Eliano contou com uma banda experiente para mostrar ao público ainda tímido, mas atento ao show, seu disco Ecdemomania, com músicas de pegada pop. O Kung Fu Johnny contou com uma pegada mais blueseira e desenvoltura em palco para juntar mais gente na beira do palco e ganhar possíveis novos fãs.

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As duas de fora que vieram na sequência na sexta e sábado fizeram a conexão do pouco público para uma boa leva de cabeças atentas a frente dos palcos. Ambas se encaixariam perfeitamente mais tarde para mais gente admirar as propostas distintas. Deb and The Mentals, na sexta, com rock cheio de guitarra e presença de Deb. Já a Carne Doce também com boa presença de Salma, mas com uma pegada mais intimista na interpretação das músicas e danças com pegada psicodélica.

Seu Ninguém e DuSouto seguiram nessa pegada de conexão de públicos e se deram bem. A Seu Ninguém cresce a olhos vistos, mesmo com a pouca idade de seus integrantes, e a DuSouto, do alto de sua carreira estável, mantém o legado com o novo disco Conecta. A conexão onipresente citada no começo serve para o púbico já saber as músicas que Luana Alves e banda executaram e o grupo segue os passos da Plutão Já Foi Planeta defendendo o pop.

Baco Exu do Blues era uma incógnita. Com um disco recém lançado e bem elogiado, andou recebendo críticas por letras que dependendo da interpretação soam machistas. O que se viu foi um show despretensioso, com clima de ensaio aberto, bebida, erro nas músicas e descida do palco pra se juntar com o público e cair em seus braços. Noite ganha e caminho aberto para voltar sempre. Destaque para as projeções no telão que mostravam cenas do cotidiano da periferia, momentos bons e ruins também.

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Mahmundi fez um bom show, mas que não animou muito o público. Possivelmente a aposta que não deu certo. E não por ela ou banda, mas pelo público mesmo que apesar de mostrar interesse em alguns momentos, não manteve a a pegada durante todo o show. Na sequência os potiguares da Plutão Já Foi Planeta mostraram exatamente o contrário e ninguém esperava que fosse um show ruim. A banda já tinha público cativo em Natal mesmo antes da ascensão via reality show na Globo. O show da banda teve seu ápice no discurso de Natália Noronha contra a perseguição que o ditos cidadãos de bem praticam contra quem ousa fugir dos padrões. Natália puxou pra si o discurso se dizendo sapatão, lésbica e recriminando todas as formas de discriminação e tentativa de mudar o que as pessoas são de fato. Seguiu-se um beijaço no palco com vários casais. Gravadora, figurino, show, discurso. Tudo certo para a revelação que passou a realidade.

Kaya Conky é uma estrela local que segue a trilha de Pabllo Vittar e outras estrelas do cenário nacional. Kaya lançou recentemente um EP e o show se baseou nele. Fez uma bela sala para a o show do sábado da BaianaSystem. Já a Banda Uó apesar do nome reconhecido não lança um novo trabalho há anos e existe o rumor de uma parada sem volta prevista. Fez o show animado de costume unindo as batidas com bom humor.

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Pitty, Nando Reis e Karol Conka entraram em campo, como se diz, com o jogo ganho. Não seria possível shows mornos com o público presente e animado. A troca de energia foi contínua do começo ao fim e digo que o destaque dos três foi Karol. Mesmo com o show sendo a cara do que ela fez ali mesmo, mas no estacionamento, em 2016 com o mesmo encerramento cantando Amy Winehouse. A cantora une o som dançante com o discurso do empoderamento feminino, bandeira que cresce a olhos vistos com vários artistas e bandas. E isso foi inclusive a cara do MADA 2017: discurso de inclusão e empoderamento. Inclusão visível até nos shows onde um artista “invadiu” o palco alheio para participar, caso de Karol no de Pitty e Pitty no da BaianaSystem.

A BaianaSystem para a maioria era a novidade. Primeira vez em Natal com sua mistura que resulta em uma musicalidade nova. Assim como foi Chico Science & Nação Zumbi pelo idos de 1994. Talvez a melhor definição do que a banda faz seja ver o site deles e sentir o clima apenas ao olhar a animação da página principal. A BaianaSystem já tem 10 anos de carreira, dois discos lançados, clipes e identidade visual marcante seja nas projeções ou nas máscaras que foram distribuídas antes do show e disputadas com afinco. A junção disso tudo resulta em um espetáculo. Ultrapassa o show. Não bastasse o caráter dançante ainda existe o social, com letras inteligentes que fogem do lugar comum e geram reflexão. Quem viu banda, letras, batidas que podiam ir de algo mais intimista e viajante até o frenesi do carnaval e todo o visual branco, preto e azul de projeções não esquecerá o show. Se for pra repetir, como é de costume, eis a banda a voltar, se possível, já em 2018.

Foto BaianaSystem: Luana Tayze
Fotos: Felipe Alecrim