MADA 2018: #elenao

por em quarta-feira, 17 outubro 2018 em

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O atual cenário político brasileiro é caótico com a rejeição dando as cartas. Não é o melhor que vencerá, é o menos ruim. Ou menos rejeitado. Em um festival marcado pela pluralidade sonora do começo ao fim, nada mais justo que a música viesse com mensagens de cunho político e social. Nas redes sociais do MADA o recado era direto dizendo que não era tolerado discriminação e atos de violência e assédio. Sendo assim, quem estava lá e pensou em ter alguma atitude contrária a festa pensou duas vezes ou mais. Não se viu briga ou confusão, mas uma profusão de gritos de #elenao vindos dos palcos e do público.

Na sexta, primeiro dia, o atraso na abertura do portão e entrega das pulseiras, que credenciavam o acesso a pista e backstage, nos fez perder quase o show todo da Demonia. Pegamos as duas últimas músicas e ficou a frustração de não ver a banda que vem em ascensão. Terminaram com “Punk Rock Não É Só Pro Seu Namorado” da Bulimia. O terceiro palco, onde aconteceu o show da Demonia, estava com som e luz impecáveis. Ruim mesmo era o acesso. Uma tremenda volta, o que fazia boa parte do público ficar nos palcos principais no gramado da Arena das Dunas. Além da Demonia se apresentaram no palco Rieg, Saint Chameleon, Dingo Bells, Alfonsina, Talma & Gadelha, Potyguara Bardo e Bex. Perdemos as duas últimas pelos choques de horários. Destaque para Rieg que está com um som cada vez mais redondo e dançante, Dingo Bells com um som pop na medida e Talma & Gadelha com o disco novo cheio de significado.

Alfonsina apresentou um show com pegada indie intimista com qualidade sonora interessante, mas não animou muito o público. Duda Beat foi a surpresa nos palcos principais misturando tudo que era possível em seu pop/brega/swingueira/reggae. Chegou aos nossos ouvidos que ela estava escalada no palco menor e não aceitou, o que provocou uma mudança de ordem no line-up. Ponto pra ela que tinha um palco grande pra caminhar, dançar e mostrar que a diversidade é seu forte. Àttooxxá, que prometia ser um show marcante, decepcionou. Pareceu uma versão inferior da Baiana System. Por mais que os integrantes estivessem instigados, o show não bateu. Far From Alaska segue seu plano de dominação e tocou com a platéia ganha.

Pitty fez o show de encerramento e dividiu opiniões. Principalmente pela falta de posicionamento político, coisa vista desde o show da Demonia até o último que foi da Baiana System. Cordel do Fogo Encantado voltou aos palcos e a Natal depois de 10 anos. Dessa vez não choveu, mas o show permanece com a mesma intensidade dos tempos primórdios com Lirinha comandando o quase religioso ritual sertanejo.

A Nação Zumbi também fazia muito tempo que não tocava e em meio a tantos discos e hits sempre falta muita música boa. Tudo compensando com extenso posicionamento político por meio de vídeos e falas de Jorge Du Peixe e Lúcio Maia. Passearam pelo extenso repertório com direito a “Refazenda”, de Gil, “Dois Animais Na Selva Suja da Rua”, de Erasmo, e “Sexual Healing” de Marvin Gaye. Todas do disco Radiola NZ, Vol 1.

No sábado com uma hora a mais no início, em relação a sexta, fez com que Ciro e A Cidade tivesse um bom público para curtir sua sonoridade descritiva em vários momentos da cidade e cultura natalense. Com direito a inserções interessantes de trechos de músicas do imaginário rebolativo. Angela Castro e sua Buena Onda fez o já conhecido show calcado em uma sonoridade mpb/pop com influências variadas. Angela e banda são figuras onipresentes da música natalense em várias bandas boas. Oto Gris fez um show discreto e intimista, com mais potencial em um palco menor, talvez no terceiro onde Ciro e Cidade se apresentaram. Luisa e Os Alquimistas é outra banda já bem conhecida da cena local e tem tocado fora de Natal. Tanto que Cláudia Aires, produtora pessoense radicada em Recife, me perguntou se o show da banda seria ali. Foi e animou bastante o público.

Ardu foi a banda mais nova a se apresentar e com um som bem interessante. Beats, guitarra e baixo. Letras sobre o cotidiano e um belo potencial a ser desenvolvido. Potyguara Bardo, assim como Bex no dia anterior, passou batida. Francisco El Hombre, já na reta final do sábado subiu ao palco com 4 dos 5 integrantes nus e de mãos dadas na frente do palco. Ainda não vi ninguém reclamando da ousadia, mas com certeza teve. Entre um show e outro era hora de muita gente molhar a palavra, ir ao banheiro ou matar a larica. Sendo assim a nudez passou batida pra muita gente. O show foi a energia já conhecida com direito a coreografia micareteira. Alphorria tocou 10 anos atrás e voltou como se fosse 10 anos atrás. Contaram com participação da Time de Patrão, grupo de rap local, invocando quilombolas e mais um #elenao. Franz Ferdinand fez o show esperado com os hits conhecidos e mesmo as músicas não tão famosas animaram bastante o público. Um show disco-rock divulgando o álbum Always Ascending com Alex Kapranos comandando a platéia com maestria. Tirou de casa até gente que não vai nem na esquina comprar um galeto com macaxeira, vinagrete e farofa. Ou seja, sucesso.

O trio Larissa Luz, Rincon Sapiência e Baiana System foram os destaques da noite como esperado. Rincon com seu dj deixava o palco vazio e com um disco com tantas influências sonoras fez pensar em uma banda ali acompanhando ele e dando o peso sonoro e visual em “Crime Bárbaro”, “Meu Bloco” e “Ponta de Lança”. Mesmo sozinho ele se garante nas rimas e na animação. O que faltou a Rincon sobrou em Larissa. Com dj, percussionista e guitarrista o som ficou encorpado e é um nome a voltar no futuro. Uma grata surpresa cheia de empoderamento em discurso contra machismo e racismo. Presença de palco impecável, voz e banda. Ainda coube a presença de Khrystal dividindo os vocais em música de Elza Soares.

Baiana System é possivelmente o melhor produto de exportação da música brasileira. Criou uma sonoridade baseada na releitura da guitarra baiana e da axé music, tem uma identidade visual fortíssima e letras politizadas. O começo do show com Alice Carvalho em vídeo, mostrando a força que o Nordeste e o nordestino tem, fez os olhos encherem de lágrimas. O fascista não ganhou em nossa região. Somos um povo acolhedor, mas guerreiro na mesma maneira. A democracia vai pagar caro. A poga baiana era vista no telão com imagens do carnaval de Salvador, onde a banda comanda o trio elétrico Navio Pirata e arrasta uma pipoca ensandecida, e no chão da Arena das Dunas. “Duas Cidades”, “Dia da Caça”, “Calamatraca” e “Lucro: Descomprimido” animaram todo mundo e fizeram o caminho de volta para casa ser com dores nas pernas.

Fotos: Felipe Alecrim