Listão 2018: Melhores Discos Nacionais

por em terça-feira, 25 dezembro 2018 em

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Fim de ano, recesso, gela, praia, churrasco, cigarros indígenas, rolés suspeitos, surf, caipirinha, churrasco. Parecia que esse ano não ia acabar, parecia uma releitura de 50 anos atrás. Sabem do que estamos falando, certo? Pois como canta o James, do Facada, amanhã vai ser pior. E a única maneira de encarar tudo é de cabeça erguida, coisa que a seleção de discos nacionais conseguiu muito bem dialogando com política, comportamento social e até com o amor. Pois é, teve espaço para o amor nesse ano de trevas. Sigamos em frente.

Na sequência, eis os 25 discos nacionais que mais fizeram a cabeça da nossa redação.

EdgarUltrassom
(Spotify)

Edgar explora de forma conturbada a experiência do dia a dia, do cotidiano, seja das ruas ou das redes sociais. Pessoas reféns de aparelhos celular ou do seu próprio ego. O escape parece estar sempre constante em seu disco que, se parece complicado na primeira audição, vai se tornando mais fluido a cada ouvida com tantas referências nas letras ou na sonoridade. Synthpop, brega, o eletrônico mais carregado ou mais suave com a voz de Céu. Destaques para “Liquida”, “Saúde Mecânica” e “Antes Que Todas As Libélulas Entrem em Extinção”.

Guilherme KastrupPonto de Mutação
(Spotify)

Entre Kastrupismo e Ponto de Mutação o músico e produtor realizou Deus É Mulher e A Mulher do Fim do Mundo, ambos de Elza Soares que participa de Ponto de Mutação assim como vários outros artistas, dando a cara de diversidade do disco. Não há uma linha sonora que conduza o trabalho, mas segundo Kastrup “O disco parte do caos de nossos dias para uma virada da nova era. O início é a constatação do colapso do ideal capitalista”. Não parece ser o que vemos nos dias atuais do Brasil. Kiko Dinucci, Elza, Alessandra leão, Ná Ozzetti e samplers de Noam Chomsky e Malcom X fazem do disco uma obra atemporal. Ouça “Ponto de Exu” como ponto de tradição e “Bola Pra Frente”, “Com Coragem”, como ponto de virada sonora.

JotaErreChoraviolla II
(Spotify)

JotaErre é guitarrista da Psirico. Por aí você já pode ter uma ideia do que vem pela frente. A outra informação é que o disco é sobre a invasão holandesa à Bahia. O pagode baiano que desde muitos anos atrás vem sofrendo uma modernização com destaque para nomes como Baiana System e Áttooxxá. Mas JotaErre é o que de melhor há na modernização do uso da guitarra a favor do pagode baiano. “Tiro (Fogo Cruzado)” faz alusão ao fogo cruzado no Forte de Santo Antônio da Barra. O disco todo segue com a mistura de rock, pagode baiano e música eletrônica.

DevotosO Fim Que Nunca Acaba
(Spotify)

Trinta anos de carreira e a sabedoria de fazer um disco com sonoridade punk e hardcore com a cara do Brasil. Viola, rabeca, bateria percussiva, baixo e guitarras que oscilam entre o peso e o balanço. Não ouça pensando que é um disco de punk comum. O trio Devotos sabe a medida certa para passear uma música eletrônica (“Fé Demais”), uma toada de violão (“Não Desista”) e o peso e rapidez de “Matou Morreu”, que parece um frevo punk.

ruido/mmA é Côncavo, B é Convexo
(Spotify)

A verdade é que não há novidade sonora no novo disco da ruído/mm. O som instrumental por vezes etéreo e por vezes como trilha de um filme de ficção servem para viajar. São composições que passeiam entre o silêncio e a urgência das guitarras. A capa pode entregar o conteúdo, já que os braços fechados em forma de abraço dão ideia de união, da necessidade do contato. Ouça “Volca”.

The BaggiosVulcão
(Spotify)

O trio sergipano The Baggios segue a exploração do rock/blues com a pegada nordestina e mundial. Percussão, guitarra pesada, influências diversas como música indiana fazem um som dançante e pesado ao mesmo tempo. Nunca é tarde pra relembrar a pegada/influência da psicodelia nordestina setentista. A guitarra como extensão da viola do repente. Sem conhecer limites a banda segue crescendo a cada produção. “Deserto” poderia facilmente ser uma composição de Alceu Valença ou Zé Ramalho, o que atesta a qualidade do disco e das músicas.

Vermes do Limbo – O Sol Mais Escuro
(Bandcamp)

Já são quase duas décadas de uma trajetória marcada pelo acidente, às vezes feliz, outras… Bem, digamos que ouvir os Vermes não é pra qualquer um. O Sol Mais Escuro, 14º registro da banda, é um pouco mais coeso do que os anteriores, com faixas mais longas e que se ligam como paradas em uma longa linha de metrô rumo à uma estação final abandonada. É uma perfeita coleção de anti-canções subterrâneas, cheias de cantos escuros e detalhes que não se mostram na primeira vez. Ouça com todas as luzes da casa apagadas.

CataventoAnsiedade na Cidade
(Bandcamp)

Os gaúchos da Catavento ressurgem com seu terceiro disco, dois anos após Chá (2016). Nesses dois anos aparentemente os sete (!!) membros da banda abandonaram os discos cheios de phaser, delay e reverb que recebem 10 na Pitchfork e se voltaram para discos empoeirados que se encontram a muito custo em recantos escusos da Internet, como os famigerados leaks do Brazilian Nuggets (RIP). Com ressonâncias de Arthur Verocai e Azymuth, mas com aqueles licks de Beach Fossils, Real Estate e outras bandas da moda, Ansiedade na Cidade carimba o amadurecimento sonoro dos caxienses. Músicas como Se não vai, Alergia Alergia, Paraíso do Terceiro Mundo, Panca Úmida e Lagartia são puras pérolas, lapidadas com cuidado e paciência pela banda/orquestra. As várias vozes, os sintetizadores que surgem de esguelha, os sopros aqui e ali pontuando e dando uma cor jazzística às canções, as percussões e os arranjos de baixo e bateria são os pontos altos do disco. O projeto foi financiado pela Natura Musical e pelo Governo do Rio Grande do Sul, o que mostra uma aposta institucional pouco comum e, diga-se de passagem, surpreendente (passível inclusive de elogios, aplausos e quetais).

MahmedSinto Muito
(Bandcamp)

O esperado segundo disco do Mahmed chegou de surpresa numa manhã de sábado agitada para a juventude natalense. Com participações de Molly Hamilton (Widowspeka), Luisa Nascim (Luisa e os Alquimistas) e Santiago Mazzoli (Ombu, Raça), algumas músicas cantadas, e uma identidade mais garage, calcada na força dos riffs e na sedução das várias possibilidades dos arranjos, Sinto Muito é um mergulho mais profundo do que o oferecido pelo seu predecessor. Em músicas como Vazia, que parece ter saído de uma session de The OOz, de King Krule, Perdi, lenta e sutil com seu groove à la BadBadNotGood, a sutil Leli (com charmoso vocal de Molly Hamilton), a latina Lo Siento (com a luxuosa participação de Luisa Nascim), que é como se Homeshake estivesse perdido na praia de Ponta Negra, ou Cheio, face mais noventista do Mahmed, as várias influências e novas direções tomadas pelos membros da banda demonstram a evolução e a força da música instrumental do quarteto. Sinto Muito marca também o último disco do Mahmed com Dimetrius Ferreira ocupando uma das guitarras, posição que agora é preenchida por Rodolfo Almeida (Fukai, ex-Fewell).

Maria BeraldoCavala
(Spotify)

A paulista Maria Beraldo é musicista erudita e componente do grupo Quartabê, que estuda e repensa o repertório clássico brasileiro com clarones, clarinentes, oboés, violões, baterias e outros instrumentos de PURA ERUDIÇÃO. Mas a despeito da formação clássica, Beraldo tem um pé numa esquisitice que está flutuando entre a performance sonora de um Arrigo Barnabé, a inventividade intelectual de uma Björk, a cadência de uma Gal Costa e o peso de uma Julia Holter. Isso tudo somado a FORÇA DA MULHER SAPATONA entoada a cada faixa do disco CAVALA, estreia de M. Beraldo e um dos discos mais importantes de 2018 neste país. Com um cover nada ortodoxo de “Eu te amo”, de Chico Buarque, os hinos lésbicos “Amor Verdade”, “Da menor importância” e “Gatas Sapatas” e o hit “Tenso”, além da gutural faixa título, Beraldo demonstra sua densidade e a beleza de seu projeto em explosão.

Ana Frango ElétricoMormaço Queima
(Bandcamp)

Ana Frango Elétrico é o nome artístico de Ana Fainguelernt, guitarrista e cantora carioca. Como se fosse uma Sara Não tem Nome mais psicodélica e MARGINAL, a jovem Ana estreia com seu estranho e bonito Mormaço Queima, produzido por Marcelo Callado, Gustavo Benjão (ambos do Do Amor e mais centos projetos), Thiago Nassif (que, entre outras coisas, fez parte da banda do vanguardista Arto Linsay) e Guilherme Lírio (da banda Exército de Bebês). O disco é composto por versos que falam do passeador de cachorros que parece o Lenny Kravitz, de jogar na loteria, de odiar picles no seu MC Lanche Feliz. Essas migalhas prosaicas ganham uma psicodelia que faz pensar num encontro entre PJ Harvey ou Frankie Cosmos e Gal Costa numa noite carioca.

SoundFood GangFoodstation
(Spotify)

Baseados em Jundiaí/SP, o coletivo de rappers do SoundFood Gang entrega aquele que talvez seja o registro mais ~AUTÊNTICO do rap brasileiro na atual safra. Capitaneado pelos hypados Nill e Yung Buda, a mixtape Foodstation traz colaborações dos rappers da casa (Mano Will, Chabazz e Chinv, além dos dois já citados) em meio a beats esquisitos, sampleando de Raffa Moreira a Gorillaz, com referências a tiques e vícios do rap contemporâneo e muito lean e anime. A mixtape mostra a irreverência da banca de Jundiaí, além de mostrar a versatilidade da produção de artistas de seu casting, como nas participações de Nill como produtor. O próprio Nill também lançou sua própria mixtape, com músicas intituladas com nomes de mulheres notórias na História, chamada Good Smell v. 1, que também merece ser conferida.

Ava RochaTrança
(Spotify)

O conceito por trás de Trança é realmente atar, juntar, amarrar, conectar e transar e trançar várias parcerias com a carioca Ava Rocha. De seu marido Negro Leo a Dinho Almeida (Boogarins), passando por Tulipa Ruiz, Domenico Lancelotti e Juçara Marçal, Trança é um passeio charmoso por possibilidades musicais da nova música brasileira. ‘Joana Dark’, por exemplo, primeiro single do disco, traz vozes sobrepostas de Karina Buhr, Alessandra Leão, Linn da Quebrada e Juçara Marçal, em uma pérola TRANSTROPICALISTA, com seu arranjo barulhento e fragmentado à la Rogério Duprat. O plano intrincado de Trança revela ainda um frescor no experimentalismo de Ava, onde ela se mostra mais dinâmica, mais singular, onde pequenos fragmentos gestam um sutil biombo de sonoridades da nova música brasileira.

Elza SoaresDeus é Mulher
(Youtube)

A Mulher do Fim do Mundo levou a nova face de Elza Soares para todos os lugares possíveis. Desde ser citada como um dos melhores discos de 2017 na revista gringa Pitchfork, até receber prêmios em todo o país e ser celebrado como um dos melhores discos dessa década. O disco seguinte vinha, portanto, com uma carga de expectativa que seria difícil emparelhar este ao anterior. Mas Deus é Mulher manteve o peso e a força de Elza, com produção novamente assinada por Guilherme Kastrup, Romulo Fróes, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos, trazendo nomes que despontam, como o rapper paulistano Edgar, e composições de rara beleza, como o single “Banho”, de Tulipa Ruiz. Frases fortes, discursos empoderados e um apelo pop que já se anunciava no disco de 2016 aqui ganham profundidade com Exu nas Escolas, Clareza e Eu Quero Comer Você.

Potyguara BardoSimulacre
(Spotify)

Oriunda da prolífica cena drag de Natal, Potyguara Bardo deixou muita gente boquiaberta com seu disco de estreia. Conceitual e simbólico, Simulacre angariou muitos plays no Spotify, novos hits de sofrência e empoderamento, e um passeio sensorial por diversas sonoridades. O disco de Potyguara é um percurso referencial por diversos símbolos sonoros e visuais das últimas décadas; produzido por Walter Nazário, Dante Augusto e Mateus Tinôco, em colaboração com o Estúdio Dosol por meio do projeto Incubadora, há uma fileira de samples que vão de Xaropinho (do Programa do Ratinho) até o sucesso mossoroense do Youtube Zuzu, flertando com ritmos variados, entre lambada, reggae, house, chillwave e funk carioca. A produção bem cuidada serve de alicerce para a narrativa do disco, uma viagem de Potyguara Bardo sob efeito de “shimagic” à procura (ou abandono) de um Eu que a todo momento se esfumaça e se perde nas várias sendas que as canções produzem. Sem medo da livre associação, músicas como “Karamba” (com participação da drag potiguar Kaya Conky) e “Lambada do Flop” flertam com sonoridades brasileiras para as pistas; “Expedição”, “Plene” (com participação de Luisa Guedes, de Luisa e os Alquimistas) e “O Jogo da Vida” experimentam com as possibilidades vocais de Potyguara e são os momentos mais plácidos da obra; e “Você Não Existe” parece fechar a narrativa sem respostas fáceis, explorando os limites dos simulacros (“você não existe e eu também não / tudo que tem nessa vida é fruto da imaginação”).

Heavy BaileCarne de Pescoço
(Spotify)

A dupla Leo Justi, produtor carioca responsável por diversos batidões notórios dos últimos tempos, e DJ Thai, que foi agregado ao projeto com seus remixes também notórios, são os alicerces do Heavy Baile, espécie de grupo e movimento estético que comungam e pregam a palavra do funk carioca mais pesado e eletrônico que se tem notícia. Escudados pelo MC Tchelinho, fiel emissário da cultura do MC, com improvisos e memória tal qual um AEDO grego, o Heavy Baile lançou seu primeiro disco em louvor à tradição das pistas e com potencial pra conquistar todos os hipsters que queiram REBOLAR SUA RABA em festivais independentes pelo Brasil afora (ou qualquer festinha com um DJ ligadinho nas novidades). O projeto ganhou tal destaque que até em clipe da Nike apareceu assinando a trilha sonora. Ademais, “Maconha e Pente”, faixa que encerra o disco, é um dos maiores hits do ano, certamente.

Luiza LianAzul Moderno
(Spotify)

Outra autora de um disco poderoso que sugeria um sucessor à altura, Luiza Lian apostou em um caminho mais sóbrio em relação à performatividade de Oyá Tempo (2017). Embora prossiga numa lírica calcada entre as matrizes africanas e o triphop, Azul Moderno apresenta uma face poética mais sutil e cuidadosa da cantora paulistana. Com Vem dizer tchau, o disco inicia uma caminhada pegajosa, onde a contemplação interior ganha o centro da obra, ainda mais evidente em “Mil Mulheres”, confessional e lírica, com ambientação complexa vinda das picapes de Charles Tixier, que produziu o disco junto a Tim Bernardes. A sequência inicial é acachapante, fechando com Sou Yabá essa introdução ao universo místico e íntimo de Luiza Lian, que confirma seu nome entre os mais interessantes da nova música brasileira. Outros momentos de rara beleza estão em “Pomba Gira do Luar”, “Santa Bárbara” e “Mira”, além da faixa-título, que ganhou videoclipe.

BKGigantes
(Spotify)

O carioca Abebe Bikila se destaca pelo seu flow extremamente LÍQUIDO: cabe em qualquer base, se adapta a qualquer formato de beat, caminha com velocidade ou lentidão com a mesma destreza. Em Gigantes, obra anunciada pelo seu Ep Antes dos gigantes chegarem, em muito difere do minimalista Castelos e Ruínas (2016). A indicação já está nos segundos iniciais de “Novo Poder”: uma sirene de rave dos anos 90 chama para o centro do beat o riff de Robot Rock, do Daft Punk, introduzindo uma rima hipnótica que diz que “não tema o novo, o novo Mundo, a nova desordem”. O discurso reflexivo, onde BK pensa no seu status dentro de uma cena de rap que tem todos os holofotes voltados para si, serve de contraponto ou apoio para as discussões de outro disco que muito barulho fez em 2018: o Bluesman de Baco Exu do Blues, que inclusive participa de Gigantes, em Vivos, junto a Luccas Carlos. A faixa inclusive traz um tema caro ao rapper baiano e ao rap brasileiro em geral: “Minha vez de ganhar / Pretos fazendo dinheiro é tudo que eu vejo”. O discurso político também dá espaço pra boas faixas que podem embalar madrugadas com tranquilidade, como Deus do Furdunço, uma preciosidade e uma das grandes músicas do ano.

Duda BeatSinto Muito
(Spotify)

A pernambucana Duda Beat entrega aqui o principal DISCO DE CORNO deste ano. Não só é um brega for real recifense como também é uma jóia que indica um pop brasileiro escondido entre os sons populares que ainda mereciam ser lapidados, manejados com suficiente dedicação para dali extrair uma potência rítmica realmente original. Foi o que aconteceu em Sinto Muito: da singela balada “Bixinho” à kali-uchisiana “Pro Mundo Ouvir”, passando pelo bregão Bédi-Beat e ao r&b com sotaque nordestino quase aboiado de “Egoísta”, o disco passeia por ritmos e texturas que compõem um confessionário emocional que parece escorrer da voz de Eduarda Bittencourt. Caso raro de um novo pop brasileiro que merece todos os ouvidos voltados para cá.

Teto PretoPedra Preta
(Spotify)

O coletivo Mamba Negra é famoso por movimentar São Paulo com rolés de techno que ocupam espaços escusos da cidade, como a Crackolândia, onde hipsters dos mais altos calibres são atraídos pra becos, casarões abandonados e outros lugares malditos pra ver tortices do nível deste Pedra Preta, disco esperado de estreia do grupo Teto Preto. O grupo, encabeçado pela cantora/atriz Laura Díaz (aqui chamada Angela Carneosso), performática e futurista, entrega uma obra que traz a voz da cidade e anuncia uma margem nova da música eletrônica brasileira. Usando percussões para a fabricação de bases oitentistas com aspecto lisérgico, os arranjos eletrônicos de Pedro Zopelar e Savio de Queiroz caminham por espaços inesperados de ruídos, timbres oníricos, sons martelantes como de um canteiro de obras em eterno funcionamento, vozes esganiçadas como os dos vendedores e sofredores de uma métropole, drops dançantes que atravessam a pista, mas também saem dela com a mesma sinuosidade. Pedra Preta é um experimento sonoro radical e catártico, que convoca o ouvinte a atravessar caminhos obscuros e observar melhor aquilo que nem sempre está revelado, mas que se você se dedicar a prescrutar, aparecerá em detalhes, com muito mais complexidade do que se imagina.

Baco Exu do BluesBluesman
(Spotify)

Ouvir Bluesman é lembrar da usurpação da cultura negra pelos brancos tornando-a aceitável. Logo de cara na faixa que batiza o disco Baco mostra como o negro é tratado no Brasil e fala de Jesus, que hoje, segundo muita gente, seria apedrejado e chamado de comunista (rs). Baco mantém a pegada do anterior Esú (2017). O baiano expõe de forma fácil sua própria vida, sem rimas complexas mostrando a dureza do dia a dia. Bluesman é a sequência fortalecedora da estreia de Baco e entre influências diversas, como a latinidade em “Kanye West da Bahia”, se firma no rap brasileiro.

Karol ConkáAmbulante
(Spotify)

Karol Conká volta depois de cinco anos e abre Ambulante fortalecendo a sua luta, suas conquistas, mostrando que o que tem foi conquistado com trabalho e superação. Pode parecer forçado, mas quem acompanha a artista curitibana nas redes sociais sabe que ela tem uma preocupação constante com sua produção e seus fãs. O disco segue mostrando em meio a rimas e batidas pop a criminalidade, o empoderamento feminino, racismo e apropriação cultural. Em meio a tudo há espaço para o romantismo e amor de forma positiva em “Saudade” e negativa (depende do ponto de vista) em “Desapego”.

Bixiga 70Quebra-cabeça
(Spotify)

A lista conta com alguns discos instrumentais, mas o Quebra-cabeça é o único dançante. Os nove músicos que formam o Bixiga 70 seguem passeando por influências díspares sem esquecer o norte do Afrobeat. Metais e percussão seguem a frente com a guitarra e baixo dando aquele toque charmoso e por vezes conduzindo o baile. Destaque para a belíssima “Pedra de Raio”, inspirada no orixá Xangô e “Areia” com uma pegada que remete ao forró, claro que mantendo o afrobeat como essência.

Rodrigo Campos9 Sambas
(Spotify)

Conversas com Toshiro não agradou muito e parecia que Rodrigo Campos tinha dado aquela volta em si mesmo, mas 9 Sambas vem para desfazer essa impressão e reafirmar a qualidade das composições de Rodrigo. O disco conta com um time de primeira qualidade como Maria Beraldo, Kiko Dinucci e Juçara Marçal. “Bloco das Três da Tarde” começa e termina introspectivo, o contrário de “Joguei o Jogo” que parece um time da Premier League que só para de atacar quando acaba em definitivo a partida, mesmo que o time esteja com um placar dilatado. “Casa Velha” com o violão de Marcelo Cabral fecha o disco de forma esplendorosa, mostrando um disco que passeia, dialoga com o tradicional e o moderno.

E A terra Nunca Me Pareceu Tão DistanteFundação
(Spotify)

Discos instrumentais precisam ter solidez, ainda mais se ele se chama Fundação. O primeiro disco cheio da EATNMPTD consegue isso do começo ao fim. Seja na suavidade ou na agressividade e sentimento de inquietação e angústia. Duelos de guitarra, bateria inquieta e fusão do post-rock com math-rock e black metal. O silêncio as vezes diz muito mais que o barulho, se as duas expressões, ou sentimentos, andarem juntas de forma coesa o resultado é certeiro: atingir o ouvinte e levá-lo a um lugar no seu subconsciente. Isso que a música instrumental consegue é o cerne da questão, fazer o ouvinte viajar em sua própria história. “Fundação” abre o disco exatamente com esse silêncio e inquietude andando lado a lado, dando a dimensão do que vem pela frente. Já “Daiane” revela na delicadeza a outra face do disco, a de emocionar.