Listão 2017: Nacional

por em terça-feira, 9 janeiro 2018 em

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Em 2016 escrevemos que se o ano não foi uma desgraça, passou perto. Mal sabíamos que podia piorar, mas sempre pode. Só podemos crer que chegamos ao fundo do poço e agora tudo vai voltar ao normal. Fato é que não podemos contar com isso. 2018 será longo e a luz no fim do túnel, se é que ela existe, só aparecerá em outubro. Daqui pra lá a certeza é que não há certeza.

A música seguiu lado a lado com a situação social e política do Brasil. Seja em discos, shows ou entrevistas, a música respirou indignação em suas mais variadas formas. E os discos que mais se destacaram nesse sentido foram os de rap e/ou da chamada Nova MPB que engloba tantas influências que as vezes fica difícil ver onde começa e onde termina.

Confira na sequência os discos nacionais que mais rodaram na nossa redação em 2017.

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BoogarinsLá Vem a Morte

O terceiro disco da banda goiana surgiu de surpresa no meio do ano, tal qual a morte faz seu chamado, inadvertidamente. Com esse conjunto estranho de músicas, o primeiro gravado com o baterista Ynaiã Benthroldo, o Boogarins imprimiu seu próprio selo de PSYCHEDELLIC MODÃO GOIANO com os hits “Foi mal”, “Corredor Polonês” e “Onda Negra”. (PL)

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Domenico LancellottiSerra dos Órgãos

O título do disco remete a um trecho de Mata Atlântica do RJ onde o músico passou um tempo com a companheira e muito do que é o disco vem desse lado natureza – como na toada indígena “Pare de correr” – que também pode ser associado a algo interno de todos nós, a introspecção. Isso fica visível já na abertura com “Voltar-se”. Mas também é um disco urbano como entrega a dançante “Shanti Luz”. (HM)

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NiLLRegina

Com samples de desenhos animados e animes, áudios de whatsapp, levadas de jazz e solos de guitarra, o rapper Nill se destacou com uma das obras mais maciças do novo rap nacional. Com um vídeo no grande repositório virtual de arquivos de vídeo, o rapper lembra que “Hoje o youtube vai pagar o almoço’’. Uma das frases que rolarão nas retrospectivas futuras do rap BR. (PL)

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Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Gui AmabisSambas do Absurdo

No futuro quando se falar em samba provavelmente o trio Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis será lembrado lado a lado com grandes nomes do passado. Isso por trazer o passado para o presente com cara de futuro. Sambas do Absurdo é um disco para ser escutado com calma, em todos os seus detalhes, com desapego de tudo ao redor. Só assim para captar toda a beleza dos absurdos do dia a dia em forma de oito canções ricas em melodias e versos. (HM)

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Baco Exu do BluesEsu

Incensado por público e crítica, o baiano Diogo Moncorvo, sob a alcunha de Baco Exu do Blues, trouxe um respiro de força e diferença em 2017. Com seus versos imagéticos e sem pudores, Esu é uma experiência sonora de imersão num mundo conflituoso e vasto, bruto e lírico na mesma medida. (PL)

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Juliana RTarefas Intermináveis

A surpresa ai ouvir o novo trabalho de Juliana não é ruim. Ela se distanciou das produções anteriores e entre batidas eletrônicas e letras minimalistas transmite uma sensação de esgotamento do dia a dia. O tom futurista não é otimista, a cara dos dois últimos anos no Brasil. Não aconselhado para ouvir em momentos de bad – bem comum a vários no twitter. (HM)

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Flora MatosEletrocardiograma

Na estrada há um bom tempo, Flora Matos mostra seu suingue e potencial de hitmaker em Eletrocardiograma. “Me Ame em Miami”, “O Jeito”, “Preta de Quebrada” e “Parando as Horas” funcionam nas pistas, nos fones ou em qualquer lugar. Só greatest hits. (PL)

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SoledadSoledad

Direto de Fortaleza Soledad fez sua estreia com um disco intimista, seja nas letras ou nos arranjos. Um disco que foge das agruras políticas (não totalmente como ouvido em “Beco da Noite” com áudios de protestos contra a polícia) e olha mais para o pessoal. Para o romantismo dos encontros. Apesar de ser um disco mais lento com uma pegada de blues há espaço para uma levada mais pop dançante em “Corpo Solto”. Das gratas surpresas de 2017 com direito a belo show no Coquetel Molotov. (HM)

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LetruxLetrux em Noite de Climão

Letícia Novaes, ex-Letuce, mergulhou na decadência oitentista carioca, com plumas, paetês e muitas noites em claro em baladas com Rolands 808. Com presença da notável influência Marina Lima, em um clara homenagem, Em Noite de Climão é uma ode charmosa à tristeza das pistas. (PL)

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Galactic GulagTo The Stars By Hard Days

Psicodélico, stoner, doom? O rótulo você decide. O quarteto Galactic explora a temática futurista e espacial em um disco que tem começo, meio e fim (se eles pensaram isso ou se é isso mesmo fiquem a vontade pra confirmar ou desmentir). Ao ouvir discos instrumentais sempre vem a mente a figura de Vlamir Cruz, um dos caras mais importantes da cena natalense, que sempre fala que muito dos discos instrumentais parecem colagens que não levam a lugar algum (não são essas as palavras exatas, desculpe Mister Moo). Recomendado para ouvir fora do espectro normal de consciência. (HM)

luisa

Luiza LianOyá Tempo

Exercício de sincretismo sonoro, Oyá Tempo une pontos de terreiro, vozes africanas e música eletrônica em uma forma original. A paulista Luiza Lian soma beats de funk, ecos de Four Tet e, por que não?, Clara Nunes num conjunto de canções como “Tucum”, “Pó de Ouro” e “Oyá”. O disco ainda foi lançado como um álbum visual no Youtube, com vídeos pensados em ordem narrativa para as faixas. (PL)

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Alzira ECorte

Tal qual muitos artistas novos de SP a veterana Alzira se lançou nesse projeto ao lado de músicos do Bixiga 70. Essa parceria pode ser vista facilmente nos metais que “brigam” durante boa parte do disco levando a músicas quebradas e que não são de fácil audição para quem passeia pela facilidade do que é pop. O disco traz em suas letras a visceralidade dos conflitos do dia a dia e a sonoridade “confusa” só ajuda no todo. (HM)

my magical

My Magical Glowing LensCosmos

Projeto da capixaba Gabriela Deptulski, o My Magical Glowing Lens estreou finalmente com um disco imbricado de misticismo, contatos cósmicos, espíritos da mata e psicodelia, afinal. Entre o dream pop e o acid rock, o disco é profundo e caudaloso. (PL)

venus

Vênus in FuzzVênus in Fuzz

Post-punk, shoegaze, noise. Cabe de tudo na poesia e prosa da paraibana Venus In Fuzz. Ruídos, distorções caóticas dialogam com as letras sobre o cotidiano da cidade que de fora parece pacífica, mas que de perto é como qualquer capital: cheia de problemas, defeitos e personagens que tornam o dia a dia uma batalha constante. (HM)

ogi

Rodrigo OgiPé No Chão

‘‘É preciso realmente acreditar em escrever. Eu acredito que vale a pena escrever, como vale a pena viver” – Com essa introdução do escritor marginal paulista João Antonio (1937 – 1996), Rodrigo Ogi deslinda sua poética sonora e verbal em Pé no Chão. Contos das ruas e beats hipnóticos para a juventude. (PL)

graxa

GraxaA concorrência é demais

Terceiro disco de Graxa (a.k.a Angelo Souza) ao lado de sua gangue recifense. O disco conceitual que mostra a volta ao Jequiá (bairro do Recife) pode ser ouvido desmembrado que também faz sentido. Desilusões com a música autoral, doideiras com a cabeça cheia de danone, canção de amor, balanço e um disco sem rótulo. Entre o psicodélico e o pop talvez “Pequenos Favores, Grandes Problemas” sintetize o disco mais maduro do músico. (HM)

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Arthur RCoelho Branco

O mais prolífico artista natalense em atividade (arrisco dizer), revezando-se entre pintura, vídeo e música, Arthur R, ou Arthuri, lançou seu Coelho Branco em duas partes, sacramentando sua produção nos dois semestres do ano. Com pérolas noise e canções pop como “E agora Djiorgia”, Coelho Branco é promessa de disco cult perdido daqui a 20 anos (arrisco novamente). (PL)

trupe

Trupe Chá de BoldoVerso

O quarto disco da Trupe contém músicas de fora, de gente do calibre de Alzira E (presente nessa lista), Pélico, André Abujamra, Iara Rennó entre outros. Um disco que apesar de possuir composições dos outros, possui uma carga pessoal que passeia pelos 10 anos da banda. O já falado caráter político está presente nas letras e lutas dos instrumentos que marcam essa “nova” geração paulista. Uma cara feminina também pode ser vista e que não foge do espectro político, já que o feminismo engloba tudo que permeia o dia a dia. Tudo isso já fica evidente na abertura com “Entre o mangue e o mar” de Alzira E e arrudA. (HM)

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CuruminBoca

Curumin aposta em sonoridade oitentista, com neo-funks em drum machines e synths vintage, em seu quarto disco de estúdio. Abrindo o leque de ritmos, seja pelo funk carioca ou da Motown, em suingues de danceteria e quetais, Boca é o êxito dançante do baterista nipo-brasileiro. (PL)

xenia

XeniaXênia França

Xênia já é conhecida por estar a frente da banda Aláfia. Eu seu primeiro disco solo as influências de matizes africanas que se ouve na banda também estão presentes. Intimista, tribal, religioso, jazzístico. O tradicional e o moderno lado a lado dialogando com discussões atuais como sobre apropriação cultural. Tudo isso sem esquecer a bela e forte voz de Xênia que dá carga a todo o discurso. (HM)

pratagy

PratagyBúfalo

Imagine Guilherme Arantes fazendo um feat com Mac Demarco. Agora imagine o Perfume Genius fazendo um feat com Ivan Lins. No meio desses caminhos, coloque um tiquinho assim, um tiquinho ó, de carimbó e pronto: não é o Também sou Hype, mas sim o disco de estréia do paraense Pratagy. Embora pareça indigesta, a mistura dá liga e é um rosário de belas canções. (PL)

otto

OttoOttomatopeia

Otto parece ter deixado para trás os fantasmas presentes em Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos. Depois do irregular The Moon 1111 ele voltou a carga criativa e dançante em Ottomatopeia. Como sempre dialogou com o popular ao regravar “Vem cá, Meu dengo” de Roberta Miranda e com a própria cantando junto. O disco traz de volta o amor de forma cativante. E Otto estava precisando. (HM)

macaco

Macaco BongDeixa Quieto

A proposta parece batida e besta: 2017, pleno final dos anos 10, e vem o Macaco Bong, semi-vivo após tantos anos, lançar um disco replicando o Nevermind. No entanto, o virtuosismo e criativade de Bruno Kayapy permanecem intactos, e o exercício ultrapassa a mera brincadeira com força autoral e sensibilidade sonora. (PL)

japanese

Giovani CidreiraJapanese Food

Japanese Food é um disco irregular e que isso seja entendido como um elogio. Irregular no que tange a musicalidade, a forma de cantar de Giovani Cidreira, a sonoridade dos instrumentos. O disco passeia pelos anos 70 aos dias atuais sem perder a força inspiradora que faz do disco uma surpresa a cada música e nova audição para perceber todas as nuances. (HM)

kiko

Kiko DinucciCortes Curtos

Ao raiar de 2017, o guitarrista Kiko Dinucci trouxe ao mundo seu primeiro disco, esperado e prometido. O bom é que toda a expectativa em torno foi retribuída com agressividade e malemolência. Sambas tortos, punks e barulhentos, gravitam em torno de crônicas sobre o dia-a-dia de SP, que tanto se assemelha à realidade de toda capital brasileira e mundial, afinal de contas. “Morena do Facebook”, “Crack pra Ninar”, “Chorei” e “O Inferno tem Sede” são hits do samba-punk pra figurar entre os grandes do ano. (PL)

in venus

In VenusRuína

Bikini Kill e Joy Division andando lado a lado. Um disco visceral com a cara do pós-punk. Voz e instrumentos fazem dançar enquanto as letras abordam feminismo, liberdade sexual, caos urbano. É como se a já aclamada Rakta renascesse mais direta, sem a viagem característica. A In Venus é mais incisiva em sua proposta, mais urbana e agressiva como a São Paulo onde os integrantes vivem. O fim do álbum apresenta Cint Ferreira declamando o que se pode chamar de manifesto contra o fim da espera, levando a luta diária contra tudo e todos. (HM)

rincon

Rincon SapiênciaGalanga Livre

Pós-Ponta de Lança, certamente uma das músicas que mais tocaram em pistas brasileiras em 2017, o rapper paulistano Rincon Sapiencia entregou sua estréia com digníssimas novas pérolas do hip hop dançante nacional. Pra ouvir com os graves batendo no baile black, resgatando a memória de MCs de rima rápida e sagaz. (PL)

nina

Nina BeckerAcrílico

O trabalho que sucede o duplo Azul e Vermelho mantém a pegada intimista e jazzística de Nina. Acrílico é um disco para se perder na voz de Nina, passear com ela lado a lado com os instrumentais. O disco mais delicado de toda a lista também flerta com samba e pop. Um alívio cheio de sentimento em contraponto a todo o peso de tudo que foi dito nos demais discos da lista. (HM)

lucas

Lucas SantannaModo Avião

Talvez o mais CAETANISTA disco de Lucas Santanna, Modo Avião é discreto, em baixas frequências, contemplativo. A expedição à música eletrônica em contraste com violões e guitarras permanece, a cada vez mais charmosa e mais madura. (PL)

linn

Linn da QuebradaPajubá

Pajubá não é um disco fácil. O discurso trans do álbum é agressivo e, em um país que integra a estatística dos que mais matam transexuais no mundo, é totalmente necessário. Todas as músicas estão como “explícitas” no Spotify e são. Isso porque Linn não quis ficar no pisar e lacrar, resolveu cantar o dia a dia da forma mais crua possível. O que não sai nos jornais está no disco e ganhou o mundo como álbum visual. Todas as músicas tem vídeos e se alguém pensa que o funk comanda o cerne da obra, aperte o play e curta a diversidade sonora que ancora o manifesto de Linn. (HM)