Listão 2016: Gringos

por em terça-feira, 10 janeiro 2017 em

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Com o Listão 2016 de discos gringos, batemos um recorde. Nunca na história deste site demoramos tanto para fechar a conta e passar a régua na nossa seleção. Entre encontros, desencontros, sumiços inexplicáveis e muita preguiça, finalmente conseguimos reunir as indicações de todos os colaboradores, que ouviram de tudo, de rock satânico até rap e música eletrônica de artista plástico.

Sem mais delongas e com aquele sabor de atrasinho elegante, eis a  nossa seleta com 30 discos gringos que curtimos ouvir em 2016.

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Kanye West – Life of Pablo

Antes de tretar com meio mundo, Kanye West estava, para nossa sorte, bastante ocupado produzindo e lançando seu novo trabalho. Entre adiamentos e mudanças de nome, Life of Pablo cumpre bem as expectativas e se confirma como mais um grande álbum de West. Um disco que recusa totalmente a indiferença.

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Blood Orange – Freetown Sound

Devonté Hynes reúne aqui os melhores aspectos de seus trabalhos anteriores. O gingado e as altíssimas doses de sentimento do Cupid Deluxe e a crueza do punk de Coastal Grooves. O resultado é um disco classudo e emocional, com pausas para posicionamentos políticos fortes.


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Bon Iver – 22, A Million

Justin Vernon é um artista em busca. Do quê? Nem o próprio deve saber. Mas só a procura por algo grandioso explicaria a desconstrução a qual ele se submete aqui. Corrompido por toneladas de voice processing, sinths, samples, beats e outros artifícios eletrônicos, 22, A Million é uma convulsão, um embate entre o velho Vernon e um outro que parece querer abrir seu caminho pro mundo por vias não naturais.

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James Blake – The Colour in Anything

Neste novo disco, é possível ver o britânico se arriscando em sonoridades antes inexploradas. Os espaços, os longos silêncios, a melancolia gélida e o minimalismo de Blake ainda são marcas bastantes presentes, mas aqui e ali surgem momentos de pretensa grandeza. Não por acaso, alguns desses lapsos são os melhores momentos do álbum.

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Nicolas Jaar – Sirens

Pura concentração de renda de elogios. Nicolas Jaar sapecou um disco que exige o uso de alguns dos adjetivos mais pomposos: transcendental, artístico, vanguardista e por aí vai. Impossível falar sobre o valor estético de Sirens sem soar meio trouxa e cerebral demais, mas a verdade é: esse disco é provavelmente a coisa mais próxima que temos de um novo passo evolucionário no espectro da música pop contemporânea.

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Whitney – Light Upon The Lake

Max Kakacek e Julien Ehrlich, talvez pra exorcizar a saída tumultuada do chatíssimo e finado Smith Westerns, trouxeram ao mundo um álbum ensolarado e otimista, cheio de ecos sessentistas. Não reinventa a roda, mas é um disco que soa como uma xícara de café quentinho servido na manhã seguinte a uma noite de excessos.

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Preoccupations – Preoccupations

O Preoccupations – antes conhecidos por Viet Cong – ressurge após uma pausa breve nas atividades. As guitarras estridentes, as baterias marcadas e pesadas, quase militares estabelecem uma continuação direta com o disco anterior, de 2015. Apesar do gosto duvidoso na hora de escolher nomes para a banda, os canadenses fazem um som que se sobressai entre os demais da safra por ser uma síntese desse ano moribundo: meio distópico e desesperançoso.

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DIIV – Is The Is Are

Dream pop, shoegaze, post-punk. O DIIV até aceita todos esses rótulos. Mas o importante mesmo é que, em 2016, não há lugar melhor para curtir um cigarrinho de artista do que ao lado desse álbum. Solos de guitarra longos, imersivos e cheios de camadas embalam uma brisa daquelas que facilmente tiram o ouvinte um pouco desta dimensão.

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Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree

Abalado pela perda e terrificado pela dor do mundo, Nick Cave fez em Skeleton Tree tudo aquilo que sobrava da melancolia de seus discos anteriores: canções cada vez mais doloridas e misteriosas, com ambiências que levam o escuro desses sentimentos mesclados ao peso experimental das suas guitarras e sintetizadores. É um mergulho na intensidade e estranheza desse último bardo.

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Warpaint – Heads Up

O clichê de disco da maturidade é realmente válido para esse terceiro álbum das Warpaint. Com a sonoridade cada vez mais marcada e singular, a banda legou a 2016 um dos seus grandes hits: “Whiteout”, segundo single do disco, é acachapante e dançante na mesma medida.  Noturno e ~PRAS PISTAS, as Warpaint só reafirmam sua inspiração pra ballada em “The Stall” e “So Good”.

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Woods – City Sun Eater in the River of Light

Banda de barbudos que sonhavam em nascer em 1950 e estarem nos grandes festivais dos 70’s, a prolífica Woods deixa sua VIBE mais polida e sincera em City Sun Eater in the River of Light. Indo da baladinha à la George Harrison com “Creature Comfort” ao estopim lisérgico de “Can’t See at All”, City Sun Eater… é o conjunto de sons mais contemplativos e ~good vibes~ do Woods.

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Noname – Telefone

Ex-Noname Gipsy, a rapper americana Fatimah Warner lança sua primeira mixtape sob o nome Noname. Junto à estréia, temos o melhor cruzamento entre Lauryn Hill e Missy Elliott possível nessa década: fluência soul e bom flow, letras intrincadas e engraçadas e produção finíssima. A grande estréia de 2016.

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Mourn – Ha, Ha, He.

Punk sem medo de ser perigoso, guitarras sujas, uma dose de psicodelia e pronto: eis a fórmula mágica que faz de Ha,Ha, He. um dos discos mais interessantes de 2016. Guiado pelas vozes de Jazz Rodriguez Bueno e Carla Pérez Vas, a banda catalã é uma livre associação entre Warpaint, Patti Smith e L7. Guitarra alta, gritaria e uma surpresa.

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Frankie Cosmos – Next Thing

Se observarmos bem os lançamentos de 2016, veremos que há uma boa quantidade de bandas capitaneadas por mulheres; 2016 foi definitivamente marcante para o crescente empoderamento e participação das mulheres nas cenas musicais. Destarte, Frankie Cosmos, o projeto de Greta Kline, é mais um dos destaques femininos na programação musical do ano que passou, com atitude e peso na estréia. As guitarras de twee pop e o lo fi das canções nos transportam diretamente pra 1996 (quase o ano de nascimento da moça em questão). Um disco dos anos 90 gestado fora de época.

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Frank Ocean – Blonde

Frank Ocean demorou tanto a lançar esse disco que chegou a virar piada. Todavia, Blonde era tudo aquilo que pensávamos e um pouco mais: guitarras de dream pop, samples que vão de Brian Eno a Elliott Smith, tretas que vão de Jay-Z à Adidas, e pelo menos quatro ou cinco hits indeléveis dessa década. F. Ocean não está aqui a passeio.

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Wilco – Schmilco

Mesmo com a idade, o Wilco permanece acima de quase todo mundo que pratique o famigerado som de guitarras. Alternando inspiração e pura competência, Schmilco mostra que J. Tweedy e Nels Cline estão ainda em seus respectivos topos: ouça “Common Sense”,  “Quarters” e “Someone to Lose” e entenda.

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The Body – No One Deserve Happiness

Som de satã, maldição, ioga negativa, barulho, noise, irritação nos ouvidos. The Body é a dose de desgraça nos seus ouvidos em 2016. Para entender o grau de diferentice do The Body, a banda se denomina METAL EXPERIMENTAL. É algo que deve ser ouvido em doses homeopáticas: talvez você vá ouvir e não volte mais. Muito cuidado.

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Oathbreaker – Rheia

Você, fã órfão à espera que o Deafheaven lance disco novo, caia de cabeça nesse novo disco do Oathbreaker (não por acaso, foi produzido e pós-produzido por Jack Shirley, membro do Deafheaven). Algo como uma união insuspeita entre Björk, Black metal e shoegaze, Rheia é uma experiência de abismo e intensidade. Juntando à miscelânea esquizofrênica (embora coerente), a versatilidade vocal de Caro Tanghe é o grande triunfo desse disco.

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Badbadnotgood – IV

Após o estardalhaço causado em seus 3 discos anteriores, os jovens do Badbadnotgood começam a ver a idade pesar e a necessidade corrente de serem mais incisivos e maduros. É com essa missão que eles viram uma banda de dolorido soul em “Time Moves Slow”, com a performance de crooner de Sam Herring (Future Islands) e exploram a nova sonoridade do hip hop com “Lavender”, com participação do hypado Kaytranada. Aqui e ali, doses de free jazz e acid jazz que notabilizaram a banda.

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The Kills – Ash & Ice
Em seu quinto álbum de carreira, o The Kills explorou novas direções sem deixar de lado a sua essência de lançamentos anteriores, criando um trabalho prazeroso de ouvir do começo ao fim. Um disco com canções confiantes, apesar do teor melancólico da maioria das letras. Com certeza, este lançamento foi um ponto de virada na carreira da dupla.

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Black Mountain – IV
Uma das melhores viagens de 2016 com certeza, riffs na velocidade ideal, meio anos 70 e meio anos 90, arranjos de órgão e synth perfeitos e atmosferas que vão de canções mais obscuras até ao psicodelismo e progressivo.

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BAT – Wings Of Chains
O debut deste projeto paralelo entre membros do D.R.I, Municipal Waste e o Volture é uma tremenda paulada na cabeça. Aqui temos peso, sujeira e velocidade que vão do metal ao punk sem cerimônias em quase 30 minutos de som. Sonzeira para escutar e sentir a paz interior ir para bem longe.

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Blues Pills – Lady In Gold
Com fortes doses de soul sobre o já característico rock com influências setentistas presentes no disco anterior e em EP’s, o quarteto sueco/americano nos presenteou em 2016 com um trabalho maduro e ousado, ultrapassando as fronteiras do que era esperado deles, o que por sinal já era bom. Além de músicas maravilhosas, temos a voz e a ótima interpretação de Elin Larson, atualmente uma das mais marcantes vozes surgidas dentro do rock nos últimos anos.

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Red Fang – Only Ghosts
Tem quem não goste do mais recente lançamento de uma das bandas mais cervejeiras da atualidade, relacionando o Only Ghosts ao impacto que eles causaram nos primeiros discos. De fato, a banda não conseguiu produzir à altura do seu primeiro álbum e do aclamado Muder The Mountains de 2009 e 2011 respectivamente, porém se desconsiderarmos esta fase inicial da banda, encontramos aqui um bom disco de uma banda que dificilmente não passará do que encontramos atualmente em seus trabalhos, mas que entrega exatamente o que é esperado: rock sem enfeites, direto, com riffs instigantes, peso e cerveja até certa parte do corpo fazer bico.

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Solange – A Seat At The Table
Entre composição e gravação, A Seat At The Table levou quase oito anos para ficar pronto. Faz sentido: a tapeçaria de r&b, psicodelia e soul, iniciada no EP True, de 2012, ganha em dimensão e volume em um álbum que já nasce clássico. Além dos mil detalhes escondidos em cada arranjo, vale a pena ouvir com um bom fone, prestando atenção nas letras,  todas assinadas pela própria Solange, que abordam temas como indignação, empoderamento, amor e sexo.

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A Tribe Called Quest – We’ve Got It From Here… Thank You 4 Your Service
Como Blackstar, de Bowie, o disco novo do Tribe é uma despedida. Phife Dawg, membro fundador do grupo, faleceu meses antes do disco ficar pronto e com ele se foram os planos de uma retomada em tempo integral. Mas a injeção de otimisto deste disco substitui a dor da perda pela sensação de missão cumprida. Para aumentar o volume e voltar a sorrir.

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David Bowie – Blackstar
Blackstar vai ficar para sempre associado às circunstâncias do seu lançamento, poucos dias antes da morte de Bowie. Mesmo sem esse detalhe, o tom de despedida já era claro. É difícil de ouvir, mas quem atravessar o deserto será bem recompensando com um dos discos mais elegantes e poéticos de Bowie, aqui muito à vontade entre ecos e sussurros jazzísticos.

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Radiohead – A Moon Shaped Pool
Embora a rigor não traga nada de novo para a discografia de Thom Yorke &  sua gangue , A Moon Shaped Pool é um disco especial porque promove um encontro entre todas as versões paralelas do Radiohead: sci-fi do desespero (“Decks Card”), erudição selvagem (“Burn the Witch”), baladão pra sentar e chorar (“True Love Waits”), psicodelia do futuro (“Tink Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief”). Tem tudo aqui, servido com o fino azeite da maturidade.


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Parquet Courts – Human Perfomance
Com poucos acordes e letras muito acima da média, os americanos do Parquet Courts tiram de letra a difícil tarefa de ser uma banda política, sem perder a mão para a fuleiragem saudável.Ouça “Dust”, “One Man No City” e “Berlin Got Blurry” e dance antes que o mundo acabe.

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Kevin Morby – Singing Saw
Cantor de folk e guitarreiro de mão cheia, Kevin Morby tocava baixo no Woods (também presente nesta lista), mas desde 2013 saiu em carreira solo e daí pra frente, foi só vantagem. Singing Saw é o terceiro disco dele e o melhor até, agora. Climas montanhosos e fantasmagóricos percorrem as 9 faixas do disco, às vezes acalmando, outras assombrando. Destaque para “I Have Been To The Mountain”, séria candidata a hit.