Lee Ranaldo em São Paulo, entre a maré e o tempo

por em sexta-feira, 15 dezembro 2017 em

lee ranaldo
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Na introdução de Jrnls80s, Lee Ranaldo avisa que os textos ali reunidos são uma tentativa de capturar em linguagem as impressões dos primeiros anos na estrada com o Sonic Youth. Só li o trecho depois do show que acompanhou o lançamento do livro em São Paulo, mas serve pra explicar por que não tentei tirar fotos ou filmar. Não sou fotógrafo nem tenho um celular de milhares de reais com câmera profissional. Tenho, isso sim, uma política pessoal bem resolvida sobre uso de celulares e que tais em shows. Tudo que tenho à mão para capturar o que aconteceu ali, entre Ranaldo e as pessoas que lotaram a sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo, é a linguagem, palavras, frases espertinhas, sintaxe. Ou seja, lascou-se: daqui pra frente, você que lê daí vai ter que confiar em mim.

Mas acredite quando em verdade digito: foi um dos melhores e mais surpreendentes shows que vi este ano, ou nos anos que transcorreram antes. Melhor inclusive que a última aparição de Ranaldo que vi, há uns dois anos, debaixo de chuva e em um Largo da Batata lotado. Daquela vez, o grisalhão veio acompanhado da sua banda de apoio, a The Dust, e de um porrilhão de guitarras invocadas. Agora, foi só ele, um violão, uns poucos pedais, dois arcos de violino, microfone e plateia. E ainda assim conseguiu soar mais alto que um paredão de marshalls topados.

Além do livro, Ranaldo veio divulgar Electric Trim, disco solo que saiu tem uns dois ou três meses. Ouvi algumas dias antes do show e, confesso, achei legalzinho e olhe olhe. Mas ao vivo e sem banda é outra história. É aí que a estrutura das canções e o talento de Ranaldo como contador de histórias fica exposto no osso cru, descarnado. Na base da palhetada furiosa e nada mais dá pra perceber os limites do território onde ele cria, inventa e se debate. Ranaldo é o tipo de artista que leva as influências tatuadas na testa: poesia beat, spoken word, a prosa estradeira de Sam Shepard, escalas orientais, afinações empenadas, frases melódicas e truques narrativos aprendidos em discos de Neil Young e Joni Mitchell se atracam num pleorama de cenários decrépitos e românticos. Nos discos, pode ser que tudo isso fique meio subtendido, que escorra entre a eletricidade em um nível quase subliminar. Em formato acústico, não: está tudo à frente, sem intermediários. É um ato de confiança, como se Ranaldo abrisse as cartas sobre a mesa, desistisse do blefe.

Há sinceridade em “Off the Wall”, cinema em “Xtina As I Knew Her”, ambas do Between the Times and The Tides, de 2012. Do disco novo, há o humor absurdo de “Uncle Skeleton”, o otimismo de  “New Thing”, o lirismo recortado do ramerrão em “Circular”. Canções que ganham mais com menos, que se agigantam à mesma medida que o cantor se encolhe atrás do violão e sobe nas pontas dos pés pra cantar.

Uma hora e pouco de show. Mais uma, duas, três – Lee Ranaldo dá uma goladinha leve numa taça de vinho estrategicamente posicionada, agradece geral e vai embora. A juventude da fila do gargarejo se atraca pra pegar setlist, palhetas e o que mais possa ter ficado no chão, contraponto cômico à intimidade de poucos minutos antes. Levantamos. Fim, fade-out.

Na saída, paro na banquinha, desvio do escorpião no bolso e compro um exemplar de Jrnls80s, esperando que além de leitura interessante sirva também de talismã para evocar o som e a visão do show que acaba de se apagar. Depois, no metrô vazio que me leva pra casa, folheio as primeiras páginas e leio a frase que na noite seguinte vai desaguar neste texto, escrito ao som do Electric Trim redescoberto. É sim um bom disco, afinal. Turn out the past and just say yes, now it’s all behind you, etc.

Foto: Acauã Novais