Miséria e Fome – Inocentes

por em quarta-feira, 1 agosto 2018 em

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Comprei esse LP no inicio da década de 90. Um relançamento pela DEVIL Discos datado de 1988. Até o relançamento desse LP, muitas águas passaram até que esse disco fosse editado como de fato foi gravado. As gravações originais são de 1983 e foram bancadas pela própria banda por meio do dinheiro conseguido com o pedido de demissão, de cada integrante, nas respectivas empresas em que trabalhavam.

A formação da Inocentes na gravações do disco: Ariel ( voz ) Clemente (baixo e vocal), Calegari (guitarra) e Marcelino (bateria). Esses garotos gravaram treze faixas que foram enviadas a censura e TODAS foram censuradas. Os temas como reforma agrária, crítica a religião e repressão policial, não foram toleradas pelos censores do governo João Baptista Figueiredo. Se no passado esses temas poderiam levar os compositores ao exílio ou cárcere, nos anos oitenta eram “apenas” censurados e impedidos de serem gravados. Apenas quatro músicas foram liberadas, “Apenas Conto o que Vi ( O que Senti)” e “Calado”, no lado A.  No lado B “Morte Nuclear e “Aprendi a Odiar”. Ainda sim, na primeira faixa do lado A, que trata da reforma agrária de maneira explícita, teve que que ser alterada com esses versos: “Não estou culpando ninguém, não estou acusando ninguém, apenas conto o que vi, apenas conto o que senti , miséria e fome”.

O LP foi reduzido a um compacto com essas quatro músicas. O som desse disco é hardcore, uma tendência que se afastava das origens punk rock da banda, mas que a sintonizavam com o que havia de mais contemporâneo no movimento punk. A saturação e absorção do punk 77 por parte da mídia (especificamente na Inglaterra) fez com as novas gerações punk optassem por um som mais sujo e rápido numa tática de banir qualquer possibilidade de assimilação pela indústria fonográfica. Os Inocentes optaram por essa via, mas não foram bem acolhidos. Os punks paulistas preferiam comprar um disco de uma banda gringa, mesmo sendo mais caro do que o compacto dos Inocentes. Mas mesmo assim o disco foi ganhando importância histórica e ultrapassando as fronteiras nacionais adquirindo repercussão no exterior.

Quando as gravações foram finalmente editadas no formato LP, com as treze músicas, deu para ter um ideia integral do trabalho da banda. Entre as músicas, destaco, “Calado” que trata de um tema pouco comum no discurso punk: a MORTE. Sem subterfúgio, sem religião e que enfrentamos sozinhos, numa sonoridade com tambores tribais. “Vida Submissa” tem letra bem construída sobre o destino de milhões de pessoas submissas a um estilo de vida que os destrói mas que não podem mudar. “Tortura, Medo e Repressão” denuncia a repressão por parte do estado e da classe dominante com ótimos versos: “tortura, medo e repressão para destruir verdades”. Em “Maldita Polícia” os Inocentes denunciam a polícia como aparelho de repressão, atrelados ao poder, a corrupção e indagam “Como posso confiar em quem tem uma arma na mão?”. Em “Não Diga Não” criticam a indiferença de grande parte da população que se recusa a ter posicionamento diante das injustiças sociais e que dizem, simplesmente, não ter haver com elas.

Tanto o compacto como LP são peças importantes para compreender o punk no Brasil.

Foto: Rui Mendes