Há um gênio no porão

por em sábado, 17 janeiro 2009 em

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Pode parecer um cálculo desmedido, mas o fato é que existe muita gente no mundo que escreve canções. Eles estão por aí, invisíveis, espalhados pela sua cidade: no ônibus, na fila do banco, atravessando o sinal fora da faixa de pedestres, comendo pipoca no cinema. Enfim, fazendo coisas que qualquer um de nós faria num dia normal, a uma cusparada de distância.

Robert Pollard é um desses sujeitos. Cinquentão, despreocupado e pançudo, poderia muito bem estar sentado na mesa ao lado da sua no bar da esquina, entornando uma gelada. Duas coisas, porém, o separam definitivamente da massa de bardos urbanos anônimos que somos obrigados a suportar diariamente até o fim dos tempos.

Primeiro, há o caráter obsessivo do homem. Em carreira solo, projetos paralelos e, principalmente, à frente do Guided By Voices, uma das mais canônicas bandas/instituições do rock alternativo americano, Pollard escreveu e registrou em esquema caseiro uma quantidade de canções que se enfileiradas seriam mais do que suficientes para contornar a Terra.

Segundo, há a maneira como tal marca foi atingida. Primando pelo minimalismo (a maioria das suas canções não passa dos dois minutos, algumas só duram uns poucos segundos), mas sem abrir mão de melodias e letras surreais, Bob Pollard soube filtrar suas influências aparentemente contraditórias (punk, rock de arena da década de 70, progressivo, psicodelia 60’s) numa linguagem própria que sacramentou um levante “faça-você-mesmo” como não se via desde os tempos da Nova Iorque boêmia nos idos de 70 e alguma coisa. O sujeito é, portanto, um autêntico Paul McCartney de porão. Um gênio, se me permite uma opinião direta.

Depois de decretar o fim do GBV em 2004, Pollard montou um selo, lançou um livro com suas gravuras de colagem e segue soltando de dois a três discos com seu nome na capa por ano, fora eventuais colaborações com os chapas que aparecem para tomar uma cerveja no fim de semana. O primeiro lançamento desovado em 2009 é o solo The Crawling Distance, que atinge o mundo físico no dia 20 de janeiro.

No disco, as características pessoais e intransferíveis que o tornaram conhecido e encheram o segundo parágrafo desse texto estão todas lá, porém em versão godzilla, verdadeiras itaupus se comparadas ao despojamento do passado. Mais longas, complexas e, em alguns momentos, mais reflexivas que o habitual, as canções de Crawling… fazem supor um refinamento no modus operandi errático de Pollard. Refinamento esse que nada tem a ver com a idade, e sim com um alargamento criativo que permite momentos de beleza melancólica (“The Buttler Stands For You All”, “Imaginary Queen Ann”), tanto quanto arremedos de kraut-rock (“Faking my Harlequim”) ou brilhantismo punk (“Silence Be Destroyed,” “CaveZone”), sem jamais perder a consistência.

A coesão, aliás, tem grande parcela de culpa pelo entendimento e pela percepção do brilhantismo das canções. Prioridade zero mesmo nos melhores discos do Guided By Voices, o posicionamento estratégico que faz com que o agrupamento das faixas tome a forma de um álbum de verdade ao invés de um punhado de musiquetas distribuídas ao acaso às vezes se faz necessário para separar o joio do trigo e para que se entenda e reaja ao que de fato o que está sendo dito ali (principalmente em discos com média de 20 faixas, como os do GBV). Nas dez canções de The Crawling Distance, os espaços em branco entre uma faixa e outra duram menos do que um princípio de sorriso. No fim, escutar esse disco acaba se tornando uma atividade trivial das mais agradáveis. Como beber uma cerveja gelada numa tarde quente, fumar um cigarro depois do almoço reforçado ou vadiar por entre as prateleiras de um sebo, passando discos de vinil com os dedos. Enfim, coisas que qualquer um de nós faria num dia normal.

Por melhor e mais empolgante que seja, The Crawnling Distance, assim como boa parte dos álbuns de Pollard, não vai mudar a vida de ninguém. Mas, sem dúvida, há de melhorar consideravelmente a existência de quem se dispor a ouvi-lo. Afinal, como o próprio diz, no final de “Too Much Fun”, faixa de despedida do álbum “nunca é muito cedo ou tarde demais”. E se você não gostar, escreva seu próprio álbum. É fácil.