Isso aqui vai render: em segunda edição, Guaiamum Treloso se afirma entre festivais do Nordeste

por em sexta-feira, 26 janeiro 2018 em

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Entre as vibrações da mata e os ruídos já próximos do carnaval, a segunda edição do festival Guaiamum Treloso Rural trouxe uma sequência de shows pra ser da mata nenhum botar defeito. Digna dos grandes festivais do Nordeste, a escalação correspondeu às expectativas, com nomes de destaque e promessas bem selecionadas entre os medalhões do lineup.

Aproveitando a luz do sol e o clima ameno (que inclusive suscitou algum receio, já que o dia anterior foi de muita chuva em Pernambuco), o rolé teve início com leve atraso, mas que pouco fez diferença. O palco Skol começou em torno das 15h com a nova banda for real de lombrado de Recife, Pupila Nervosa. Os jovens fazem rock instrumental por vezes dançante, por vezes progressivo, como um Hurtmold mais ácido e urgente, com ecos dos anos 90 (não por acaso há um manguebeatiano cavaquinho ali). Prometem empenar ouvidos por aí num futuro próximo. No palco Bem Te Vi, Lucas e a Orquestra dos Prazeres conseguiram colocar mais de 20 pessoas no palco, em uma cerimônia fortíssima de tambores e cantos africanos. Perdi o início do palco Selvagem, dedicado a bandas novas, novíssimas e/ou em ascensão, com Mariposa Experimental (PE), mas cheguei bem no começo da alagoana-recifense Amandinho. Hoje a banda já está à altura de ser chamada de NOVA VETERANA. Os caras amadureceram bastante desde sua estreia em 2015 e fizeram um show barulhento cheio de riffs e solos.

Quando enfim o céu começou a desiluminar Camaragibe, os shows foram ficando mais vigorosos e é partindo dessa observação que já pulo para o que começava a interessar: Metá Metá no palco Skol e Demônia no Palco Selvagem. A primeira fez um show curto mas PUNK e pesado, com direito a roda punk e tudo mais. O setlist foi calcado basicamente em MM3, o último disco do trio (que no palco vira quinteto), mas rolaram outras pérolas do repertório, como “Oyá” e “Obá Iná”. Já a segunda foi destaque pela jovialidade e pela força que demonstra mesmo com o pouquíssimo tempo de estrada. A banda potiguar, composta só de minas, parecia banda grande no palco, com empolgação e entrega. Tenham cuidado com os reptilianos malditos e fiquem atentos para esse nome: Demonia.

Cidadão Instigado, na sequência, fez um show para fãs, não-iniciados e ouvintes em potencial. Entraram no palco mascarados, como se num cortejo de carnaval da Zona da Mata pernambucana, ao som da vinheta retirada de “A Noite do Espantalho” (1974), que está presente no EP de estreia da banda, de 2000. O repertório daí para a frente foi um rosário de clássicos: de “O verdadeiro conceito de um preconceito a Fortaleza”, passando por “O pobre dos dentes de ouro” e “Homem Velho”, Catatau e sua gente desfilaram seus hits e gemas de sua já nutrida discografia para comemorar os 18 anos de banda. Elza Soares, na sequência, apresentou seu novo show A Voz e a Máquina, um bombardeio sonoro com dois DJs e um guitarrista executando um setlist que começou com “Computadores fazem Arte”, não por acaso. A homenagem a Chico Science também sintetiza a experiência sonora proposta por Elza e seus músicos, explorando as possibilidades de uma voz imponente entre os ruídos e as distorções das máquinas e picapes.

Por fim, no terço final do evento, quando os seres da mata começam a deixar de baixar no terreiro, Nação Zumbi, Baco Exu do Blues e Letrux ficaram encarregados de fechar a temporada 2018 do Guaiamum Treloso. A Nação já entra em campo com jogo ganho em praticamente qualquer palco do Brasil. Avalie, pois, o estrago que é um show especial para pernambucanos, com todos os hits da carreira do grupo. Hors concours já na escalação. O Baco Exu do Blues, incensado e entronado como novo grande nome do rap nacional, perdeu a voz na segunda música e fez um show MUDO. Coordenou a plateia com mímicas e gestos e contou com a disposição de seu MIONZINHO, MC Xarope. Talvez o baiano fosse mais produtivo ficando em casa fazendo suas mixtapes. Paciência.

Ao badalar da meia noite, quando os seres da mata, as estrelas da galáxia e as entidades de todas as mitologias começam a se esgueirar em seus planos astrais, Letícia Novaes começou seu rito após longa passagem de som. Letrux, seu projeto oitentista de decadência carioca, tem um dos melhores shows do país-Brasil hoje. A experiência é densa, é caudalosa, é como se assistíssemos um intimismo ululante, o íntimo que se espalha e vai além, sem pudores e sem passos em falso. Letrux, a mulher e a personagem, convergem como um astro ou qualquer sorte de explosão e seu show não é um risco pequeno. É um mergulho profundo. Não há muito o que falar, não há muito o que pensar. Vai além de qualquer espaço e qualquer momento.

O Guaiamum Treloso, portanto, vai se firmando como um dos festivais importantes do Nordeste (e do Brasil, evidentemente). Que não esmoreçam e que não deixem a peteca cair. Há muito pela frente em tempos de lamaçais bem maiores que os de Aldeia/Camaragibe.

Foto: Lais Vieira