Do Jiquiá a Boa Viagem, a concorrência é demais para Graxa

por em quinta-feira, 3 agosto 2017 em

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Graxa ,desde Molho, primeiro disco lançado, agrada a redação. Não de forma unânime, verdade seja dita. A Concorrência é Demais fecha uma trilogia começada com Molho e que teve Aquele Disco Massa na sequência. Este filho derradeiro é o mais bem acabado e é um disco conceitual. Segundo Ângelo Souza, o Graxa, o disco fecha um ciclo que começou com um olhar interno (Molho), passou por um olhar geral (Aquele Disco Massa) e terminou na volta pra casa, o Jiquiá onde ele mora, aceitando que deu merda.

A Concorrência é Demais é fruto de dois anos de experimentações que deveriam resultar em um disco duplo. Não rolou. Algumas músicas com o andar da carruagem nesses dois anos mudaram, mas não perderam a essência do todo. Cada música segue um caminho levando a seguinte e cada construção sonora segue o que as letras e ideias pedem. Ou seja, a diversificação do álbum é fruto da necessidade de se contar a história do disco e passar por momentos da infância, momentos de doideira, momentos de amor e até momentos reflexivos de pensar em desistir e meter o pé na jaca. Afinal, todo mundo precisa mais cedo ou mais tarde. As letras sempre abordam temas que levam o ouvinte a algo pessoal o que faz a assimilação mais fácil, não existe poesia cabeçuda, existe a essência em forma de música do que se passa no dia a dia.

Uma curiosidade sobre o disco é que a capa original não pode ser utilizada no Spotify porque exigiram liberação do uso da imagem de todas as figuras presentes na capa. Complicado.

Batemos um papo com Graxa sobre cada faixa para entender a feitura do disco e até a faixa que eu não curti findei gostando depois da explicação. Aperte o play e leia.

O Inimigo – Falando em concorrência, o fato de você não fazer parte de um nicho (psicodélico, stoner, pop fofinho – pra ficar nesses três) prejudica na hora de arrumar uma tocada?

Graxa – Eu acho que sim e demais. E eu acho também que existe uma moeda de troca que rola entre meios comunicacionais, festivais e coisas do tipo tudo. Coisas cíclicas que geram acessos a páginas, curtidas de num sei o quê. Assim, numa ideia de eu invisto pra falar e recebo pra ficar calado e vice e versa também. Bebê X solta um peido e sai e toca no caralho a 4. Eu trabalho numa oficina, arrumo mais trabalho, quase que como um idiota, fazendo móveis industriais, faço o ruock, pego transportes mortais para que isso tudo aconteça e foda-se, Graxa. O seu lugar de voz é esse e pronto. Uma vez eu falei pro pessoal de um jornal independente daqui da zona oeste do Recife que meu perfil de “artista” não instiga o fetiche, saca? Existe, e sempre existiu um perfil X para a aceitação, deleite e tesão. Um cara feito eu não se enquadra. Um negro que trabalha, é maluco e toca rock. Rock, no Brasil, aparentemente, é coisa definida e delineada por gente branca. Quando um negro tem que adentrar nesses territórios tem que ter um perfil e dentro desse perfil existe um limite. Enfim… Minha abordagem sobre isso é que, no âmbito musical, as pessoas chegam até mim e dizem que há uma admiração pelo que faço. No âmbito funcional, de certa forma, não. Rola-se muito da lembrança do bebê aqui quando o osso está a mesa. Na hora do filé, passa-se longe. (risos) Óbvio que não me esqueço e que reconheço quem faz as coisas na coxa e na emoção, mas tem gente que não, que pensa que “eu” tenho que fazer isso sempre na coxa e na emoção. Eu não aceito (mais?). Minha preocupação é o que eu vou conseguir desenrolar pr’eu comer e o que eu vou ter de deixar de deixar de consumir pra consumir. Enquanto que a meu ver existe o perfil de se lacrar ou se divertir ou ser o super star e por aí vai.

“Naquele Hotel Nacional” pelo que entendi é bem esse lance que você falou antes. As aventuras e desventuras, o filé e o osso. Nessas viagens pra tocar a realidade fica mais forte tanto no que diz respeito ao dia a dia quanto ao “hobbie” do rock?

Fica, Hugo. Fica sim. Por todos esses parâmetros que lhe disse. Queria explanar mais, mas acho que tanto a música como o que lhe disse completam tudo da pergunta. Tem uma parte na letra que fala “quando estava no bar…”. Eu poderia fazer, e me sentir da mesma forma, estando no boteco perto de casa.

“Baratha, Graxa & Phebo – Personalidades do Inocoop” remetem a infância de antigamente. Bons tempos onde se podia andar de bicicleta na rua. Olhando os dias de hoje, o que mais faz falta dos dias que passaram?

Rapaz, de certa forma os espaços, reais e imaginários. Hoje em dia nós somos muito presos dentro de uma engrenagem que nos deixa a um pezinho de perdermos todo o controle de nossas faculdades mentais. Chega-se um nível mental de se perceber porque tudo não funciona do jeito que se deveria funcionar para um mínimo nível de qualidade de vida. Essa música foi Baratha quem me apresentou num dia homericamente pesado de danones e fluxos de consciência mental onde, junto com Phebo, construímos o que se tornou a música. Num tempo desses eu determinei que tinha que fazer uma versão dela – quatro anos depois. Pensei em fazer algo que remetesse a um local, paisagem, momento, estado totalmente imagético. Eu estive ou não estive lá? Eu vivi ou não isso e aquilo. Uma memória afetiva geral. Localizações de espaços físicos ou mentais? Estive ou não estive lá?

Ela também é uma homenagem a figura do gordo Nino. As frases finais dessa música são dele. O que também remete essa ideia da realidade ou não do que vivo ou vivi. O gordo Nino era um homem que sofria de distúrbios mentais. Ele ficava sentado num imenso buraco na parede de um muro e adorava fumar cigarros com ou sem filtro. Ele pedia um trago e matava o cigarro todo numa tragada só. E dizia essa máximas maravilhosas. É o personagem, personalidade, que remete ao Inocoop e a um tempo. Enfim, é uma canção que além de tudo remete a um outro ponto de vista real ou não.

Tem um trecho “No tempo em que Roberto Carlos deu uma colher de pó a Elvis”. Danado é isso?

O gordo Nino, numa dessas trips, disse ter visto na capa da antiga revista O Cruzeiro uma foto de Roberto Carlos dando uma colher de cheirolayne a Elvis Presley. (risos)

“Ladainha é negócio de padre” é o famoso pagar pra ver e ainda repetir pra ter certeza que é bom se foder? Ainda tá rolando ou abandonou?

“Ladainha é negócio de padre” fiz inspirado em Aninha Martins numa de nossas conversas e causos. Ela me contou tudo e aí me veio o mote. É um conselho pra ela.

Deve ter contado muita coisa então. Porque é uma belo “eu não disse?” a letra.

Rapaz, “Los Fofoqueiras” remete muito a cidade de nascimento do meu pai no interior e também ao passado aqui onde as pessoas ainda podiam sentar a calçada e conversar e obviamente fofocar. O famoso telefone sem fio que hoje se dá através do whatsapp e redes sociais. Tá grave a situação por aí também?

Siiiiiiiiiim! Oxe, demais. Saca a gente de bem? O falso moralismo que o grandioso Nelson Sargento canta? Pronto, é a semente de toda a árvore de “Los fofoqueiras”.

“Hare feito”. Tu já foi hippie mesmo?

Não. É meio que uma indireta daquelas a neo psicodelia mundial. E também quando eu era guri e colava com a galera do rock o perfil do negro – roqueiro – não se aplicava a mim. Eram mods. Dos mods sempre sobrava pra mim o papel do negão traficante em Quadrophenia. Aí você percebe que realmente não se encaixa em nada disso e se pergunta se vai conseguir virar um trabalhador braçal. Também é um questionamento se existe heroísmo em ser um trabalhador comum brasileiro. Não existe aparente vitória. Mas a ideia mesmo é da neo psicodelia.

Porque torneiro sei que tu é e exerce na maior. Tá faltando parar mais de viajar e pôr as mão na massa?

Nada, a minha mão tá massa pura. Pra sair é foda.

A sua eu sei. Tô falando do resto. Um exemplo: tem um amigo aqui que sabe tudo de tudo. Inteligentíssimo. E como cantou você em “Um Bando de Crocodilos” num bate um prego num sabão. É muito hippie e neo hippie paz e amor achando que tá tudo uma merda e não bota a mão na massa.

Aí se condiz com cada um, saca? O lance é estar satisfeito e ter retorno com o que faz. Tem gente que não está aqui onde estou. Universo paralelo. O super homem bizarro é real. É dada muita oportunidade a porta vozes imbecis porque quem detém esse poder são outros imbecis.

“Deepest of Soul” é a necessidade de curtir a merda, ao contrário do que se vê nas redes sociais onde ninguém tem problema. Rola um pé na fossa as vezes por aí bebendo uns danones pra mandar tudo a merda?

Eu quando tô na bad curto ouvir uns sons da pesada, tipo metal e pá. Não tenho ouvido um tempo já então deve ser algo relativamente bom. Então, essa música fala de se você quiser mandar o foda-se legal, afetando só a si mesmo, o que é super ético, faça-o! Também fala de deixar vazar dentro de si pensamentos suicidas e não reprimi-los. Faça da sua vida o que quiser. Eu ia colocar, entre parênteses, um sub título: (manual prático para pensamento do suicida), mas achei que não iriam entender que quanto mais se reprime, mais se atenua. É algo que procuro dizer, na letra, ao contrário de Neil Young, que é melhor se queimar, apagar aos poucos, do que se queimar de vez. (Né isso que ele disse?). Ou então a de Townshend, que diz que é melhor morrer do que ficar velho. Tão errados.

“Pequenos favores, grandes problemas”. Rapaz, eu detesto pedir coisa aos outros. E quando faço algo por alguém não é em troca de nada. Tá cada dia mais difícil se aceitar o próximo como ele é?

Essa daí eu fiz na época do atentado francês e da parada de Mariana. E aí eu trouxe do macro pro micro vendo pelo viés de que grandes problemas seriam resolvidos através de pequenos favores. Tipo… Desses exemplos. Se a França fosse menos cínica e se ligasse que ela deve respeito aos imigrantes de acordo com todo o contexto histórico nada daquilo teria acontecido. Se o Brasil… O Brasil tu sabe. Aí pensando nisso, que são feito por pessoas, ações micro políticas geram reações macro políticas, sociais. Isso assim pode se aplicar a um simples: “por favor, você poderia me dar espaço?”. “Você poderia não jogar essa porra desse lixo pela janela de um ônibus?” E por aí vai.

“Você é muito chato demais” foi a que não curti. Achei simplória demais pro disco e geralmente passo ela na audição do disco. Mas explique o contexto.

Desculpe. (risos) Então, essa música eu gostei dela por causa do campo de composição dela. Tinham outras, mas eu deixei só essa mesmo. É uma música simplória mesmo. Falando de gente chata que existem aos borbotões, inclusive a gente mesmo.

Precisa se desculpar não. (risos)

(risos) Tem um contexto geral, de concorrência, que ela se enquadra.

Tá difícil de aguentar as redes sociais com a chatice. A mais nova é o caso Johnny Hooker x Ney.

Pronto, olha aí. É isso mesmo. “você é chato pra caray”. Nem lembrava dessa questão.

“No Mote da Doideira”. Qual é a dela?

O mote é a doideira mesmo. (risos) Ficar doidão e fazer merda ao ponto de perder algo consideravelmente importante pra caralho.

“Se doeu, doeu” foi uma explosão de panela de pressão?

Essa eu GOSTAMOS! É uma crônica musical de relações familiares de amor. Rola o bicho e depois as lambidas, as esfregadas, as mordidas de ação e amor. O clube do Bolinha da música é a moçada do pier. O personagem tá com o clube e não está com o bebê. O bebê se invoca e depois rola o eu te amo, “my sunshine”.

A treta e a reconciliação, sei como é. (risos). Inclusive é massa.

Fica com mais ação, mais atividade. É algo revigorante. yin yang. Não acredito nesse amor perfeito que a turma quer empurrar goela abaixo. É peso e leveza. Uou.

“Keyseanne, Roh Zaschocke, Dani Almeida & Graxa – A senhora é destruidora mesmo” tem muito do que já falamos até agora.

Rapaz… Nesse caso não. Essa daí eu fiz perguntando para as amigas o que faz da amiga X ser destroyer mesmo. Apenas algumas características dentre várias.

Pois eu já puxei pro outro lado. Porque tem que é lacradora e tem quem força a lacrada.

Mas essa daí foi feita, também, porque eu sou bola. Na verdade o mote vem de “bicha, a senhora é destruidora” e não miga… Como só tem a última (música) vou te dizer: O disco ele é uma sequência dos meus trabalhos. O “Molho”, algo mais individualista e pessoal. “Aquele Disco Massa”, mais externo, constatações de consumo musical e cultura e esse terceiro é o disco que eu “volto” pro Jiquiá e constato que deu merda, saca? É uma história, tema, de Graxa voltando pro Jiquiá. Eu escrevi toda uma história pra pegar as músicas que estavam no meio de um todo que seria um disco duplo pra fazer a seleção e cerne do disco. Não necessariamente as melhores, mas sim as interligadas. Depois eu faço outro. Eu gravei praticamente o disco todo. Tirando as partes rítmicas de percussão e bateria. O disco tem três bateristas devido ao período de feitura, creio eu. Gilvandro, Thiago Marditu e Johann. As percussões foram feitas por Leo Vila Nova e Rama que também gravou o didgeridoo. De resto fui tudo eu que fiz.

“Gostei de Ti”, segundo Graxa, é um desfecho da ópera rock. E é uma bela canção de amor. Quem nunca olhou pro amor e ficou ali admirando meio que alheio as coisas da vida?

O disco também está disponível para download.