Dez anos depois George Belasco & O Cão Andaluz está de volta

por em segunda-feira, 21 janeiro 2019 em

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Se foram mais de dez anos da única apresentação de George Belasco & O Cão Andaluz no DoSol. O show com uma pegada e urgência punk chamou a atenção porque nos EPs a pegada eletrônica era evidente. Agradou em cheio. Se foram dez anos do último show da banda e com a data foi lançado o primeiro disco cheio. Antes foram quatro EPs.

A pegada do disco segue o que a banda já havia feito. Uma mistura de surf music, eletrônico, new wave com punk, ou pós-punk. Tudo com uma roupagem pop que dá vontade de dançar. Nesse quesito destaque para “Casualidad”. Mas o disco passeia por uma Fortaleza que mistura a agitação e ao mesmo tempo a melancolia de uma cidade que cresceu e desagradou parte de seus moradores. Em Natal muitos tem essa visão, eu incluso. Sinto falta de coisas do passado que tornavam a vida menos urgente e ao mesmo tempo mais pacata.

Batemos um papo com George Belasco, cabeça do trio (George Araújo – voz, guitarras e sintetizadores; Lucas Jereissati – baixo; Leonardo Mamede – bateria). Os Cães Veem Coisas já vem colhendo elogios com uma sonoridade que passa por muitas influências, mas que consegue arredondar tudo num pop dançante e atemporal. O disco abre com “Numismata” já mostrando um certo pessimismo e encerra com “Os Cães Veem Coisas” em homenagem ao escritor Moreira Campos com uma música eletrônica melancólica.

O disco contou com participação de Felipe Lima no sintetizador de “Aqui Ronca Um Motor” e nas guitarras de “Sete Palmos” e “Sem Maneiras”. Arte da capa “Flâneries – 2” pelo artista plástico Mychel Távora. Fotos de divulgação por fotógrafo Leonardo Zingano. Gravado por Felipe Couto, no Quintal Estúdio, em Fortaleza/CE, entre maio de 2017 e outubro de 2018. Masterizado por Chuck Hipolitho, no Estúdio Costella, em São Paulo/SP.

O disco caiu bem no meio do tal desafio dos 10 anos que movimentou as redes sociais. Aproveitando a deixa, o que mudou nesses dez anos que levou a gravar e lançar o disco?

O último show do Cão Andaluz foi na edição local do Grito Rock Fortaleza, realizado em fevereiro de 2009, mas muito antes disso anunciávamos que o disco viria. Não veio. A banda ficou em suspenso desde então por conta dos rumos que a vida tomou. Lucas Jereissati se formou advogado, Leo Mamede montou uma produtora de vídeo e eu foquei em equilibrar trabalho e estudo. O assunto do disco sempre retornava quando nos encontrávamos esporadicamente e isso cresceu. Quem compõe sabe, você não consegue parar. É algo que ultrapassa a razoabilidade, pois surge quando você sente. O motor da criação ficou mais brando por um tempo, mas roncava de quando em vez. Isso foi o que nos levou a retomar os ensaios em 2017. Em Os Cães Veem Coisas colocamos 10 músicas que sintetizam as intenções e mostram possibilidades de continuar.

As 10 que sintetizavam o período dos anos 2000? Deu a entender que podiam ser mais e ficarão pro próximo disco.

Exatamente. Durante a pré-produção separamos 16 músicas, sendo 6 delas instrumentais. Depois de revisar o que queríamos dizer e estimar os custos para realizar decidimos deixar apenas 10. Algumas das que ficaram de fora podem aparecer no próximo trabalho, mas não tenho como dar certeza neste momento.

Achei a pegada da gravação como “ao vivo”. Rolou no esquema todo mundo junto?

Na verdade gravamos tudo separado. No caso das baterias, fizemos 2 sessões com quase 8 meses de espaço entre elas. A grande dificuldade que tínhamos em relação aos 7 EPs que lançamos foi justamente conciliar as experimentações de samples e synths com a pegada ao vivo. O disco meio que traz o melhor dos dois mundos. Temos camadas de guitarras, temos samples, um punhado de synths virtuais, baixo e bateria. Propositalmente deixamos o som mais lo-fi, uns cabelinhos soltos aqui e ali. Nunca fui muito de coisas assépticas.

Senti exatamente isso. Nesse intervalo que vocês pararam e voltaram teve uma renovação de bandas em Fortaleza. Como você vê a banda hoje em relação a o cenário atual?

Sinceramente, não faço ideia como as bandas mais novas e o público delas encara o Cão Andaluz. Mesmo à época que estávamos mais ativos nosso público era difícil de mapear. Por exemplo, quando tocamos no DoSol Rock Bar vi uma roda de pogo na frente do palco. Em Fortaleza, nunca vi isso. As pessoas pulavam, uns faziam danças estranhas na frente do palco, outros coçavam a cabeça com os olhos fixos… Descobriremos como estamos no dia 01/fev quando fizermos o show de lançamento do disco. Sobre as bandas atuais tenho acompanhado à distância (literalmente) o que tem sido produzido e fico bastante contente com a qualidade de trabalhos como maquinas, Missjane, Vacilant, Terceiro Olho de Marte, dronedeus, Monquiboy-Boo, Danchá Chá, Lua Underwood… Tem uma galera fazendo coisas totalmente díspares e eventualmente trabalhando juntas. Isso é o que vale a pena. Melhor que 14 bandas de hardcore parecidas com o Millencolin cantando frases repletas de verbos no infinitivo. Só de ouvir os discos de Jonnata Doll e Soledad tenho a certeza de que não sinto saudade alguma do passado. Aqui não temos viúvas.

Vi o show de Soledad em Recife e foi muito bom. Gosto bastante. A sonoridade de vocês passeia por várias influências e que pra mim termina num pop. Até as eletrônicas/instrumentais. Já comentei com você da surpresa que foi ouvir os EPs e ao ver o show ficar impressionado com a pegada diferente. Vai ser essa pegada nos shows a seguir?

Oh droga, descobriram nosso segredo! É certeza que o som da gente faz a cama no pop. David Bowie que cantava “Let’s Dance” era a sequência daquele que lançou African Night Flight e Scary Monsters, por exemplo. O Devo de “Whip It trouxe Mongoloid” pra falar que a vida normótica te deixa “feliz”. Quem sabe em um futuro próximo a gente não faz uma balada para uma campanha de zíperes? Sobre as apresentações nosso desafio hoje é traduzir todo “Os Cães Veem Coisas” para o palco. Já temos a manha de fazer ao vivo aquilo que o público de Natal viu há uma década: músicas urgentes, riffs cheios de arestas e vocais arremessados. Talvez por ser quase quarentão eu tenha o desejo que tratar as músicas com mais carinho. Enfatizar algum teclado, beats, guitarras que dialoguem. Esse tipo de coisa seria bom, mas não sei se sairá a tempo para o show de lançamento. Quem sabe depois.

Urgente é a palavra do show que vi aqui!

Sempre. O disco tem 10 músicas e algo em torno de 30 minutos de duração. Depois do lançamento de Unlikely vi uma entrevista do FFA dizendo que a produtora repetiu o refrão de “Cobra” porque era a parte que mais empolgava. Concordei no ato. Passagens que pouco dizem ou servem apanas para segurar o tesão não são comigo.

O Cidadão Instigado fez o disco Fortaleza com músicas diretas. As de vocês também fazem referência a cidade, mas de forma mais poética. Como é essa relação com a cidade durante esses anos que ficaram parados e lançaram esse disco?

Se nosso disco tivesse sido lançado em 2009 o título seria Às Vezes Essa Cidade Me Dá Medo. Traduz bem os sentimentos que Fortaleza evoca. Gosto muito de minha cidade, mas não mais o suficiente para morar e trabalhar nela. Visito eventualmente para resolver alguma coisa da vida cotidiana, mas louco de vontade para voltar ao espaçamento da zonal rural. Tenho a impressão que Lucas e Mamede compartilham dessa ideia uma vez que sempre moraram em bairros distantes da agitação comercial e cultural. Ao Norte, Fortaleza tem o mar como limite, mas há uma paranoia na fruição desses espaços. O discurso do poder público normalmente é gentrificante: requalificar, revitalizar, ocupar. A cidade é algo vivo, pulsa e está totalmente ocupada. Os “surtos de violência” que experimentamos não só em Fortaleza, mas também no interior do Estado transformam as pessoas em bichos feitos de arame com olhos de CFTV. Tudo assombra e enerva. Contudo, é cíclico. Frequentemente dura o período de uma gestão do governo do Estado. Nossas músicas evocam tais questões (ou pelo menos espero que o façam) em letras menos objetivas. Melodias sobre ver coisas absurdas e sublimes entrecruzadas nas ruas de Fortaleza. Os Cães Veem Coisas é sobre criar afetos e com eles sofrer, amar, ter êxtase e fúria. É sobre estar à beira de algo acontecer.

E a obra que inspira o nome do disco? Qual a influência do autor sobre vocês?

O contista cearense Moreira Campos viveu os últimos anos de vida no bairro do Benfica. Ali estão a antiga Escola Técnica Federal (atual IFCE) e três campi da Universidade Federal. Nos bares da Avenida 13 de Maio, o fio condutor do hoje chamado “corredor cultural do Benfica”, assisti os primeiros shows da minha vida. Aprendi a tocar violão e bateria, montei minha primeira banda. Amei, senti dores, decepções e êxtase. De quando em vez alguém trazia o nome de Moreira Campos nas rodas de poesia que assistia. Amigos falavam da genialidade do autor e do desprezo que a cidade tinha pela história dele. O conto que inspira o título do disco trata sobre como o sobrenatural perpassa a banalidade do cotidiano e deixa um rastro atrás de si. A casa onde Moreira Campos morou foi um exemplo disso: da noite para o dia foi demolida para dar espaço para o estacionamento de um shopping center. A memória do “maior contista brasileiro” virou escombro. Os Cães Veem Coisas, a música, é esse toque gélido e estranho. Passa e desaparece como um fantasma atrás de si. Fecha um disco que começa quase feliz e vai ficando mais estranho.

Realmente tem um ar melancólico no disco que alterna com momentos mais vibrantes. Quais os planos para shows após o do lançamento?

Vamos fazer o lançamento oficial do disco em Fortaleza, no dia 01/fev, com a banda Monquiboy-Boo. Depois disso é elaborar projetos para o editais de cultura que porventura apareçam, isto é, se a verba pública não minguar. Temos um mapeamento dos festivais independentes pelo Brasil, mas não sei se será viável conciliar o trabalho de todos com a estrada. Quem sabe não rola uma volta RN-PB-PE, né?