Ana e Foca destrincham o Festival DoSol

por em quinta-feira, 8 novembro 2018 em

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A 15ª edição do Festival DoSol 2018 está chegando com mais de 50 shows. A festa de abertura com a americana Against Me! lotou o DoSol, na Rua Chile, e outras ainda acontecem antes e depois do evento principal que ocorre na Via Costeira no Beach Club nos dias 24 e 25 de Novembro. Batemos um papo com Ana Morena e Anderson Foca, idealizadores e produtores (e também músicos) do festival. A ordem das bandas com horários e links para os discos você vê aqui.

Segundo ano no Beach Club, quais as principais dificuldades enfrentadas no primeiro ano e quais as principais vantagens? Para esse ano existirão mudanças estruturais em relação ao ano anterior?

Ana Morena: Não vou chamar de dificuldades, vou chamar de readequação. Foi um evento completamente novo com a vibe de sempre. Nesse novo espaço temos que ser um pouco mais rígidos nos horários dos palcos porque o som de um palco interfere no outro e não dá mais praqueles bis que tínhamos no formato antigo. Mas em termos de conforto de público e dos artistas acredito que demos um salto grande. Adoramos fazer lá e foi unânime como todos curtiram o espaço e o formato como montamos, mas estamos nos coçando para ficar cada vez mais itinerante. Estamos com muitas ideias para o ano que vem. Em 2018 faremos praticamente igual ao ano anterior, mas demos uma melhorada na estrutura e o espaço passou por uma reforma que nos fez perder o palco interno, mas já remanejamos e vai ficar lindo.

Anderson Foca: Fizemos 13 edições do festival na Ribeira, sabíamos exatamente tudo o que acontecia no bairro, temos quase 20 anos de ação por lá. Meu pai uma vez ficou emendando cano na rua de madrugada para tentar estancar água dentro do festival. Ano passado foi nosso primeiro ano no Beach Club e estávamos entendendo o espaço e o melhor jeito de interagir com ele. Foi bem legal no ano passado e vai ser ainda melhor esse ano com mais experiência e conhecimento do que dá para fazer lá.

A partida do Miranda deixou muita gente desnorteada e a homenagem da identidade visual do Festival ficou muito boa. Nos dias de hoje está faltando gente como ele?

Ana: Miranda é único. Não vai existir outro Miranda. Quem ele foi, o que ele fez pela música brasileira, num determinado contexto histórico, isso não será repetido. Eu acho que a cena anda, a vida continua e as coisas mudam. Mas Miranda será eterno.

Foca: As pessoas tem saudade do Miranda porque ele era 100% porraloca, só que um porraloca que sempre sabia das doideiras que estavam fazendo. Eu passei de fã a amigo do Miranda por a gente se identificar nas doideiras da vida cotidiana, do trabalho, de insistir em trabalhar com banda nova, essas cosais todas. O Miranda importante da música a dar moral pro Dosol lá em 2005 e na época em fiquei em choque com os elogios que recebemos. E ele, inteligente que era, sabia que era importante para gente esse tipo de incentivo num momento chave da nossa história. Muitas saudades do velhinho, homenageá-lo no Dosol é além de tudo uma alegria imensa.

Nos dias de hoje aparecer um Miranda é mais difícil, tudo é mais pragmático, menos romântico e a gente termina tendo que militar na cultura, pagar contas, se posicionar politicamente, cuidar da família, da saúde física e mental. Ou seja, Um porraloca em 2018 não faria o que a gente faz.

Nesses 15 anos qual o momento mais difícil/triste e qual o melhor/mais feliz?

Ana: Caramba, acho que o mais difícil foi o ano de 2007. Nós tínhamos um patrocínio que deu errado faltando 20 dias pro festival. Fornecedores todos fechados, bandas com passagens compradas, tudo amarradinho. Não dava pra cancelar nada, todo mundo já na rua em tour. Seguramos a onda, entramos em contato com todos os fornecedores, os artistas, equipe, explicamos a situação e reafirmamos que íamos pagar tudo, mas precisávamos dividir em muitas parcelas. Foi um dos momentos mais importantes da nossa história porque vimos como tínhamos amigos, parceiros e como tínhamos credibilidade. Muita gente não só trabalhou de graça como encheu o tanque do carro e deixou aqui em casa pra ajudar no receptivo. Foi uma das edições mais cheias, mas loucas e mais divertidas. Passamos quase 2 anos pagando o prejuízo de 2007, mas valeu a pena total. Penso que todos os anos a gente tem o momento mais feliz. Só quem tá na linha de frente sabe do esforço que é colocar um projeto desse no ar. Se você pensar que só na mostra principal temos sempre uma média de 50 a 60 shows, são mais de 300 músicos por dia. Hospedar, alimentar, atender necessidades técnicas, dar carinho. Carinho e gentileza são premissas básicas de toda a equipe do DoSol. E isso é uma parte, tem muitas outras: estrutural, técnica, burocrática, é muita coisa envolvida. Toda vez que a primeira banda começa a tocar no festival, eu caio no choro porque é uma alegria danada quando damos o start inicial.

Foca: Em 2007 nós morremos, falimos, não avisamos a ninguém. Fui fazer outras coisas pra não cortarem nossa energia e água, Ana tentou vender apartamentos e até conseguiu alguns e ficamos vivos fisicamente, mas o Dosol praticamente morreu. Foi triste, mas uma grande escola. Fazer as cosias na precariedade te ensina a valorizar cada real que você consegue ganhar. O meu momento mais feliz foi no show do Marky Ramone em 2009, pena que eu passei mal e não vi o show, só as duas primeiras músicas. Depois fiz questão de editar o vídeo do show inteiro para sacar como foi o lance. Naquele dia eu surtei de alegria.

Vimos que os ingressos já estão no último lote. Qual a carga de ingressos total destinada ao festival nos dois dias principais? Superou as expectativas o esgotamento já nas vendas antecipadas? Existirá venda na hora do evento?

Ana: O espaço comporta 3 mil pessoas por dia. Temos uma rotatividade muito grande no sábado do festival porque começa cedo e termina na alta madrugada. Deu uma aquecida grande da venda nessa reta final. Faltam 20 dias ainda. Mas a gente sempre reserva um montante para a venda na hora. Já tivemos edições esgotadas em anos anteriores. Vivemos tempos diferentes, mas eu sempre aviso o seguinte: quer participar da festa com a gente? Já garanta. Fica você tranquilo e a gente também.

Foca: Dosol cabem 3000 pessoas bem locadas por dia, mais ou menos o público do ano passado, mais que isso acho que fica desconfortável para quem quer curtir a experiência toda do festival. Nós sempre deixamos cotas pra vender na hora porque recebemos muita gente de outros estados e esse número tem aumentado muito principalmente com a ida para a praia. Então se necessário pararemos a venda online e deixaremos cotas boas de ingressos para hora para atender essa demanda.

A cada ano que passa a escalação de bandas se torna mais diversificada, com uma variação entre bandas dançantes, indies, experimentais e até ritmos que há alguns anos não figuravam na programação como reggae e rap… Em contrapartida, nos dias principais, pelo segundo ano, não existe representação do Metal, em termos de ideia para o futuro é um caminho sem volta esse de diversificar ao máximo, mas priorizando estilos mais dançantes em detrimento de sons mais pesados?

Ana: Acho que é mais uma questão de pinçar o momento da música no Brasil e na cidade. Cada vez mais as cenas potiguar e brasileira estão mais diversificadas, o festival só reflete isso. É importante dizer que artistas que estão alinhados com a defesa da diversidade, tolerância, respeito pelas diferenças e gentileza sempre serão recebidos com braços abertos pelo Dosol, independente do estilo musical onde estão inseridos.

Foca: No meio de tantas bandas acaba passando despercebido no line up os sons pesados, mas temos um palco dedicado ao estilo no domingo. Tem inclusive a maior revelação do metal brasileiro na escalação que é o Damn Youth, bandassa. O Huey também. E metal instrumental, o Galatic Gulag flerta. Pense, Merda, Facada, todas bandas ultra pesadas. E ainda tem um side completo com três bandas fodas, Nervochaos, Nervecell e Expose Your Hate. Ou seja, Tem muito som pesado no DoSol como sempre. O que tem mesmo no geral, e essa é a impressão, é muito mais bandas e muito mais estilos representados, isso sim é um caminho sem volta que começamos lá atras em 2006.

A aposta em trazer a Against me! para a festa de abertura foi sem dúvidas arrojada. A escolha do Centro Cultural DoSol como local para o show acabou sendo ótimo por trazer proximidade do público com os artistas, o que dá aquele clima mais caseiro e ao mesmo tempo para quem é fã torna uma experiência única de contato uma banda que dificilmente voltará (ao menos em curto prazo) para um turnê no nordeste. Como foi amarrada essa questão de turnê e show aqui em Natal?

Ana: O Foca é muito fã do Against Me! e tinha esse sonho antigo de trazê-los pro festival. Temos alguns agentes parceiros no Brasil que trazem shows gringos e Foca estava tentando o Against já há algum tempo. Queríamos eles na mostra principal, mas a tour veio antes, então resolvemos fazer a festa de abertura e foi exatamente como gostamos. Sem frescura, no nosso espaço com mais um monte de artistas potiguares e e de outros estados. Ainda bem que esse ano deu certo.

Foca: A ideia de fazer esse show no CCDosol foi exatamente a nossa experiência pessoal de fã de música, quer coisa melhor do que ver seu artista predileto cara a cara, sem máscaras, super luz, só a musica e os fãs? Pouca gente notou, mas decidimos não por luz no show, junto com a banda, nada piscou no palco o tempo inteiro. O Against Me! também valoriza isso e ficou fácil realizar. Nosso contato com eles começou no Primavera Sound do ano passado, o agente deles sabia que eu era fã me convidou para ver o show. Fui, troquei uma ideia rápida e o Leandro da Powerline de São Paulo, parceiro nosso há muito tempo, viabilizou a tour e pegamos uma data. Foi um sonho, ainda nem processei direito. Daquelas coisas que rolam de vez em quando e que você nunca pode prever quando vai rolar de novo.

Com as mudanças nessa troca de governo (estadual e nacional), vocês preveem alguma ação que afete diretamente o festival? E já pensam em algo para driblar isso caso ocorra?

Ana: Se tem uma coisa que a gente faz constantemente é pensar sobre o futuro e desenhar mil cenários e como vamos nos portar diante deles. Na verdade, isso é a base da produção cultural. Uma coisa é certa: resistiremos. Temos alguns cenários nebulosos, mas temos alguns promissores. Vamos aguardar e ver o que acontece.

Foca: Se você é artista, intelectual, professor e coisas do tipo, você está fodido com esse governo que acabou de entrar por uma questão simples: essa turma odeia o pensamento crítico. E cultura ensina principalmente a você aguçar o seu pensamento crítico. Então esperamos dias bem duros pela frente. Claro que estamos calejados da caminhada porque fácil nunca foi hora nenhuma e em nenhum governo. Espero que não fique inviável trabalhar com cultura, mas não tenho nenhuma esperança de tempos melhores. No âmbito estadual a governadora eleita gosta de cultura, tomara que ela equilibre esse jogo, porque a classe artistítica vai precisar!

Hurtmold deve ser a cereja do bolo nessa edição do festival. O que vocês destacam além deles que o público não deve perder?

Ana: Ahahahaa, já sei que temos um fã do Hurtmold aqui. Eu diria que o Hurtmold é uma das cerejas de um bolo de cereja, sabe? Porque mesmo artistas mais conhecidos como eles e Metá Metá, Céu, Letrux, Carne Doce, Rashid, existe tanta coisa interessante nesse line, mas tanta… Eu acho que é um dos nossos lines mais interessantes, sabia? Eu estou absolutamente enlouquecida pelo Edgar. Acho um dos artistas mais inventivos que temos no Brasil hoje em dia. E seguindo a linha rap o Sinta a Liga Crew e o Velocicrew vem com tudo. Temos as bandas roqueiras que tão prometendo shows daquele jeito como o Molho Negro, o Pense, o Merdada e o Facada, mas temos também bandas que pouca gente conhece na cidade como o Trombone de Frutas e Lumen Craft que acho que vão surpreender. Temos artistas muito novos locais como Bex, Demônia, Luaz, Eliano e tem uma Potyguara Bardo que já dispensa apresentações. Temos heróis locais como Plutão, Luísa, Talma&Gadelha e temos queridinhos indies como Bratislava, Baleia, E a terra… ah tem coisa demais. Eu sendo público, chegava cedo e ficava de boa. Vamos ter conforto, bebidas legais, comidas maravilhosas e a brisa do mar acompanhando todos esses shows incríveis com ingresso a r$ 30 o dia. Quer mais o que?

Foca: Vinte anos, nunca vieram aqui, eu nem acreditei quando fechamos. O lineup do DoSol é aquela esquizofrenia que vocês do Inimigo já conhecem bem, inclusive arregaram do famigerado banda a banda engraçadíssimo que sempre rolava. Se eu fosse escolher shows para ver pessoalmente não perderia o Edgar por NADA. Esse é top. Damn Youth é outro show que não perderia. A primeira vez da Letrux vai ser doido. Metá Metá e a melhor cantora do Brasil na atualidade, a Juçara Marçal. O Tropix da céu. Vamos combinar, esse line tá bem fino, a festa vai ser bonita. Vamos aproveitar enquanto ainda temos festival para ir, nunca se sabe do dia de amanhã no Brasil 2018.

Foto: Rafael Passos