Festival DoSol 2018: Seja Jovem

por em terça-feira, 4 dezembro 2018 em

LinkedIn

FEIRA DA FRUTA

Segundo ano na praia e a ideia de começar ainda de manhã não rolou. Ficou para o ano que vem. Oremos. Problema que ano que vem é o ano que todo mundo já sabe: começo de governo do projeto de Hitler tropical e ninguém sabe o que vem pela frente, além de desgraça. Fato é que o formato foi o mesmo do ano passado em relação a palcos e atrações, privilegiando a tendência nacional de bandas/artistas mais sacolejantes. Gostamos. Mas sem esquecer o peso para fazer os roqueiros botar shortinhos de putaria e aproveitar a brisa (que mesmo assim não aliviou o calor que se abate sobre Natal) e o visual do mar. Comes e bebes nos conformes, banheiros com quantidade aumentada no segundo dia e alguns problemas pontuais na sonorização dos palcos – principalmente o DoSol Sessions – fizeram parte. Outro porém ficou na entrada do sábado, Eliano já tocava e o público ainda não podia entrar. Perdemos parte do show.

SEU PAI E SUA MÃE VESTIDOS PRO BAILE DOS ENXUTOS

O sábado é o dia de se jogar, tomar todas, fumar cigarros indígenas e ingerir outras substâncias suspeitas pra segurar a onda do baile dançante. Destaque para a local Skarimbó com metaleira e show redondo animando geral. Bem mais cedo Eliano abriu os trabalhos pra pouca gente em um show pop bem acabado. A Acruviana se destacou no mesmo palco, o Arena Oi, com muita gente no palco e animação na mesma proporção. O público foi junto e é uma banda pop a se prestar atenção no futuro. Andróide Sem Par, com formação paulista e sonoridade diferente da conhecida, também foi elogiada. Mas mister Joaquim Dantas não se rendeu. Angela Castro e sua banda Buena Onda fizeram uns desavisados balançarem com sua malemolência tropical, com músicas advindas de seu disco de estreia lançado nesse ano. A banda (mais uma dobradinha Zé Caxangá + Gabriel Souto, com o reforço do virtuose Silvio Franco) está afiada e Angela tem forte presença de palco, combinação que não dá margem pra erro nunca. Céu é difícil até falar. Uma carreira já consagrada, bons discos lançados, boa voz, boas letras, boa banda… Tudo redondinho igual a barriga dela, fruto da união com Pupillo, que comandava a bateria próximo a beira do palco e de lado, com uma sutileza que deixou muita gente boaquiaberta. O entrosamento e versatilidade da banda eram um espetáculo à parte. Mesmo quem já tava mais pra lá do que pra cá às 2h da manhã no Beach Club conseguiu segurar a onda em nome da vagarosa caravana. Céu desfilou hits com maestria e domínio, só aumentando o calor de quem se dispôs a dançar. Metá Metá foi uma “surpresa” sensacional. Agitou dos mais céticos roqueiros aos mais entregues sincretistas religiosos, com um setlist robusto e cheio de emoção. Que peso, que presença, que baterista. A Mariá Portugal se destacou tendo a sua frente Kiko, Juçara e Thiago. Incrível. Uma bateria percussiva que dava movimento ao sax, voz e guitarra do trio de frente. Juçara e sua voz produziam o peso da ancestralidade mais necessária a cada dia. É preciso se mostrar, cantar, dialogar, se impor. Hurtmold fez um show para iniciados, um belo show. Com versões lado B de diversas músicas de seus discos, foi um recital de empenos pra lá e pra cá, como se testassem até onde uma mesma música pode sincopar e entortar mais. SUCESSOS pontuais da carreira, como “chuva negra”, surgiram de surpresa no meio do experimento. Mas quem não acompanha a carreira deles e não curte música instrumental e experimental ficou meio perdido. Mesmo assim quem se dispôs a conhecer a banda depois de 20 anos de atividade teve uma experiência ótima com tantas influências em uma única banda. Math Rock, hardcore, jazz… Vale citar a Nação Zambêracatu que se apresentou logo cedo mostrando sua preservação e difusão da cultura negra. Maestro, percussionistas e vocalistas fizeram o palco Red Bull Music se tornar um terreiro a contemplar seus deuses. Correndo por fora Jéssica Caitano se revelou uma vocalista acima da média. Vinda do interior de Pernambuco ofuscou e encantou na mesmo medida. Ofuscou bandas e encantou o público. Ela com apoio de Chico Correia e suas rimas passeando na mistura do rap com coco. No sábado, o bonde paraibano da Sinta a Liga Crew tremeu as bases no palco Red Bull Music. Minas mandando versos contundentes como metralhadoras, com muita força e potência para empoderar outras minas. Show forte e instigante que surpreendeu a muitos. Rashid também impressionou os fãs de rap menos ou mais ortodoxos: fez um show digno de arena e não permitiu concessões com seus hits executados com fineza. No domingo, a carioca Letrux fez um rito de comunhão entre os povos no palco principal. Já com público ganho e estreando seu show em terras natalenses, a carioca arrebatou a todos com seus hits oitentistas e sua decadência carioca, com direito a participação de Salma Jô (Carne Doce) e promessa de retorno em janeiro.

ROBIN, VOCÊ AINDA É UMA CRIANÇA

As bandas novas (aí cabe na idade dos integrantes, na existência da banda e no conhecimento do público) não foram aprovadas no geral. Yanna alertou no sábado para a Lupa, de Brasília. Não pela qualidade, mas pela falta dela. Fato é que muita gente gostou do show e permaneceu até o fim na frente do palco. Um show performático pop. Demonia mais uma vez fez um belo show e fez o idoso Inimigo se sentir mais velho quando Karina falou da lenda urbana do bebê do Midway, que inspira uma música da banda, e que os mais jovens provavelmente não conhecem. Karina deve ter uns 25 anos. Energia é a tradução para o show das meninas. A local Ardu veio com bateria e percussão além dos beats, baixo e guitarra característicos. Se desentrosaram em alguns momentos que para o público deve ter passado batido. Outra a se observar a evolução. Bex já se destaca faz tempo, com um som que passeia pelo jazz. Também tocou com banda, o que encorpa as músicas. Mesmo com pouco tempo de atuação, a banda já demonstra liga e vira uma luxuosa presença para os improvisos da jovem Rebeca Gibson. Luaz já se mostrou pronta e desde o ano passado apontamos uma possível carreira solo da Luana ainda no Seu Ninguém. Ator Morto, Taunting Glaciers e Acidental não passaram no ponto de corte.

QUEM É O MACONHERO AÍ, HEIN?

Edgar, E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Catavento, Baleia e Carne Doce fizeram a cabeça de quem queria algo mais da música. Lombra pra viajar parado ou na malemolência da batida do pé e vá lá um suingue de palmeira. Se EATNMPTD prima por uma viagem transcendental, Catavento e Baleia fizeram o suingue tímido aparecer. Já Carne Doce mandou seu disco que ganha força ao vivo e além da viagem explora o lado da sensualidade e sexualidade. A experiência sensorial estimulada por Salma Jô e sua trupe é um misto de show de diva pop e cerimônia de cura e libertação; a vocalista e frontwoman domina o palco e a platéia desde os primeiros segundos, fazendo sua voz reverberar até o pontal da praia, impulsionada pelas competentes camadas de guitarras, baixos e baterias que a acompanham. A participação de Letícia Novaes aka Letrux para dividir os vocais em “Falo” foi um mergulho profundíssimo na lombra. Um show acachapante. O paulista Edgar foi a estrela do evento. Performático e singular, a figura do rapper era diferente de tudo que havia não só no evento, mas no cenário brasileiro num geral. No palco Arena OI, com dois djs, totalmente a vontade com uma máscara que o transformava em um Orixá, com luvas rosas e uma renda branca que o próprio Edgar confeccionara a partir de um retalho que achara na praia mais cedo, explorou seu disco Ultrassom e deixou muita gente perplecta. Caso de Breno da Galactic Gulag e Tádzio França, repórter e Dj. O hit “Print” ainda ecoa e a desgraça do dia a dia que abrange violência, política, relações pessoais e profissionais passam por suas músicas. “O amor está preso numa camisa de força, a realidade está presa numa camisa de força”.

VOU TE COLOCAR NUM COLÉGIO INTERNO

O rock sarado perdeu seu espaço? Bem, digamos que não existe mais um dia só pra ele. Mas estavam lá segurando a bandeira os comediantes do Merdada (com visível desentrosamento), o Facada com um muro sonoro digno de um direto de Muhammad Ali, a viagem da local Galactic Gulag que mistura peso e psicodelia numa medida a fazer qualquer usuário de entorpecentes pedir mais um pouco. Molho Negro repetiu o show no chão (João lemos, vocal/guitarra na verdade) com público ao redor. No show da Pense, que fez a cabeça da juventude Emo, teve até pedido de casamento! Aceito. Ufa. Joseph Little Drop É contrapeso ao rock sarado. Apesar de ser punk, usa do humor pra manter um público fiel. Merecem um horário mais nobre nos próximos eventos. A Lo-Fi mais uma vez tocou cedo e não contaram conversa pra descer a mão e agradar o público tímido que chegava ao evento. Mesma coisa com a Mad Grinder na imensidão do palco Red Bull. O trio mossoroense trouxe o peso e a poeira para a beira-mar mandando uma pancada atrás da outra com seu grunge. Não vimos nenhuma maluco naquele calor com uma camisa de flanela.

ESSA JUVENTUDE DE HOJE ESTÁ MUITO MUDADA

Não que todo mundo tenha que ser porraloca. Mas o público de Plutão Já Foi Planeta e Talma & Gadelha preza mais pela água e sutilezas do amor. Owti que fofo. Tocam e sempre emocionam os presentes. Já a Orquestra Greiosa estava naquela pegada “tô tocando no quintal de casa pros chegados”. Só fuleiragem como se já fosse carnaval. Detalhe pra versão de Buraka Som Sistema. Gostamos, mas botem mais peso, por favor. Do lado contrário a juventude que acompanha Luisa e Os Alquimistas presa por birita e cigarros artesanais pra embalar a lombra mezzo nortista, mezzo jamaicana. Todas jogaram com estádio lotado e jogadores só nos passos de primeira e aqui e ali um de letra pra impressionar.

MERDA DE BATCAVERNA

Se ano passado pairava a desconfiança, esse ano era a certeza da qualidade. Teve gente reclamando dos arrombamentos de carro, da grama da descida da ladeira que foi dizimada, do piso liso no palco Arena Oi que deslizava mais que confeito em boca de banguelo, da acessibilidade do evento e de um bicicletário. Todos os pontos devem ser analisados para a melhoria sempre.

É SIMPLES, COMISSÁRIO. ESSA FITA MOSTRA TUDO

As fotos e vídeos já estão rolando soltas aí nas redes e o sucesso foi atestado. Tanto que a produção já lançou o Pôr do Som que vai animar três domingos de Janeiro com atrações nordestinas e mais Letrux. Jéssica Caitano também volta. Os shows acontecerão na praia de Pirangi do Norte na Arena Ecomax.

*Títulos retirados de Feira da Fruta (procure saber)

Fotos: Felipe Alecrim