O Festival Bananada é uma cabeça que sonha música

por em sábado, 20 maio 2017 em

bananada ariel martini
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Caminhando para sua vigésima edição, localizado bem no ponto histórico onde o underground e o mainstream começaram a se mesclar na cena musical brasileira, o Festival Bananada é o maior resumo do que acontece na música brasileira no ano. Se você quer entender as mutações, as novidades, as surpresas e as confirmações desse grande panteão que chamamos de “cena”, vá a Goiânia em maio e se perca entre os palcos no grande pátio do Centro Cultural Oscar Niemeyer. É por lá que nomes como Raça, Hierofante Púrpura, Luiza Lian, Teto Preto, E a terra nunca me pareceu tão distante, Rakta, Brvnks, Ventre, Baiana System e mais uma pá de coisas sinistras produzem experiências estéticas que exibem a prodigalidade das sonoridades do Brasil. Por uma semana, Goiânia vira uma cidade onírica, tomada por gente estranha e descolada, como um sonho gigante sonhado por sabe-se lá que mente fortuita.

Concentrado em um final de semana onde recebe os maiores nomes de seu line-up em palcos grandiosos, o Festival também acontece pelas casas de show e teatros da capital goiana, organizados por selos e pubs parceiros. Por esses showcases, bandas como My Magical Glowing Lens (ES), Supervão (RS), Black Drawing Chalks (GO), Ombu (SP), Clearence (EUA), Síntese (SP), Miêta (MG) e algumas várias mostram apresentações mais livres da inevitável correria do festival, em ambientes intimistas e charmosos pela cidade. E é em alguns desses que o melhor do Bananada surge (falaremos mais adiante).

Já nos três dias principais, o que mais chama atenção no Bananada é a produção adversa aos contratempos: da escolha dos artistas (divididos entre quatro palcos – os palcos Chilli Beans e Skol, onde os headliners se revezam; o Palco Spotify, com curadoria do Mancha, da Casa do Mancha (SP) e o Palco Slap, que após as 23h vira o Palco El Club, recebendo nomes do novo rock/pop e da música eletrônica, respectivamente), a localização dos bares (fileiras de uns bons metros de stand onde se poderia pegar cerveja a caminho de qualquer palco), o tamanho do ambiente, a sequência da programação, até as redes dispostas num gramado (sim), é tudo pensado para que aporte ali algo novo, o inesperado, a surpresa – mas só sobre os palcos.

Após essa introdução para invejar aqueles que perderam esse rolé, é lícito listar aquilo de mais assombroso e inatacável do Bananada: um punhado de shows tão bons que provavelmente nunca se repetirão. Seguem:

E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante + Ventre

No dia em que cheguei a Goiânia, o evento mais disputado era a anunciada sequência dessas bandas de SP e RJ, num dos vários showcases da semana. A programação divulgava que seriam apresentações comuns: uma banda tocaria e a outra sucedia. Mas não era isso (só depois fiquei sabendo que corrigiram nos veículos de informação, mas eu passei batido). O que aconteceu foi uma disposição de 3 (às vezes 4) guitarras, dois baixos, duas baterias e um sintetizador no palco de chão do Sesc Centro de Goiânia. Provavelmente não fui o único a me surpreender deverasmente com os petardos – as duas baterias violentas, por Rafael Jonke e Larissa Conforto, ensaiadas com a precisão de um exército em marcha, ribombavam pelo ambiente do teatro como uma artilharia. O repertório intercalava músicas de ambas as bandas com arranjos mais suntuosos: as músicas do EATNMPTD ganharam mais VOLÚPIA; as do Ventre mais intensidade, mais detalhes. De longe, foi a melhor coisa que passou por Goiânia nessa semana de maio.

Luiza Lian

Ancorada em um vestido branco composto de fibras de plástico, rodeada por tapetes de plástico transparente que desciam do teto, acompanhada apenas por seu DJ e beatmaker Charles Tixier, a paulista Luiza Lian parecia uma entidade ou uma assombração no Palco Spotify. Aquele que para muitos foi o melhor show do festival era ao mesmo tempo cerimônia religiosa e show de diva pop. Entre esses dois lugares icônicos, Luiza Lian ainda anunciou seu merch vanguardista, composto por um vestido com a logo de seu disco (Oyá Tempo, lançado faz menos de um mês, ouçam logo!), um colar com a mesma logo, um cartaz do disco, e também anunciou seu álbum visual, que está completo no Youtube. Era isso. Luiza Lian não está aqui a passeio.

Teto Preto

Advindos da cena eletrônica de SP, o Teto Preto ficou mais conhecido pelo clipe político de “Gasolina”, seu hit estranho e underground. Ao vivo, a vocalista Angela Carneosso tocou nua, apenas com uma roupa dourada como uma ornamentação de carnaval. Sem puritanismo, sem desvios. Envolta em um casaco luminoso dourado, Carneosso tocava percussão, recitava poemas de Roberto Piva, cantava como só Astrud Gilberto e crooners da bossa nova faziam. A dupla de DJs L___cio e Zopelar e o percussionista Bica completavam o quarteto, que sustentou sua apresentação em várias músicas quase sem transição, sem parar. Tipo um incêndio (gasolina neles!).

JP Cardoso

Último bastião do indie rock, o jovem JP Cardoso lançou Submarine Dreams em agosto do ano passado e fez sua primeira turnê fora do circuito BH/SP nessa viagem ao Centro Oeste. Secundado por uma banda que tem Mancha (da Casa do Mancha) na bateria, e Diogo Valentino (ex-Supercordas) no baixo, JP ao vivo é mais enérgico e psicodélico que em seu disco (também com a mesma energia e psicodelia, mas com um tantinho menos). Quem ouvir lembrará de tudo aquilo que passou pelo indie desse começo de anos 10, de Alex Turner a Tame Impala e Unknown Mortal Orchestra. É a mensagem desse novo ENFANT TERRIBLE. Prestem atenção.

Hierofante Púrpura

Longe das referências mais óbvias de psicodelia, o Hierofante Púrpura tocou em noite inspirada do tecladista e vocalista Danilo. A banda, empenada e empenante, é um primor de estranheza que faria Arnaldo Baptista se emocionar. A manifesta inquietude de Danilo ainda era uma atração à parte, em meio a toda a ACIDEZ dos compassos estranhos e herméticos dos arranjos.

Boogarins

Embora seja sua terra natal, o Boogarins aterrissa em Goiânia pouquíssimas vezes em um ano. Andando o mundo de uma ponta a outra, reencontrar a terra natal em dia de festa é um evento e tanto. Não por acaso, dentre os tantos shows que vi dos goianos, esse foi o mais redondo e visceral – sem se perder em jams de 10min a cada música, os improvisos pareceram bem mais naturais e cadenciados. A apresentação durou 1h30 na totalidade e posso perceber que mal cansou a plateia. Com versões inspiradas de “Benzin”, “Infinu” e “Doce”, rolou uma fileira de hits que deu pra descontar a distância permanente com louvor.

Luziluzia / Ultravespa

Como é data festiva e quase o carnaval de Goiânia, os Boogarins se desmembraram em seus projetos paralelos que ficam parados durante a agenda tumultuada do quarteto. O Luziluzia é um combo formado por Benke e Raphael (Boogarins) e João Victor e Ricardo (Carne Doce), juntando as cozinhas e salas de edição das duas principais bandas da capital do Goiás. A psicodelia do Luziluzia é bem mais SOLAR que a tempestade caótica do Boogarins. Já a outra face paralela do Boogarins é o Ultravespa, com o vocalista Dinho responsabilizado por dar voz a uma imersão de rocks cinquentistas e setentistas psicodélicos. Urgente e dançante, o Ultravespa tem até música nova depois de 10 anos de banda. Ambas as bandas são duas viagens especiais (atentem).

Baiana System

Não há grave mais impressionante e parede sonora mais violenta que a do Baiana System nesse país. Russo Passapusso não deixa a intensidade cair por um segundo sequer, e o circuito Barra Ondina e Pelô se instala em qualquer lugar do Brasil enquanto o Baiana System estiver na casa. A swinguera extrema exime todo e qualquer cidadão da passividade, como se fosse uma epidemia – é quase impossível ser indiferente a celebração do baianismo dessa galera. Melhor show não só do Bananada, mas talvez de uma banda brasileira em atividade.

Rakta

Às 18h, quando os espíritos começam a se apossar da noite, o trio Rakta subiu no Palco Skol sob uma cortina de luz vermelha que durou o show inteiro. Mais uma vez invocando bruxaria e maldição, as três minas conseguem emular ao mesmo tempo as três Parcas, as três Graças e as bruxas do Sabá – ioga negativa, expedição ao inconsciente, esconjuro.

Céu

Show mais disputado da sexta, Céu já está no posto de grande da MPB faz uns três discos. Mas é com esse Tropix que ela conseguiu aliar minimalismo e magnificência – faz de uma banda mínima uma verdadeira orquestra pra ocupar um palco gigante. A platéia estava totalmente rendida (provavelmente mais da metade das 10000 pessoas por ali deviam estar lá para vê-la). Enfileirando seus hits e intercalando Fora Temer’s, a cantora imprimiu sua classe num show poderoso.

Raça

A bordo do sucesso de Saboroso (2016), o Raça fez sua primeira apresentação fora de São Paulo. A impressão deixada é que a banda funciona mais ainda ao vivo: guitarras limpas e equilibradas, um synth que passeia pelas canções, o carisma e FOFURA do vocalista Popoto Martins, a suavidade dos arranjos. O Raça se porta como uma banda que já leva uns 10 anos de estrada, mas no corpo de uma banda adolescente, em um início tímido. É uma visita aos 90’s de modo sutil, vagaroso.

***

No mais, cabe frisar a maciça participação feminina nos palcos e atrás deles: as mulheres cada vez mais se empoderam e tomam espaço nessa cena brasileira. Mais bandas se formam com minas, mais selos capitaneados por elas, mais delas na organização dos eventos. Cabe também mencionar, como falamos em mulheres, do propalado show da Carne Doce, que perdi por puro e completo vacilo, mas que soube que foi inspirado e, para muitos, melhor do festival. Por fim, resta esperar a vigésima edição do Bananada, com a ascendência e competência que fazem sua justa fama.

Foto: Ariel Martini