Facção Amada explora de forma delicada pontos cruciais da sociedade atual

por em terça-feira, 10 abril 2018 em

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Dois erros surgiram de cara com o nome Facção Amada. O primeiro que li Facção Armada. O segundo que achava que era uma banda hardcore ou punk, pela leitura errada. Passados os erros a audição se mostrou interessante partindo do ponto de vista que a banda trata em Resistir, seu EP de estreia, de temas bastante discutidos atualmente em torno da política e do social. Mas a sonoridade está mais para MPB com arranjos mais elaborados e sem presença de instrumentos percussivos. O que não faz falta.

Batemos um papo com João Arantes (vocais e violões) sobre o EP, as composições e o que permeia a banda. Ainda fazem parte da banda Vinícius Romano (vocais e violões), Rogel Junior (vocais, piano, teclados e escaleta) e Sarah Arcanjo (vocais). Também participaram do EP Pedro Costa (trompetes e flugel)e Fourlan Nogueira (efeitos sonoros e colagens).

Ouça o disco ao fim da entrevista.

O que chamou atenção primeiro foi a, digamos, erudição das composições. Até sem elementos percussivos, o que dá uma cara mais intimista. Como foi chegar nessa formatação? Era uma ideia desde o começo?

Sim, cara. A banda toda teve projetos paralelos, todos seguindo um mesmo padrão de bateria, contrabaixo, guitarra, guitarra e voz… A gente tava cansado desse padrão e resolveu dar uma mudada. No fim, acabamos nos sentindo mais próximos do ouvinte. Sem precisar de um volume ou peso maior. Além disso, o grupo conta com dois músicos que cursam o conservatório de Tatuí, um terminou e é maestro (Rogel Jr) e a Sarah faz piano. Já eu e o Vinícius fomos a vida todo do popular, era a oportunidade de sermos ousados quanto a isso. (risos)

No release vocês falam de questões sociais muito importantes e debatidas atualmente. Nas letras não fica tão explícito isso. Mas creio que até pelo formato musical ficaria destoante uma abordagem mais agressiva como outros artistas. Vocês vivem essa realidade de perto onde moram?

Bom, a pessoa que mais contribuiu com a maior parte das composições (Vinícius Romano) reside em Curitiba, acho que isso resume muito, mas em contrapartida nós todos somos sensíveis a essas causas. O próprio EP, era anteriormente um single com a faixa “Resistir”, cuja a qual escrevemos após aquela palhaçada na câmara dos deputados votando para o impeachment. Aquilo nos revoltou tanto, ver o deboche e o desrespeito com o cidadão que desencadeou uma série de composições. A realidade mesmo que acompanhada pela tv, ainda traz indignação. Somos brasileiros indignados, como toda a nação. Sobre a abordagem das letras, é muito por aí, escrevemos para quem quer entender e para quem não quer entender também. Geralmente escutamos músicas de protesto com tons mais agressivos tanto na escrita como musicalmente, optamos por ser sutis, mas sabemos quais são os alvos.

Duas canções parecem dividir o EP e os nomes indicam isso. “Prelúdio” e “Interlúdio”. Que funcionam quase como vinhetas, ou passagens. Quando da feitura do disco isso já foi pensado antes ou surgiu durante o processo?

Foi. A intenção era justamente essa. Separar o EP. A faixa “Prelúdio”, vem como uma anunciação. A faixa “Interlúdio” traz toda a dramatização que o nosso país vive, um momento tenso, conturbado, de muita impunidade e tristeza para nós. No fim, trazemos a “Coda” com várias dicas do porquê de cada música. É um disco cíclico e sim, de caso pensado, nos deram muito pra pensar desde 2013.

Quase uma peça teatral ou a trilha de uma peça. A “Coda” encerra de forma a escancarar tudo.

Exato, a princípio essa magia teatral não estava sequer em pauta, mas tudo acabou tomando uma proporção maior e quando vimos isso já estava acontecendo. Quando tocamos, tocamos o EP do início ao fim, sem interrupções, pois as harmonias seguem seu propósito. Até a impressora (na música Impresso), foi pensada. (risos) Deu trabalho, mas quando vimos a ideia pronta, executada pelo Fourlan, foi como se não tivesse mais volta. O Rogel também veio com as peças certas de encaixe para que tudo ocorresse de maneira suave. “Interlúdio” é um coelho que ele tirou da cartola.

Como foi o processo de composição? Você falou em Curitiba, Tatuí e também tem Itapeva. Foi a distância ou todo mundo junto?

Essa é uma parte que me toca mesmo, cara. Geralmente temos 20, 30 dias juntos. A “Resistir” é uma canção que escrevemos juntos, fizemos a harmonia juntos e foi um dia muito especial pra gente. A gravamos e mesmo assim nos sentimos incompletos. Esperamos 6 meses para nós encontrarmos novamente e estávamos com planos de escrever mais, aí veio a ideia da “Impresso” que é uma música que já tínhamos há um tempinho (eu e Vinícius), resolvemos regrava-la com a Sarah e daí sairia apenas um single com “Resistir” e “Impresso”, mas aí o Vinícius veio com “Dandara” e “Urgente”. Aquilo nos impressionou e resolvemos gravá-las. No dia seguinte, o Rogel nos apresentou as quebras, e de repente vimos um single virar um EP com 7 faixas. Mesmo que distantes, sempre nos falamos muito, isso ajuda demais também, pois quando nos encontramos as coisas são resolvidas de maneira rápida e eficaz.

E como são os planos de botar esse disco pra circular com show?

Estamos aos poucos desenvolvendo os planos, inicialmente não sabíamos nem se iríamos nos apresentar, era simplesmente um EP, mas ao terminarmos “Dandara”, vimos muita luz e hoje pensamos em começar um outro EP em julho. Vamos nos unir, gravar e tocar. Ano passado nos apresentamos mesmo que incompletos no auditório da UFPR de Comunicações e na Feira de Profissões. Fizemos um show aqui, em Itapeva, nossa terra natal e o plano é começar o trabalho de shows em Curitiba e Tatuí. Vamos ver o que o futuro nos reserva.