Exército de um indie só

por em sábado, 26 dezembro 2009 em

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Há quem o aponte como uma das novas promessas da cena independente. Parte da crítica gosta, a outra ignora solenemente. Muita gente nunca ouviu falar dele. Ainda. Aos 25 anos, Lê Almeida já escreveu e gravou mais canções nos últimos quatro anos do que supõe o ouvido destreinado para a produção subterrânea. Seja engrossando as fileiras de alguma banda que assole as noites da Baixada Fluminense, capitaneando o selo Transfusão Noise Records ou nos curiosos compactos e EPs que levam seu nome na capa  (gravados em esquema caseiro, com Lê tocando todos os instrumentos), a verdade é que Lê Almeida tem chamado atenção , ao menos onde é notado.  Dia desses, Marcelo Costa, editor do site Scream&Yell escreveu que as canções de REVI, EP mais recente do artista, “grudam na pele como a marca do primeiro amor”. Para tentar descobrir o que essas e outras frases marcantes querem dizer, chamamos o próprio Lê Almeida para um bate-papo, no qual ele passa a limpo seu currículo de indie de carteirinha e tece discretos comentários sobre a tal “cena indie” carioca.

[O INIMIGO]: Fala um pouco do teu começo como músico. A estreia foi com o Coloração Desbotada não foi? Conte-nos suas origens…

[LÊ ALMEIDA]: Meu começo foi como baterista, mas sempre fui muito inspirado a tocar outros instrumentos de um modo autodidata. Cantar foi mais uma questão do acaso pois nunca encontrei alguém que podesse cantar as canções que eu fazia. Eu já me interessava por gravações ainda quando eu tocava bateria em algumas bandas aqui da região (Siameses, Rosemary Skin e Tratamento Experimental) mais eu só evolui mesmo essa minha fascinação quando decidi formar a Coloração Desbotada que seria o meu projeto para gravações onde eu tocaria tudo sozinho. Isso foi em 2004, em fita K7 gravando com um duplo deck. Logo em seguida eu passei a usar o PC, plugando um daqueles microfones brancos de PC que ninguém usa na entrada do microfone e gravando! O 1° EP da Coloração foi todo feito dessa forma e acabou também sendo o começo da Transfusão Noise Records. Daí pra frente eu fui me aprofundando mais nas gravações e hoje além da Coloração e do meu lance sozinho eu também toco nas bandas Tape Rec , The Fashion Our Club,  Uma Nova Orquídea em Meu Jardim Alucinógeno e Babe Florida. E ainda toco bateria na Carpete Florido.

O acúmulo de atividades não interfere na qualidade da produção? Ás vezes dá uma estafa criativa ou você consegue separar bem cada uma das bandas?

Pois é, recentemente eu tive uma crise de não conseguir fazer nada novo no violão, mas passou rápido e passei a me concentrar em pequenos roques. Fiz uma longa sessão de bateria gravando um lado e meio de uma fita K7 só de bateria e agora estou gravando umas coisas em cima disso. Dar pra separar na boa pois são várias pessoas envolvidas em várias bandas e projetos. O Babe Florida por exemplo é formado por canções de variadas pessoas. Quase todos dão palpites.

As tuas letras geralmente partem de situações cotidianas e sempre poem a sinceridade em primeiro plano. Você costuma compor usando um personagem ou aquilo que a gente ouve é o Lê Almeida mesmo?

Sou eu sim, pode acreditar. Lá pra 2006 eu comprava muita bala Halls quando eu ia namorar, sempre fui muito fixado em andar de bike e desde os 16 eu acho a Kim Deal um ser divino. A fase dos meus 22 anos foi curtição pura, eu quase nunca durmo como as pessoas normais…. e por aí vai. Nem tudo é extremamente verídico envolvendo a minha pessoa, mas no geral envolve sempre os meus bons amigos também.

Por que lançar o REVI também em vinil? Como foi o contato com o selo Vinyl Land?

Ter lançado o REVI em vinil 7’’ foi algo bem surreal pois sempre foi um sonho meu ter algo em vinil e concretizar isso de uma forma tão legal como está sendo com a Vinyl Land é mágico. O Luiz Valente que é o cara por trás da VL deu uma entrevista no começo do ano pro pessoal do [blog] Last Splash e eles colocaram alguns trechos de canções minhas como trilha do vídeo. A partir daí surgiu o meu contato com o Luiz, que ficou interessado. O disquinho saiu em outubro e vai indo muito bem, além de ser distribuído no Brasil também está disponível em Londres e EUA.

Você tem notícias da repercussão do disco pelos lados de lá?

Ainda não, mas sempre adiciono alguém no myspace de lá de fora que elogia o vinil. Alguns até mesmo querem comprar. Só vou saber mesmo da repercussão por lá quando o Luiz retornar pra terrinha e mandar noticias.

Ainda falando no bolachão, o que você acha dessa história da DeckDisc comprar a Polysom para tentar “reviver” o vinil no Brasil e da Sony relançar o Da Lama Ao Caos em edição especial custando R$ 80?  O vinil pode mesmo voltar ou isso uma jogada desesperada das gravadoras para tentar sair do buraco?

Eu acho que o vinil pode crescer bem mais do que já está crescendo. De 2008 pra 2009 teve uma grande subida, mas ainda sim eu acho bem difícil o vinil voltar a ser uma coisas forte como foi antes aqui no Brasil. A Polysom abrindo novamente as portas é um grande avanço pro povo que quer prensar vinil e não tem opção. Já fiquei sabendo que eles vão abrir espaço pra selos prensarem seus discos. Tomara que não seja uma coisa somente visando grana, né? Hoje em dia eu acho muito bom o afundamento das gravadoras e o crescimento dos selos independentes. Se não fosse os selos, muita gente estaria de cara num empreguinho qualquer e lançar um disco seria uma coisa inacessível.

O modo de gravação lo-fi é uma opção estética ou uma necessidade?

No momento são as duas coisas, pois de fato eu não tenho a devida condição pra gravar de um modo mais limpo e cristalino e até agora não vejo pronto para isso. Mas não descarto a opção de curtir uma onda estéreo.

Essa onda estéreo poderia ser curtida numa grande gravadora?

Depende muito. Eu jamais me entregaria nas mãos de um produtor bundão. Pra entrar nessa onda mais limpa não precisaria exclusivamente de uma grande gravadora e sim de grana. Se por acaso eu entrasse pra um meio como esse eu teria que levar a minha gangue. Acho que só uma gravadora como a Matador me daria satisfação total, mas aí já é meio sonho.

A maioria das bandas  do RJ que chegam até aqui, em geral pecam pela falta de personalidade e, sejamos sincero, de bom gosto mesmo.  Como anda a tal cena por aí, se é que ela existe?

No Momento por aqui existe uma cena de bandas legais tocando o que eu chamo de “roque de guitarra”. Entre elas, o Carpete Florido, Sofia Pop, The John Candy, A Cidade de Duque de Caxias, Fujimo, Arco Voltaico, Electric Lo-fi Orchestra e por ai vai. Eu acho que aqui no Rio já foi ruim de banda, mas hoje em dia o pessoal ta bem agitado. A maioria só peca no fato de ser bem acomodado na hora de gravar, mas o apoio dos pequenos selos vai mudar isso aos poucos.

Essas tais bandas do RJ que aparecem por aqui geralmente chegam via festivais. O que você acha desse circuito da Abrafin e do trabalho dos “coletivos”, como o Fora do Eixo? É a maneira mais eficiente de fazer a cena  se movimentar?

Eu acho que é o modo correto de fazer a cena se movimentar. Na verdade, as cenas se movimentarem. O único porém é que é bem difícil conseguir tocar nesses festivais, mas é muito bom saber que tem gente abrindo portas.

Mas os festivais são eventos pontuais, que só acontecem uma vez ao ano. Sem falar que o tempo reservado para cada banda em geral é curto. Um circuito que priorizasse excursões por casas de show pelo Brasil afora não seria mais eficiente para “abrir as portas”?

Lógico, mais acho que está cada vez mais raro encontrar lugares perdidos por ai que sejam mesmo casas pra shows de roque. Pelo menos no Rio está assim, os shows mais roqueiros mesmo são aqueles que a gente acaba se envolvendo na produção. As excursões seriam muito válidas além dos festivais também, basta estar no caminho certo fazendo shows e contatos mundo afora.

Falando agora como um cara que está a frente de um selo, como você vê a questão do disco entre os indies brasileiros hoje? Pergunto isso principalmente porque quase ninguém mais lança albuns, só EPs de quatro ou cinco faixas e quase sempre virtualmente…

Eu sou totalmente a favor do formato EP, não é a toa que a maioria dos lançamentos da Transfusão são em EPs. Além dos custos serem menores, na hora de ouvir, a pessoa menos envolvida com a banda tem a chance de gravar na cabeça as canções com mais facilidade. Eu acho que um disco cheio só é válido se for lançado em formatos com um diferencial ou então algo que seja artesanal e conquiste, como o vinil. O Firefriend por exemplo lançou no fim do ano passado um vinil 12’’  e o disco ficou uma coisa impecável, você sente vontade de possuir aquilo – pelo menos eu senti- por todos os detalhes.

Mas ainda vale a pena investir grana nisso? Ou é puro romantismo?

Eu acho que vale muito a pena, na Transfusão os disquinhos são bem artesanais e se assemelham ao formato do vinil com encarte em alguns deles e uma capinha branca por dentro pra proteger o cd, coisa humana assim eu acho que ainda vale muito a pena pois as pessoas gostam de ter uma coisa que as apeguem e sintam algo além do prazer de ouvir a música.

Dentro do mercado independente existe uma segmentação entre selos  majors (Monstro, mmadness, Senhor F) e os undergrounds (Transfusão Noise, Läjä, Pisces, Peligro/Open Field)? Isso prejudica a circulação das bandas?

Sempre existiu essa segmentação, mas eu não acho uma coisa ruim não, pelo contrário. Um selo não passa a ser um major a toa, eles trabalham muito por isso. E os [selos] underground estão fazendo sua parte, alguns até querem ser underground pro resto da vida, mas a maioria quer ficar mais esperta e crescida. Esse é o caso da Transfusão: estamos trabalhando e um dia a gente chega lá.

Vídeo: “Nunca Nunca”, de Lê Almeida