Entrevistão: The Cigarettes

por em quinta-feira, 18 janeiro 2018 em

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Há mais de 20 anos insistindo em existir, o Cigarettes é uma banda, um projeto musical, mas também uma espécie de válvula de escape para os devaneios de Marcelo Colares. Juntos, os discos da banda, gravados com formações variadas e em circunstâncias distintas, compõem uma odisseia raramente igualada na discografia da música independente brasileira – uma saga de altos e baixos, marcada sempre pela entrega e dedicação ao ofício acima de pretensões comerciais ou de carreira.

Saturno Wins é o sétimo capítulo das memórias de Colares, e o primeiro lançamento do Cigarettes pelo selo mineiro Pug Records. “A oportunidade faz o entrevistão”, como diz um velho ditado aqui da redação, e aproveitamos a chegada do novo disco para conversar com ele sobre a trajetória do projeto, os 20 anos do álbum Bingo, expectativas, as mudanças de formação da banda, planos e outras coisas mais.

O papo, que se estendeu via e-mail por quase dois meses, rendeu a valer.

Ouça e baixe Saturno Wins pelo Bandcamp da Pug Records. Todas as fotos da entrevista são de Eugênio Vieira.

O Inimigo: O Cigarettes sempre foi mais um projeto teu do que “banda” no sentido tradicional da coisa, mas nesse disco em que você está sozinho em quase todas as canções isso fica ainda mais evidente. Foi intencional?

Marcelo Colares: Pois é, não. Acho que nada do que eu faço, musicalmente, é intencional. Talvez seja intencional de forma inconsciente, se isso fosse possível. Saturno Wins surgiu da minha vontade de gravar um disco com a Bruna Buzollo. A gente se conheceu em 2015, gravamos algumas coisas (que estão no EP THE LIGHTS) e combinamos de gravar um disco no ano seguinte. Nesse meio tempo, ela se mudou de São Paulo para Uberaba onde criou o Laboratório 96. O disco foi gravado lá. Em julho de 2016 eu fui pra lá, toquei em Araguari, Uberlândia e Uberaba. Lembro que o último show foi no domingo e a gente começou a gravar na terça. Quando as gravações começaram eu não tinha muita noção do que seria o disco. Talvez já tivesse ocorrido um processamento em segundo plano, por isso falei de intencional inconsciente, mas nada claro ou definido. Eu tinha a ideia de usar bateria eletrônica inicialmente. Mas quando eu comecei a tocar as músicas no violão, meio que essa cara e esse formato foram se impondo. Não havia um conceito pronto de antemão, a coisa toda foi se mostrando e sendo definida à medida que ia sendo feita. Sobre isso de projeto/banda acho que eu sou mais um artista solo. Só que como volta e meia tem gente tocando comigo, geralmente gente que se identifica de alguma forma com o que eu faço, e também pra simplificar, acabo falando que tenho uma banda. Acho que no espírito do que possa ser o Cigarettes está uma vontade de se distanciar do convencional. Essa espécie de “confusão”, se é ou não é uma banda, reflete um pouco essa disposição.

Imagino que Saturno Wins não tenha sido escolhido como título por acaso.  Tem alguma história por trás do nome?

Já me perguntaram qual era a proposta do título e eu falei que não sabia se havia alguma, era mais como um título de um poema ou de uma canção: algo que sintetizasse de forma poética aquele conjunto de canções. Gravei esse disco no ano passado. Minha primeira ideia de título tinha sido “NOIR”. Durante alguns meses, na minha cabeça, seria isso.  Comecei a não gostar, achar meio besta e pensei em “Shutdown”. Passei a achar meio bobo também. Fiquei então procurando algo que expressasse uma densidade maior, algo a ver com o tempo, com um determinado tipo de temperamento. Lembrei de um ensaio da Susan Sontag, que dá título a um livro dela, uma coleção de ensaios, publicado aqui no Brasil pela L&PM em 1986, que eu li nos anos 90, chamado “Sob o Signo de Saturno”. Peguei o livrinho todo marcado pelo tempo, capa quase saindo, meio em decomposição,  reli o ensaio. Achei que tinha a ver. Mas não ia chamar de “Sob o Signo de Saturno”. Aí fiquei com essa coisa de Saturno na cabeça. Pensei em Old Saturno, Sad Saturno, entre outras variações, todas muito ruins. Até que um dia me veio Saturno Wins. Prefiro a palavra em português a Saturn. Acho mais sonoro, mais forte, embora possa parecer “errado”. Engraçado que algumas pessoas bem próximas ao Cigarettes me corrigiram. Eu falava que era Saturno Wins e aí quando eles falavam do disco usavam a palavra em inglês. Conversei com uma jornalista, a Kamille Viola, sobre esse título. Ela me entrevistou para uma matéria sobre bandas dos anos 90, falei do título e ela disse que gostava de Astrologia. Ela me explicou que Saturno tem uma coisa de estrutura, se a estrutura não for sólida, Saturno chega e derruba tudo. Não tenho nenhuma expertise em Saturno, tampouco em Astrologia, ou em coisa alguma, diga-se de passagem, mas lembro de ter dito que, no meu precário entendimento, é como se Saturno te obrigasse a fazer o que precisa ser feito, independente de você querer ou não. Geralmente é algo que você não quer, mas precisa. Saturno vencer não quer dizer necessariamente uma coisa boa, uma “vitória” no senso comum, é só o que tem que ser. Sobre Astrologia em geral, gosto muito do que me disse uma vez a poeta Maíra Mendes Galvão: “não é que eu acredite, eu trabalho com a possibilidade”.

divulgação Eugenio Vieira 01

Algumas faixas do disco  soam bem barulhentas, como se tivessem sido escritas pensando na guitarra, mas acabaram no violão. Foi isso mesmo? 

Geralmente quando eu faço música não penso nisso. Uma ideia aparece do nada e eu tento transformá-la em algo concreto, normalmente no violão. Na maior parte das vezes diz respeito a alguma questão que eu estou vivendo e a música vem como uma espécie de suporte para aquela realidade específica. Pra mim, isso é o que parece ser. Mas pode ser outra coisa. Tenho muito mais dúvidas do que certezas. O combinado, em relação ao disco, era que a Bruna também fizesse a mixagem. Ela não pôde mixar, por conta do trabalho dela no Laboratório 96, e quem acabou pegando essa tarefa foi o Eduardo Ramos. A gente conversava por e-mail, eu explicava mais ou menos o que eu imaginava, e ele ia lá e fazia uma coisa totalmente maluca que eu nem imaginava. A distorção no baixo, do jeito que tá, é o que faz algumas músicas soarem mais barulhentas. Mas nada foi feito, raramente é, pensando na guitarra, embora eu até concorde que pareça ter sido.

Aproveitando o fôlego da pergunta anterior, tem muita reescrita no teu processo?

Às vezes… De forma geral diria que não há muita reescrita. Normalmente a música vem quase toda pronta, brinco (com um fundo de seriedade) que é uma coisa meio mediúnica. Mas a verdade é que varia muito. Por exemplo, tem uma música nesse último disco, “Jewish Tale”, que é de 2000/2001 e desde essa época que eu penso em gravar, mas não tinha rolado até agora. Nesse tempo todo eu devo ter mexido nela várias vezes, detalhes, pequenos ajustes… Mas acho que o processo de criação, via de regra, costuma ser algo involuntário e até misterioso.

 O terceiro disco teve uma gestação bem longa, de 2008 até 2011, quando rolou o crowdfunding para fazer o vinil. Adoro esse disco, e acho curioso que ele tenha saído desse modo porque parece até uma coisa meio “fora do personagem” do Cigarettes… Uma banda tão “tímida” se lançar num projeto de financiamento coletivo. Como você chegou na decisão de dar essa cartada pra poder terminar o disco?

Fico feliz que você goste desse disco. Muita gente acha que é o meu melhor disco. Pra mim mais de três pessoas já é muita gente. Eu não tenho como dizer o que é melhor ou pior. Gosto bastante dele também. Na verdade o crowdfunding, que ainda era uma novidade na época, foi uma ideia do [Rodrigo] Lariú, que foi quem conduziu todo o processo, e serviu para custear a prensagem em vinil. Mas o que aconteceu foi que o disco já estava pronto no início de 2008.  Toquei tudo, menos a bateria que ficou a cargo do excelente Ricardo Ribeiro, também conhecido como o baterista da PELVs. Junto com o Bingo talvez tenha sido o disco em que eu tive mais tempo de estúdio, quase duas semanas pra gravar e mixar. Os custos com a produção, tempo de estúdio, foi tudo eu que banquei.  E você tem razão, o financiamento coletivo meio que destoa do personagem. Eu já tinha gravado, mixado e masterizado tudo em março de 2008.  O Gustavo Seabra, da PELVs, que inicialmente produziria esse disco… Aliás, por duas vezes o Gustavo produziria um disco meu. Na verdade três! No Bingo ele começou, mas a gente se desentendeu por uma besteira qualquer. Grande parceiro, o Gustavo. E no The Waste Land também foi assim, a gente tinha combinado dele produzir, aí em cima da hora ele não podia e acabava que eu dava meu jeito. Mas nesse disco, depois de tudo já pronto ele quis mexer. Pegou os projetos do Pro Tools, refez um monte de coisa, regravou uns baixos, acrescentou violões e uns teclados que não tinham na primeira versão, remixou tudo. Nessa brincadeira ele levou uns três anos. Não sei como eu aguentei esperar, hoje não esperaria. Quando finalmente ficou pronto, o midsummer madness não tinha dinheiro pra prensar e veio o crowdfunding. Ficou um disco com duas versões: a do vinil é a do Gustavo e a que saiu em cd e que está hoje no Spotify e nos streamings da vida foi a que eu fiz com a ajuda do Zé Felipe, que era do Zumbi do Mato e trabalhava como técnico de som no extinto estúdio BPM no Rio. Foi o último disco gravado nesse estúdio, depois fechou. Aconteceu a mesma coisa com o The Waste Land, a gente terminou de gravar e o estúdio Tranco em São Paulo também fechou. Nesse último foi até mais marcante, eu ajudei inclusive a esvaziar o imóvel.

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Em 2015, você levou o Cigarettes para tocar no Nordeste pela primeira vez, com datas em festivais como DoSol e Mundo. Como foi a experiência, tanto pelo seu lado como pela repercussão do público?

Na verdade já tinha tocado em Salvador, no festival Boom Bahia, e em Aracajú, numa casa chamada, eu acho, Bahamas, em 1998, com a galera da Snooze. Nessa época fui acompanhado por Ricardo Spencer (que voltaria em 2015, tocando teclado e maracas) no baixo e pelo Ricardo Cury na bateria. Em 2015 foram outras cidades e o mundo já era bem outro. Viajar tocando é sensacional, é uma vida de aventuras, recomendo fortemente a todos que possam ter uma experiência dessas.  Foram quatro shows. É engraçado isso do público, notei reações as mais diversas. Desde gente que nunca tinha ouvido falar e nem dava muita atenção, até os que tinham alguma noção histórica da coisa. No DoSol, por exemplo, teve gente, pelo que eu li depois, que achou um dos melhores shows do festival, e houve quem achasse chato, o pior dos shows. Em Maceió foi inesquecível. A gente ficou na casa do Coletivo Popfuzz, povo mais gente fina e acolhedor é difícil de encontrar. O show lá foi bem bacana, teve uma banda de abertura, a Karaokê Holanda, que deixou todo mundo impressionado. Em Recife talvez tenha sido o mais curioso. A gente tocou num projeto de música no museu e o público era de uma faixa etária bem acima da garotada do rock. Era um pessoal que certamente nunca tinha ouvido falar de Cigarettes, que ia lá no museu aos sábados só pra ouvir algum tipo de música. Deu até um certo frio na barriga, mas o público acabou sendo receptivo, compraram cds, conversaram com a gente depois do show, guardo boas lembranças.

Ainda falando dessa turnê, lembro que perto do fim da tour, você fez um post comentando que era um dos últimos shows “daquela versão” dos Cigarettes. Queria que você comentasse um pouco sobre essa versão específica e também sobre essa característica mutante da banda…

Essa formação, como todas as outras, foi muito por acaso.  As coisas foram acontecendo e quando eu vi já estava rolando. Tinha o Gordinho e o Spencer, amigos de muitos anos, e o Ugeda e o Mancha, que eu tinha conhecido naquele ano. Acho que todo mundo se divertiu e aproveitou o que dava. Mas é aquela coisa, não dá grana, todo mundo tem muitas outras prioridades na vida. Aí tem um show que alguém não pode; por eu morar longe de todo mundo é mais difícil ensaiar… Então essa coisa da formação depende muito do momento, do que tá rolando, das oportunidades e da minha vontade naquele determinado momento para lidar com isso tudo. Já teve show que ficou acima das expectativas até sem ensaio e outros em que essa coisa de formação flexível pode ter prejudicado. De todo modo, é uma alegria enorme que eu tenho de ter contado com o apoio de tanta gente legal para conseguir fazer shows com o Cigarettes.

Já pensou em levar o Saturno Wins pro palco num esquema “trovador solitário”, só voz e violão? 

Pensar eu já pensei. Vamos ver se eu vou conseguir. O fato de ser voz e violão ajudaria muito. Porque pela experiência que  eu tenho de viajar e tocar,  o prejuízo é certo. Ainda assim, justamente por isso melhor dizendo, é algo que eu preciso organizar. Não sou mais tão jovem assim, vivo com gatos e cachorros que contam comigo. Então  tem que ser algo que valha a pena, não falo nem no aspecto financeiro, que esse eu já assumo como deficitário desde o início, em qualquer empreitada dessas, mas algo que eu curta de verdade e esteja afim mesmo de fazer. Talvez eu comece por Juiz de Fora, cidade da PUG RECORDS, que lançou  o “Saturno Wins”. Mas não garanto nada, vamos ver o que rola. Vontade eu tenho. Resta saber se eu consigo criar as condições, ou se elas vão se apresentar minimamente.

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A discografia do Cigarretes apareceu recentemente no Spotify e no Bandcamp e eu soube que rolou uma recontagem na hora de subir.  Alguns registros que antes eram consideradas demos foram promovidas e viraram álbuns, EPs. Como foi essa reavaliação?

Foram dois discos que “subiram” de status. The Song Machine de 1999 e Blue Sun de 2002. Ano passado eu fiz um bandcamp com os discos que saíram pela SLAG!, que são esses dois mais o All is Well de 2005. Comecei a reparar que eram gravações com mais de dez músicas e que tinham cara de disco. Comecei a questionar essa coisa de “demo”, que inicialmente era uma coisa de “demonstração”. Gravava-se algumas músicas para mostrar a produtores, rádios, gravadoras, acho que esse era o conceito original usado na indústria. Quando eu gravei as primeiras demos, nunca tive essa intenção de mandar pra rádio por exemplo. Até porque era tudo gravado fora dos padrões, em portastudio, duplo deck, não era a mesma coisa do que se entendia como sendo uma demo, uma fita de demonstração. Era um trabalho onde as músicas dialogavam entre si e formavam algum tipo de unidade, ao menos havia essa pretensão no meu caso. Nesse sentido, se bobear, daqui a pouco as primeiras demos viram álbuns também, rs. Falando um pouco mais sério, acho que esses dois discos em especial compõem bem com os outros cinco. Talvez todos eles juntos contem alguma história dessa minha saga/sina pessoal. Como você bem já escreveu, são episódios ou capítulos, que eu considero importantes. Afinal qual seria o critério para determinar se uma gravação é um disco ou não? O fato de ter sido prensado numa fábrica? Será? A gente poderia dizer até que se trata mais de uma questão narrativa do que de simplesmente incrementar a discografia.

Aliás, o Bingo completou 20 anos em 2017. Não é o primeiro capítulo da saga do Cigarretes, mas acho que é um dos mais decisivos, né? Como você vê esse disco hoje? Planejou algo especial pra bater o parabéns?

Acho o disco muito bom. E o fato de as pessoas, novamente, algumas pessoas, se lembrarem dele até hoje em uma posição de destaque mostra que eu não estive totalmente errado durante todo esse tempo. De certa forma, o Bingo representou também o fim da inocência. Rolou uma história com um cara de Portugal que comprou 500 cds em meados de 1998 e queria levar e promover o Cigarettes por lá em maio de 1999. Eu e o Lariú ficamos esse período, entre 1998 e 1999, planejando a viagem. Parecia tudo certo. Existia uma agenda com shows em estádios e programas de TV. Lembro de ter tirado passaporte exclusivamente pra isso. O midsummer madness pagou as taxas, pagou 100 horas de estúdio pra gente ensaiar, uma banda foi montada com esse propósito. Parecia bom demais pra ser verdade. O cara tinha descoberto a banda pelo recém-criado site do midsummer. A Soninha, que apresentava o Lado B na época, anunciou nossa ida. Esse português tinha um selo que distribuía o Green Day por lá. Isso é o que eu me lembro do Lariú ir me falando.  Nunca tive contato com o tal cara, que tinha um nome bem característico, acho que era Manoel. Eu não tinha nem telefone nessa época, muito menos computador ou e-mail.  Na época eu trabalhava como repórter em um pequeno jornal em Niterói chamado “O Fluminense”. Faltando um ou dois meses pra viagem, abandonei esse emprego. Vou pra Portugal ver o que rola, pensei. Faltavam duas semanas pra gente ir e o Lariú me fala que o cara tinha mandado um e-mail dizendo que ia adiar os shows porque um dos estádios estaria em obras… uma desculpa esfarrapada qualquer, o cara estava claramente pulando fora. Depois de meses envolvido com aquilo, apostando tudo naquilo, no final parecia só um delírio coletivo. E eu estava lá desempregado, com uma banda que quase ninguém ouvia e um monte de gente me perguntando: ué, mas e Portugal, não vai rolar? Fiquei deprimido. Depois de morar  no Rio entre 1991 e 1999, eu me vi tendo que voltar pra casa dos meus pais em Itaperuna. Era o fim. Isso bagunçou a minha vida por um tempo, mas passou, sobrevivi.  Talvez fosse Saturno transitando pelo meu mapa. Anos depois, conversando com alguém muito mais esperto do que eu sobre esse episódio, ela me disse: “Mas vocês não foram muito ingênuos? Não tinha um contrato?” De fato, ingênuo é até um eufemismo. Fomos burros mesmo. Não, não tinha um contrato. Foi meio que uma piada de português invertida. Seja como for, em meados de 2017, Lariú me escreveu falando sobre uma possível reedição, em CD mesmo, do Bingo e um fanzine colorido, com um papel melhorzinho, depoimentos, fotos e textos de muita gente bacana. Recebemos alguns desses textos e tinha até bastante coisa. Fiquei muito contente com esses testemunhos. Ele falou até em relançar as demos. Mas não sei se vai sair alguma coisa de verdade.

Pra fechar, queria só que você falasse alguma coisa – qualquer coisa – sobre o The Waste Land. Acho esse disco bem interessante na discografia do Cigarettes, ousado até. 

Você grava um disco, ou faz qualquer outra coisa, sem ter a menor ideia se alguém vai gostar, ou se vão sequer ouvir como um disco. Embora nada tenha sido planejado, nenhum conceito elaborado em detalhe previamente à gravação, acaba que esse disco tem um pouco do que se costumava chamar de disco conceitual. Na verdade eu nem sabia exatamente quais músicas entrariam no disco até começar a gravar, já dentro do estúdio. Não havia nenhuma pretensão de se fazer um disco conceitual. Tem muita coisa pessoal, mas tem também, de alguma forma, um lance de tentar passar impressões do que vive o mundo. O disco começa com “Atenas”, o início da civilização ocidental, e termina com “Wasteland”, meio que apontando para o fracasso da sociedade pós-industrial. Enquanto que a primeira tem um clima bucólico, contemplativo, essa última traz, justamente, traços quase que de música industrial. Só percebi isso depois do disco pronto.  Não é nenhuma “sacada genial” nem nada disso, mas acho que confirma o que a gente falava no início da entrevista. A intenção, ou sentido, nem sempre é algo claro, consciente, mas que, ainda assim, está lá, presente.