Em All Things Must Pass, George Harrison transformou o “Worst Of” dos Beatles em uma obra-prima

por em quinta-feira, 25 fevereiro 2016 em

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De 1965 a 1969, os Beatles foram do folk psicodélico (pra dizer o mínimo) de Rubber Soul à “inovação-em-cada-faixa” de Abbey Road. Nesse meio tempo, os caras lançaram seis discos. Seis! Em cinco anos!! E eu não tô falando de qualquer seis álbunzinhos de meia tigela, não! Revolver em 66, Sgt. Pepper’s em 67, o duplo White Album em 68 e em 69, no mesmo ano do disco da capa (mais) famosa, Yellow Submarine. É o mesmo que dizer que, em 5 anos, os caras reinventaram o Rock’n’roll – e ainda inventaram uma série de gêneros/formatos/estilos/conceitos que vêm influenciando e sendo retomados por artistas até hoje!

É de se imaginar que, pra ter uma produção tão arrojada e prolífica (novamente, pra dizer o mínimo), os caras não deixavam muita coisa de fora dos discos; ou mesmo que o que não entrava nas bolachas, era cortado porque ainda devia estar em fase experimental, mal acabada e não era compatível com o alto nível das outras composições. O raciocínio é lógico, mas a verdade é que esse é um equívoco tão grande que assusta! Ah, meu amigo, as canções que os Beatles deixaram de fora…………. puta que pariu!

É como eu sempre digo: o “worst of” dos Beatles bota a carreira “lado A” inteira de uma pá de “artistas” desses aí – esses que fazem música pra tocar em foodtruck – no bolso! E olha que pra provar esse meu argumento, só precisar dar uma chafurdada rápida nos sebos da internet; não precisa nem sujar muito as mãos de poeira virtual, não; basta dar uma revisitada (ou visitada, para os mais desavisados) no incrível All things Must Pass do George Harrison pra ter uma ideia do conteúdo e do poder das canções rejeitadas dos Beatles.

Vamos lá! 1970: fim oficial dos Beatles em abril. Em maio, o George entra em estúdio com uns amigos dele (vou nem entrar nesse mérito aí, porque enfim… basta dizer que Phil Spector e Eric Clapton tavam no meio dessa bagunça) e começa a gravar. Em novembro, 9 meses depois, o beatle quieto lança o seu primeiro álbum pós-fab-four… e é um disco TRIPLO! É isso mesmo: três bolachas de vinil; quase 2 horas de música de uma tacada só!

All things Must Pass trata do canto engasgado na garganta do beatle quieto, justamente durante aquele período áureo de 65 a 69/70. Por aí você já consegue imaginar o brilho que tem esse disco! A questão é que grande parte das canções do All things foi composta pra entrar nos discos dos Beatles, mas foi cortada fora pelos companheiros de banda do George. É… não é de hoje que todo mundo sabe que tinha muito de dominação e de briga de ego dentro dos Beatles. Aquilo que servia como competição saudável (até certo ponto) entre John e Paul na hora de compor, também serviu como poda injusta com o caçula da banda.

Parece que ninguém tava enxergando o George crescendo como compositor (basta assistir o documentário “Let it be” pra ver o quão ignorado o cara está no meio das conturbadas relações internas da banda). E, olha, vou te falar, os caras não terem percebido o monstro que era o George já naquela época (!)… “Love you to”, “Within you without you”, “The inner light”, “While my guitar gently weeps”, “Only a northern song” (a quem o queridinho Tame Impala deve muito!), “Something”, “Here comes the sun”, “I me mine”… porra… rolou uma “cegueira” forte ali, tão certamente quanto infelizmente! Mas o fato é que em 70 o Mr. Harrison botou essa produção pra fora. E que produção, meu amigo!!! Passeando entre o folk, o rock’n’roll mais selvagem, a música psicodélica e, claro, a musicalidade e a religiosidade indiana, George Harrison compôs algumas das maiores pérolas que – como balas – já atingiram a música Pop!

O primeiro single do disco foi “My sweet lord” (com “Isn’t a pitty” no lado B (e que lado B!)): um sucesso imediato e avassalador! Uma música com inspirações gospel e toda dedicada a Krishna… que ficou como número 1 nas paradas por semanas e foi eleita como o single do ano! Eu disse gospel e Krishna! Nessa mesma pegada “hare-krishniana” você ainda tem “Hear me lord” e “Awaiting on you all” (essa é uma pepita de ouro máxima!).

Caminhando no disco você vai se deparar com canções com uma pegada mais folk belíssimas, como “I’d have you anytime”, “If not for you” (ambas parcerias com Dylan), “Apple scruffs”, “Run of the mills” e “Beware of darkness” – sendo essas duas últimas um par das músicas mais lindas e profundas da década de 70, sem sombra de dúvidas (!). “Art of dying” é prima-irmã de “While my guitar gently weeps”, com uma melodia muito densa e guitarras solo altíssimas (inclusive tocadas pelo mesmo e monstruoso Clapton nas duas); “Wah-wah” tem a técnica da parede sonora – assinatura artística do Phil Spector – estampada nela toda, com o que soam como umas 200 guitarras ligadas em 200 wah-wahs e pelo menos uma banda marcial inteira batucando junto; e por fim, pra não me alongar mais no comentário, tem a faixa-título do álbum, “All things must pass”, que sabe-se lá porque ficou de fora do Abbey Road; uma canção com uma melodia poderosa, tocante, e com uma letra que chuta o seu coração ao mesmo tempo em que te lembra que as coisas podem melhorar… porque “o sol nascente não dura toda a manhã, mas a chuva também não dura o dia inteiro/ e embora pareça que o meu amor tenha te deixado sem aviso, as coisas nem sempre serão assim tão cinzentas/ porque todas as coisas devem passar, tudo tem que passar”. Irmão… puta que vos pariu a nós todos… que letra é essa?!!!!
E todas essas músicas estão só nos dois primeiros discos.

O terceiro disco é quase todo instrumental e é composto exclusivamente de jam sessions feitas com os músicos que participaram do disco. Inclusive, originalmente o disco até saiu com um nome a parte, “Apple Jams”, como se fosse um disco de bônus do All things. E embora possa parecer que essa foi só uma jogada do cara pra lançar um disco estupidamente longo – o que não é nem de longe o caso –, na real essa terceira peça tem uma proposta simbólica muito clara: ao contrário do que fizeram comigo no Beatles, no meu disco TODO MUNDO tem direito de tocar o quanto quiser e como quiser! E, bicho, quando você coloca George Harrison, Eric Clapton, Ringo Starr, Billy Preston e mais uma pá dos melhores músicas de estúdio (ah, essa galera dos estúdios nos anos 60 e 70!) e deixa a galera tocar!!! Impecável até o último segundo de reverberação!

E é isso! Eu nunca precisei fazer uma compilação das músicas rejeitadas dos Beatles – o “worst of” (e pode botar mais aspas aí) – pra ver no que daria; o George já fez. E depois embalou e lançou um disco triplo… que é, até hoje, reconhecido como um dos maiores e mais importantes discos de rock’n’roll da história!!!
É, irmão, é como se diz: se isso é o que ficou de fora… (!!!).

E hoje é 25 de fevereiro, aniversário do George. Faça um favor a si mesmo e corre pra ouvir esse discasso de cabo a rabo… no repeat!

Hare Krishna. Hare George. Hare Hare.