Elza Soares é ronquenrol pra caralho

por em sábado, 3 fevereiro 2018 em

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Elza Soares, mulher, negra, 80 anos, surge sentada em seu trono quando se abrem as cortinas no Teatro do SESC Pompeia. O show A Voz e a Máquina começa com sua voz lembrando a todos que Computadores Fazem Arte, artistas fazem dinheiro, em uma renovada versão da música lançada em 1994 por Chico Science e sua Nação Zumbi. O acompanhamento dos djs Ricardo Muralha e Bruno Queiroz, companheiros da cantora nesta jornada, ganha sentido além do som.


Elza canta O Tempo não Para (Cazuza, 1988) e dá testemunho de que vê o futuro repetir o passado. Quantas vezes o futuro chega para uma pessoa que presencia a passagem de oito décadas? Ao cantar Nós (Tião Carvalho), na versão dramática e cigana imortalizada por Cássia Eller em 1998, o telão coberto por rosas vermelhas evoca o cenário do acústico derradeiro da cantora.

A cena tem luz de boate, telões e pedaços de cenário mapeados com projeções animadas e videoclipes atuais da própria Elza. Sua voz metálica rasga plateia e teatro na abertura de A Carne (Seu Jorge, Ulisses Cappelletti e Marcelo Yuka, 1998), que escancara mais uma vez que a carne mais barata do mercado é a carne negra. Nessa hora, sinto um raio percorrer o meu corpo em um arrepio que não larga minha pele até o final da música. Um daqueles sinais de que a vida vale a pena para presenciar momentos como este.

Ao interpretar Na Pele, eleita uma das melhores canções de 2017 pela Rolling Stone Brasil, a exibição do clipe compõe a parceria com a cantora Pitty. Mulheres de duas gerações da música nacional, emblemáticas dentro e fora dos discos, se encontram aqui justamente para falar das marcas do tempo.

Elza sabe do que está falando. Se hoje, com mais de 60 anos de carreira nas costas (e peitos, pernas, coxas, ventre, cabeleira, pele, boca, olhos rasgados) ela é recebida com ares de louvação por pretos e brancos nos espaços de shows mais aclamados do país, é porque chegou ao reinado que ocupa na música brasileira como uma guerreira, que empunhou sua voz como uma espada, decapitando racismo, machismo, classismo, entre outras tantas formas de violência historicamente infligidas a uma mulher com seus predicados.

Elza Soares, uma senhora que do alto de seu prestígio artístico poderia acomodar-se e omitir-se, faz um show francamente comprometido com uma atitude política. Diversas vezes, a luz da plateia se acende e ela pede gritos, conclama que os jovens reajam – assustadoramente, não se ouve nem mesmo um #foratemer. Mas não fica nisso. Ela traz palavras de Martin Luther King e o novo Cálice do rapper Criolo (2010). Põe os holofotes sobre temas que podem estar bombando e razoavelmente assimilados na bolha sócio-digital de uma elite intelectualizada, mas que ainda ofendem (e muito) os homens de bem. São a negritude, o feminino, a homossexualidade, a transgeneridade, a pobreza que apanham e se levantam todos os dias.

Incorpora a má influência das bichas, sapatas e travestis ao cantar Não recomendado  (Caio Prado, 2014). A canção é acompanhada no telão por manchetes de crimes de ódio homofóbico, um registro de que, para essas pessoas, chegar viva até o fim do dia é um desafio diário sob o olhar repleto de preconceito e desdém de uma sociedade machista e heteronormativa. Aliás, provavelmente, sua própria figura – uma mulher de idade avançada em roupa resplandecente, justa, decotada, juba volumosa crespa cheia de orgulho, contrariando a invisibilidade relegada às senhorinhas – carregue em si mesma este assalto à assepsia hegemônica dos senhores no poder.

Penso em roqueiros idosos que seguem na ativa às custas de suas carreiras de 40, 50 anos atrás e são mundialmente reverenciados. Nossa Elza, octogenária, tem energia, lucidez, e talvez seja mais atual e politizada do que qualquer um deles. Ela encerra o show encarnando a própria Mulher do Fim do Mundo, canção de seu premiado álbum de inéditas lançado em 2016. Soa como um pedido público lavrado em espaço cênico de que a deixem cantar (e ser ela mesma, expressar sua verdade, lutar) até o fim. Quase me convenço de que este fim jamais chegará. A firmeza e vitalidade de Elza Soares parecem desafiar as regras ordinárias da existência. É uma mulher totêmica e já eterna.