Deus deveria ser mulher

por em terça-feira, 22 maio 2018 em

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O novo disco de Elza, Deus é Mulher, soa como a segunda parte de A Mulher do Fim do Mundo, mas na verdade é uma parte entre tantas que nunca formarão um todo. A verdade jogada de forma dura na cara de quem ouve o disco é uma verdade ignorada por parte da população do Brasil. Uma outra parcela faz chacota da realidade e muitas vezes ainda ajudam a piorar a situação política e social do país.

Elza é uma voz que poderia ser a de muitos, mas gente do tamanho de um Pelé prefere se omitir. Logo ele que poderia usar o privilégio e o escudo que possui para falar e ajudar quem precisa. Mas o Edson é uma pessoa e o Pelé outra. O exemplo existe em todos os setores da sociedade, seja com apresentadores de programas populares, atores, cantores e o pior: com a representação popular em todas as escalas da política nacional nas bancadas da bala, rural, dos evangélicos e tantas outras representações que servem pra travar o avanço do país.

Um país do tamanho do nosso com uma miscigenação imensa deveria ser tolerante. Não é o que se vê com religião, com sexo, com as escolhas pessoais de cada um ou com política. Pior que os que não respeitam os outros são os omissos. Dentre eles ainda existem os que tem todo um discurso pronto, mas na primeira oportunidade de agir se omitem.

Elza, do alto de seu prestígio, joga no ar ideias que todos pensam, até concordam. Cantam suas músicas, acham lindas as letras e as propagam por aí. No dia a dia se acovardam. Elza sabe o que canta porque sofreu durante a vida o que expõe em forma de música. “Exu nas Escolas” e “Credo” são a cara do Brasil laico. O laico que destrói terreiros e estatuas de Iemanjá e controla por meio de doutrinação a vida do próximo. Controla e doutrina tão bem que violenta o semelhante até dentro de templos e igrejas.

As músicas “Banho” e “Eu quero comer você” falam do poder e querer das escolhas. Lembrei do doc Chega de Fiu Fiu (financiado coletivamente) que trata de machismo, homofobia e transfobia e mostra quão covardes são os homens que além de assediarem se transformam quando as mulheres reagem. Reagem com agressão ou ficando calados diante da “ousadia” feminina.

Por mais que o disco seja pesado do começo ao fim, se destacam “Dentro de cada um” e “Deus Há de ser”. Ambas falam sobre a força da mulher e da necessidade de cada dia mais essa força crescer e se mostrar, sair do campo das ideias e partir pro campo das ações. Lutar contra todo o processo de exploração que começa ainda na infância e se perpetua como algo natural para muitas mulheres. Elza canta que Deus é mulher. Elza, gostaria que fosse. Antes fosse, se é que Ele existe. Mas dada a situação aqui e em tantos outros lugares, ele é homem e sua semelhança está no dia a dia cheio de desgraça.

É necessário dizer que o discurso do disco ganha muito mais força com o instrumental da banda formada por Mariá Portugal (Bateria, percussão e MPC) e Maria Beraldo (Clarinete e Clarone), Guilherme Kastrup, Romulo Fróes, Marcelo Cabral (baixo e Bass Synth), Rodrigo Campos (cavaquinho e guitarra) e Kiko Dinucci (guitarra, sintetizador e sampler). Se fosse um samba tradicional, como Elza se acostumou a cantar, também teria peso. Mas os arranjos da banda que formam muitas vezes um cenário inquieto, torto e claustrofóbico junto com as letras dão o tom certo de mais um disco que já nasceu pronto a ocupar o topo dos lançados em 2018.

Deus É Mulher foi gravado entre os estúdios Red Bull (São Paulo) e Tambor (Rio de Janeiro), com produção de Guilherme Kastrup e coprodução de Romulo Fróes, Marcelo Cabral (baixo e Bass Synth), Rodrigo Campos (cavaquinho e guitarra) e Kiko Dinucci (guitarra, sintetizador e sampler). Reforçando a energia feminina do álbum, participaram das gravações Mariá Portugal (Bateria, percussão e MPC) e Maria Beraldo (Clarinete e Clarone). O disco traz 11 faixas inéditas, assinadas por nomes como Tulipa Ruiz, Pedro Luís, Alice Coutinho e Rodrigo Campos, entre outros. Elza contou com a participação especial do cantor Edgar, em “Exú nas Escolas” (Kiko Dinucci/ Edgar), e do grupo Ilú Obá de Min na percussão e vozes de “Dentro de Cada Um” (Luciano Mello/ Pedro Loureiro) e “Banho” (Tulipa Ruiz).