O duende da morte finalmente morreu…

por em segunda-feira, 28 outubro 2013 em

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Então, ele terminou seu trabalho em uma manhã de domingo. Lou Reed, poeta, músico e um dos fundadores do Velvet Underground, morreu na manhã deste 27 de outubro de 2013 aos 71 anos. Talvez o principal legado deixado por Reed seja a autonomia: em sua carreira fez o que lhe deu na telha, pouco importando as consequências.

Em 1967, enquanto todos se deslumbravam com o Flower Power, o Velvet Underground de Lou Reed mostrava um retrato preto e branco e nada agradável daquela efervescência contracultural. Com Maureen Tucker, John Cale, Sterling Morrison e Nico, gravou um dos álbuns indispensáveis da história da música: The Velvet Underground & Nico. Basta dizer que o disco rivaliza com o White Album dos Beatles no quesito “Quem escutou, montou uma banda”.

O Velvet Underground lançaria mais quatro álbuns, John Cale debandaria, a banda se esfacelaria e Lou, claro, seguiria adiante. Um carrossel insano serviria para ilustrar a trajetória do moço ao longo das quatro décadas seguintes.

Com trabalhos brilhantes como seu disco de estréia (Lou Reed, de 1972), Transformer (1972) e Berlin (1973), Reed tomou de assalto e se transformou na epítome da década de 1970. Prova disso é o artigo de Lester Bangs, “Vamos Agora Louvar os Famosos Duendes da Morte”: Reed era um dos tais duendes e Lester, por sua vez, desnudaria as contradições daquele “artista em fluxo contínuo e um mascate vendendo quilos de sua própria carne”. Canções como “I Can’t Stand It”, “Ride Into The Sun”, “Perfect Day”, “Sattelite of Love”, “Walk on The Wild Side” se transformaram, ao mesmo tempo, graças à poesia e percepção de Reed, em verdadeiras traduções de uma década a caminho da perdição.

Aqueles anos 70 foram o domínio de Reed, já que através deles experimentou de tudo – em todos os sentidos, na música e na vida pessoal -, e seus discos acompanharam esta perspectiva, expressando sua irregularidade (The Bells Street Hassle, ambos de 1978), experimentação (Metal Machine Music, de 1975) ou seu apreço ao bom e velho rock’n’roll (Coney Island Baby, de 1975, e Rock’n’Roll Heart, de 1976).

Os anos 80, como para muitos outros, não foram os melhores para Reed, não garantindo a manutenção do status obtido na década anterior. Ainda assim, Reed trapaceou a década perdida, e nos seus últimos movimentos antes de embarcar rumo aos anos 90, concebeu uma verdadeira obra-prima: New York. Com o disco, Reed estabeleceu um retrato incisivo de uma década e, para tanto, fixou seu olhar em sua própria cidade. Canções como “Romeo Had Juliette” e “Dirty Blvd.” são dois dos clássicos daquele álbum.

Mas a década de 1990 seria marcada por outras e difíceis reflexões, especialmente sobre a morte, despedidas e as banalidades necessárias da vida. Daí, álbuns como Songs for Drella (de 1990, um tributo de Lou Reed e John Cale ao amigo Andy Warhol), o ainda mais denso Magic and Loss (1992) e, quatro anos depois, o alívio sintetizado em Set The Twilight Reeling (1996).

Nas décadas seguintes Reed se dedicou a produzir álbuns conceituais. Discos como Ecstasy (2000), The Raven (2003, dedicado à obra de Edgar Alan Poe) e, seu último trabalho, Lulu (2011, em parceria com o Metallica). Reed terminaria os últimos anos envolvido pelas mesmas liberdade e irregularidade criativas que o acompanhavam desde os primeiros tempos do VU.

Em um domingo de 2013, Lou Reed terminou seus dias. Posso dizer que tive alguns heróis, mas, recorrendo novamente a Lester Bangs, sei que o grande barato mesmo estava nos anti-heróis. Durante muito sempre ouvi o meu favorito dentre todos eles. Lou Reed se foi e, bem, me conforta saber que sua música se transformou em legado.

Isso porque basta perguntar a algum moleque que saca o que o lado mais barra pesada da música tem a oferecer e, certamente, Lou estará ali.