Direto da Redação # 10 : Mahmed, Cremalleras, Angelique Kidjo, While She Sleeps

por em segunda-feira, 5 novembro 2018 em

LinkedIn

A democracia pode estar indo pra casa do caralho no resto do país, mas continua firme e forte aqui na nossa redação. Nossos colaboradores andam ouvindo de tudo e, entre um ato de resistência e outro, pararam um pouco para listar o que anda fazendo a cabeça da nossa célula subversiva.

Angelique Kidjo – Remain in Light

Remake faixa a faixa do clássico dos Talking Heads, no melhor estilo “trazendo tudo de volta pra casa”. Kidjo, cantora beninense cuja discografia anterior merece muita atenção, amplificou as influências confessas de afrobeat do original à frente, acrescentando batidas e letras em seu idioma natal. Como se fosse pouco, ainda trouxe convidados do naipe de Tony Allen, a seção de sopro dos Antibalas, Ezra Koening (Vampire Weekend) e Blood Orange para dar um tapa nos arranjos. As letras de David Byrne continuam tão atuais que na metade do caminho, dá até para esquecer que o original existe e celebrar a versão de Kidjo pelo que ela é, no intenso agora. (AP)

Mahmed – Sinto Muito

O esperado segundo disco do Mahmed chegou de surpresa numa manhã de sábado agitada para a juventude natalense. Com participações de Molly Hamilton (Widowspeka), Luisa Nascim (Luisa e os Alquimistas) e Santiago Mazzoli (Ombu, Raça), algumas músicas cantadas, e uma identidade mais garage, calcada na força dos riffs e na sedução das várias possibilidades dos arranjos, Sinto Muito é um mergulho mais profundo do que o oferecido pelo seu predecessor. Em músicas como “Vazia”, que parece ter saído de uma session de The OOz, de King Krule, “Perdi”, lenta e sutil com seu groove à la BadBadNotGood, a sutil “Leli” (com charmoso vocal de Molly Hamilton), a latina “Lo Siento” (com a luxuosa participação de Luisa Nascim), que é como se Homeshake estivesse perdido na praia de Ponta Negra, ou “Cheio”, face mais noventista do Mahmed, as várias influências e novas direções tomadas pelos membros da banda demonstram a evolução e a força da música instrumental do quarteto. Sinto Muito marca também o último disco do Mahmed com Dimetrius Ferreira ocupando uma das guitarras, posição que agora é preenchida por Rodolfo Almeida (Fukai, ex-Fewell). (PL)

Guns N’ Roses – Appetite For Destruction

A formação mais aclamada no disco mais aclamado. A música ainda era muito glam/sleaze, tinha maquiagem e cabelo armado demais. Um dos melhores discos dos anos 80 e que a crítica aponta como um dos melhores já feitos em toda a história do rock (a crítica na época que disse, ok?). Os shows ao vivo eram muito melhores, o Guns sempre foi uma banda que mostrava suas reais intenções nas músicas no som ao vivo, muito mais “metálico e pesado”. Jamais desmerecendo todo o trabalho futuro após um grande refinamento criativo da banda, mas esse disco ainda é o melhor. Clássico. (JP)

Luedji Luna – Um Corpo no Mundo

Um Corpo no Mundo é o disco de estreia de Luedji Luna e foi lançado ano passado. O disco é carregado de africanidade e não podia ser diferente, já que ela é de Salvador. A diversidade sonora do disco em torno da percussão se vê presente na mescla dos músicos: Aniel Someillan de Cuba (baixo); o sueco, radicado na Bahia, Sebastian Notini (arranjo); o soteropolitano Rudson Daniel (percussão); o filho de congolês François Muleka (violão); e Kato Change (guitarra), do Kênia, o que faz da influência negra um apanhado sonoro pop mundial com músicas delicadas. As temáticas também giram em torno da religiosidade, de experiências do dia a dia de racismo e também política e estética. A estética pode ser vista facilmente nos vídeos das músicas. (HM)

Caetano Veloso – Cinema Transcendental

Em geral considerado um disco menor, até que o repertório prove o contrário: estão aqui “Menino do Rio”, “Lua de São Jorge”, “Beleza Pura”, “Cajuína” e “Oração ao Tempo”, hits que até quem não manja (ou não curte) Caê consegue cantarolar por alto. Fora as menos conhecidas, como “Vampiro” (de Jorge Mautner), “Elegia” e a chapadaça “Louco Por Você”, um proto-samba reggae de mais de sete minutos. Há ainda “Badauê”, canção do mestre Moa do Catendê, covardemente assinado por divergências políticas durante a campanha eleitoral deste ano.  Gravado com a munheca mole da Outra Banda da Terra, grupo que  acompanharia Caetano até 1983, é um discaço pra ouvir numa tarde preguiçosa ou logo de manhã cedo, capaz de trazer a brisa quente do mar aos dias mais frios da cidade mais cinza que há. (AP)

Matty – Déjavu

Matty Tavares, tecladista e membro fundador do BadBadNotGood, estreia como melodista e cantor com Déjavu, lançado em maio. O disco é uma compilação de canções pop-psicodélicas, à là Brian Wilson, Paul McCartney, Broadcast ou Harry Nilsson, como o hit “How Can He Be”, a atmosférica e lírica “Verocai” (referência ao hypado músico brasileiro), e as lisérgicas “Clear”, ‘Embarrased’ e principalmente ‘I’ll Glady Myself Below You”. Matty entrega um disco que poderia ter sido gravado em 1970, mas ainda infectado pelo ZEITGEIST ao conter a cuidadosa produção de Frank Dukes, o homem por trás de discos de gente como Frank Ocean, the Weeknd e Kendrick Lamar. (PL)

While She Sleeps – You Are We

Desde 2010 eu não via coisas realmente boas e diferentes daqueles breakdowns infinitos e zero-zero-um nas guitarras para fazer a música soar “brutal”. Faltavam os riffs muito mais influenciados pelo metal e não pelo djent. While She Sleeps me deu a sensação novamente de escutar alguma coisa muito boa no subgênero mais odiado, um gostinho do passado no defasado presente. A capa é uma das coisas mais feias que eu já vi, mas o som compensa, eu juro. (JP)

Cremalleras – Mercado Negro

A dupla Violeta (guitarra e voz) e Daniel (bateria) é do México. Guitarra suja, bateria rápida, vocal gritado e o ar de revolta com as situações cotidianas. Pouco mais de dez minutos dura o disco que foi lançado em vinil 12″. O título do disco é de uma música que fala exatamente sobre o mercado negro de órgãos, assunto comum quando se trata de oprimir ao extremo quem tem pouco e pode contribuir com a continuidade da vida de algum milionário. Não é ficção. O disco segue falando de pestes, doenças, os olhares atravessados na rua, o caos mental que pode levar ao suicídio. (HM)

Alceu Valença – Mágico

Mágico vem na ponta final de um cordão de discos incríveis gravados por Alceu nos anos oitenta (começando com Cinco Sentidos e indo até Anjo Avesso) e naturalmente sofre em comparação. Mas nem por isso merece ser ignorado, haja vista o alto nível de composições que continuam a explorar o elo entre o Nordeste e a eletricidade, como “Cambalhotas”, “Dia Branco” (homônima à canção de Geraldo Azevedo) e “Solidão”, talvez a mais conhecida do disco. Aos que buscam traçar as raízes do mangue beat, “Casaca de Couro” e “Maracatu Colonial” valem como teste de paternidade indiscutível. Bônus: no YouTube tem um making off do disco, gravado na Holanda.  (AP)

In Solitude – The Wolrd. The Flesh. The Devil

Excelente disco que apareceu numa época em que alguns gêneros da música estavam sendo influenciados pelos sons dos anos 70, como foi com o Ghost e com o The Devil’s Blood. Eles acabaram em 2015, mas enquanto estavam ativos eram bastante elogiados por bandas de black metal suecas e rapidamente começaram a rodar em turnês com eles. Para quem curte muito a fase antiga do Mercyful Fate gostar do disco é inevitável. Ainda há quem não conheça a banda, ela é uma daquelas que serve para captar bem a essência de uma época e correr atrás de ouvir todas as influências que deram toda a base de referências de suas músicas. (JP)