Diário de turnê: Sem sair na Rolling Stone – Férias da Desgraça

por em terça-feira, 6 março 2018 em

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No apagar das luzes de 2017, o conjunto de música feia e dançante Desgraça percebeu que dali pra frente era só ladeira abaixo e embarcou em sua primeira turnê nacional. Com o disco Ladrão debaixo do suvaco, rodaram boa parte do Brasil profundo sem nunca terem ensaiado mais que cinco vezes, colecionando causos, perrengues e zuadas variadas noite adentro.

Quando essa saga ia mais ou menos da metade pro final, alguma coisa me fez mandar uma mensagem pro Felipe Soares (baixista da Desgraça e cantor/guitarrista da Amandinho, entre outras coisas) e convidá-lo a escrever um relato sobre a turnê. Assim mesmo, na cara dura, sem justificativa nenhuma. Na cara dura, ele topou e o resultado é o belíssimo exemplo de prosa punkroqueira que você lê abaixo.

Quem chegar até o final, vai notar que Felipe faz referência a um disco que a banda estaria gravando e deveria sair no dia 28 de fevereiro do corrente. O texto deveria ter saído antes, mas como só saiu agora, já no meião da segunda semana de março, você também poderá ter o prazer de ler enquanto ouve o saracoteante Madrugada, segundo petardo do trio Desgraça.

Aperte o play, boa leitura e boa sorte. (AP)

Texto: Felipe Soares
Revisão: Vitor Brauer

“Eu vou matar todo mundo! Eu vou matar todo mundo!” gritava Rodolfo Lima – a quem me referenciarei nesse texto como Rodrigues – enquanto tremia, levantava os braços e trombava nas pessoas. No primeiro show do Desgraça, na Obra Bar Dançante, em Belo Horizonte/MG, tivemos uma ideia de como seriam os próximos dias e do esforço físico e mental de cada um deles. Saímos de nossas áreas maceioenses e valadarenses para tocar música rock, arrumar problema pra resolver e viver uns momentos daora, assim como qualquer banda que sai em uma turnê independente, marcada na internet diretamente com amigas, amigos, fãs e produtores locais. Na verdade, o Vitor faz esse negócio de turnê direto tem alguns anos, mas eu e Rodrigues fizemos uma ou duas vezes antes dessa. Nós temos um disco gravado e não ensaiamos nenhuma vez antes de gravá-lo, o ‘Ladrão’. Em sua última passagem pelo Nordeste, quando desbravava o Brasil junto ao soldado Jonathan Tadeu e o vaqueiro Fernando Motta, Vitor Brauer – a quem me referenciarei nesse texto como Vário – abriu uma conversa no Whatsapp comigo e Rodrigues e deu a ideia de montar uma banda animada, pesada e dançante, com um nome de banda que ele sempre quis ter: Desgraça. Ele nos mandou um disco do Krallice, outro do Nails, falamos sobre alguns sons da Madonna, mandamos alguns discos de volta, escutamos uns aos outros e de repente estávamos colocando quatro pratos de condução na bateria do estúdio da casa dos meus pais, em Maceió, gravando nosso primeiro disco. Compomos e gravamos ao mesmo tempo, em cinco dias; Vário, que é muito desenrolado, mixou e masterizou em duas semanas; lançamos na terceira.

 

Apenas que… Hoje tem mais. Na MOTIM, no Rio de Janeiro, a partir das 17 horas com @noguchihugo.

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“Primeiro show da turnê, em Belo Horizonte.”   Um mês depois o mesmo Vário deu a ideia de fazermos uma turnê nas férias de fim de ano porque achou pouco ter passado o ano dormindo em chão e fazendo show no Brasil inteiro nas últimas duas “Sem Sair na Rolling Stone”. Evidentemente adoramos a ideia, nos programamos e aqui estamos, no meio de mais uma aventura que se confunde entre trabalho, diversão, drogas, amizade, amor, vida, missão, alegria, tristeza, perseverança, preocupação, devaneio, niilismo e felicidade, e que não é tão difícil assim de acontecer se você leva arte minimamente a sério. Somos um trio (baixo/voz/bateria) que toca um som pesado e barulhento, totalmente preso a uma beleza estranha, que é a beleza da violência, da liberdade, dos sentimentos e emoções presentes nas sagas das histórias que contamos. Dia 15, em Belo Horizonte, foi a primeira data da turnê, dando partida à convivência exagerada entre nós, o carro de Vário – o Interceptor, um Corsa 96 bem true -, as cidades, as galeras das cidades, os podcasts do Jovem Nerd e do DJ Rogerinho, as 2700 músicas no cartão SD e os dois audiobooks do Game of Thrones. Nosso primeiro show foi empolgante e um pouco assustador para nós mesmo, pelo fato de que ensaiamos 3 vezes na semana do show e na vida, ou seja, 3 ensaios at all para começar uma turnê nacional. Então, estávamos um pouco tensos na Obra, principalmente eu e meu parceiro de crime Rodrigues. Mas quando a turma falou que foi do caralho, percebemos que tudo continuava se encaixando e seria uma turnê fodaça. A apresentação dos amigos do Grupo Porco de Grindcore Interpretativo foi belíssima, assim como a cana e outras coisas que experimentamos naquela noite mineira. No dia seguinte, 16 de dezembro, chegamos fácil no Rio de Janeiro e na Motim. Yukio se apresentou bonitamente no fim do dia e logo depois fizemos um show quente e sofisticado, com a galera se despindo, descendo até o chão e derrubando tudo, melando a porra toda e mostrando como a juventude pode se divertir com pouca coisa e pouca roupa mesmo. Vendemos nossas camisetas e pisamos a pé com nosso bonde para o centro, para tomar umas doses e fumar uns becks. Evidentemente, Vário repousava trabalhando enquanto eu e Rodrigues curtíamos a night, que acabou durando até a pelada com a turma da Tom Gangue, em Queimados, na baixada, às 11h do dia seguinte, quando jogamos futebol virados e putos da vida, sem nenhum respeito um pelo outro, sob um sol mais que brutal. De lá, voltei para a capital, onde fiquei com Ingrid, minha boyzinha, até três dias depois, quando Rodrigues e Vário cansaram de ouvir tiroteio e fomos pegar a estrada e tocar um dia atrás do outro porque estávamos no meio de uma turnê. Era dia 20, quarta-feira, e pisamos. Passadas duas horas de viagem Vário atenta para um barulho estranho, super baixinho, que eu afirmei ser nada, mas aí, logo em seguida, surge uma fumaça do lado direito do carro e um barulho muito alto como se o próprio satanás estivesse cutucando a lataria. Paramos, obviamente, e constatamos que uma parte de trás do carro tinha caído, e um pedaço de metal se inclinou aos poucos, adentrando a borracha límpida do pneu direito-traseiro, destruindo sua possibilidade de uso. Trocar o pneu não seria suficiente, sendo que o ferro continuaria alí, furando os próximos pneus, algo um pouco chato, não é mesmo? Então pegamos o martelo de Vário, sempre preparado e confiante, e batemos no ferro até o mesmo ficar envergado pra fora, mostrando toda sua graça e despojamento metálico. Seguimos viagem, chegamos em Campinas, onde fizemos um show legal num bar massa da turma do hardcore, o Bar do Zé. Tocamos com as meninas super gente boa da Tosca e o cara do Leila. Depois, pisamos diretaço para Sorocaba, para dormir na casa do Guinco, amigo de Vário que virou amigo nosso e hoje nós amamos ele.    

Hoje é o show em Campo Grande e hoje nos despedimos do Ginko que foi uma luz brutal pra gente nessa turnê. Nosso guru espiritual nosso pofexo nosso terapeuta. É um privilégio ser amigo de uma pessoa tão talentosa e caridosa igual o Ginko. Quem não conhece recomendo. Uma publicação compartilhada por Vitor Brauer (@vitorbrauer) em

“Guinco e Interceptor.”

 

Dia 21 e nós acordamos tarde, fizemos aquele almoço metade vegano metade carnista e fomos para o rolê na Sound, onde a Desavanço, banda do Andrei com o Guinco e mais um broder, abriram a noite punkeiramente. Depois nós tocamos, sem entender muito bem o que estava acontecendo, vendo a turma curtindo pra caralho e estranhamente cantando alguns dos nossos sons. Foi um dos melhores shows da turnê. No outro dia, 22, comemos bem na casa da família do Andrei e pisamos pra São Paulo, onde eu fiquei na bilheteria, Vário foi o técnico de som e Rodrigues não sei o que ele fez. Mas na Associação Cultural Cecília a turma jovem – show com público mais jovem da turnê – estava tão desanimada durante nosso show que quebraram um vidro com a cabeça de um jovem no meio da roda, que nem era essas coisa toda. A apresentação de Theuzitz e banda foi mó daora. Obrigado pessoal do Cérebro Surdo!

 

desgraça (naquele pique)

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“Pessoal se divertindo no show em São Paulo.”   Na manhã do dia seguinte, 23, fomos tirar umas fotos profissa com o amigo de Vário que nos hospedou, o Tiago Baccarin, fotógrafo e bebedor de cachaça gente boaça. Depois partimos direto para o Paraná, para Curitiba, com Guinco no carro. O mesmo Guinco começou a gravar nossas conversas e pequenas entrevistas com pessoas do rolê para um possível podcast que ele vai criar no futuro. Essa ideia é muito legal e tenho certeza que vai gerar um resultado incrível. O Interceptor performou maravilhosamente bem e em CWB colamos direto no pico do show, como sempre fazemos, sem exceção. Na Casinha tocamos para poucas pessoas, foi o show com menos gente da turnê, o que foi legal também e deu espaço para prestarmos mais atenção no que poderíamos melhorar em nossa apresentação, musicalmente falando. Ainda estávamos pegando a manha dos instrumentos e das músicas, mas daí pra cima só melhorou. Os meninos da Caos e da Calendário Maia também mandaram bem. Dormimos na casa do Richardyson, que organizou o evento, e no outro dia saímos não tão cedo para Florianópolis.  

Aooooo sulzera. Hoje tem Criciúma e aí já vamos subindo pra Campo Grande, Goiânia e Brasília. Uma publicação compartilhada por Vitor Brauer (@vitorbrauer) em

“Trecho de ‘Cocaína’ em Floripa.”

 

Fomos muito bem recebidos pela Nay, professora e agilizadora de rolês na capital de Santa Catarina, e era Natal, feriado que dessa vez celebramos numa nice, sob o espectro singelo da amizade. “A amizade move o mundo”, disse Vário em tom morno. Rodrigues acendeu o vigésimo oitavo cigarro do dia e afirmou não acreditar em nada. Mais um dia em nossas vidas, e de repente estávamos no Taliesyn, no dia 25, com uma galera massa, pondo nossas máscaras e luvas rasgadas, prestes a começar o show. Foi foda ver a galera curtindo o final de “Homem” enquanto Rodrigues chupava a língua do Tefo e eu e Vário tocávamos com uma força um pouco maior que a que temos normalmente. Coisa Horrorosa e Calendário Maia agitaram a galera muito bem, garantindo a diversão da noite. Vale dizer que esse show também está no top da turnê. Dia 26 acordamos correndo em direção a Criciúma, onde fomos recebidos na praia do Rincão pelas amigas do Guinco com um rango fodaço. Foi uma espécie de sonho essas horas com Duda, Manu, Tiani e Bruna. Passeamos no lago, jogamos uma pelada com os habitantes locais e fomos para o estúdio Meteoro, onde rolou o evento, organizado pelo generoso Diogo. Lá, como era um estúdio, deixamos tudo bem alto nos bons equipamentos e nos divertimos junto com a galera no único rolê que Vário tocou embriagado. Descansamos na casa da Tiani e logo estávamos de volta em Floripa.

 

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“Na estrada entre Florianópolis e Criciúma, com Nay e Guinco.”   Pegamos nossas coisas na casa da Nay e partimos para Curitiba na mesma hora, onde dormimos, pois era longo o caminho até Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Dia 28, deixamos Guinco na rodoviária e lá fomos nós encarar aquelas 14 horas de estrada defeituosa, tortona, com pouca sinalização, poucos postos, porém recompensada por paisagens incríveis e por um role doido num lugar chamado Resista, com boas bandas locais – Intervenção e Cinturão de Fótons – e uma ótima banda dali de perto, a macumbapragringo. João organizou muito bem o evento, deu uma galerássa e deu uma grana fundamental pra gente. O único problema da noite foi que estávamos na estrada o dia todo, há mais ou menos 15 horas e tínhamos que dirigir até Goiânia logo depois do show, por causa do horário que tocamos. Sem tempo para dormir fora do carro ou viver em sociedade, fiquei por conhecer melhor as sublimes opiniões de Vário e o humor alcoólico de Rodrigues em mais 9 horas de estrada até Goiânia. Tomamos um banho na casa do Omar e partimos. Meio da tarde do dia 29 e chegou minha vez de dirigir. Estávamos no meio do nada e Vário, que comemorava 29 anos de idade nesse belo e tranquilo dia, havia pilotado 8 horas no dia anterior e das 5h às 12hrs no dia 29, e faltavam ainda seis horas até Goiânia. Pisei fundo e confesso que ultrapassei a velocidade permitida pelo Interceptor, o que somado ao tempo de uso do motor e a necessidade do acontecimento, fez o carro perder toda força numa subida. Só deu tempo de puxar para o acostamento, e ali mesmo ficamos. Sem dormir por mais de 3 horas há pelo menos dois dias estávamos numa situação muito confortável, pois tínhamos que tocar de noite a duzentos e cinquenta quilômetros de onde estávamos e nosso veículo não dava nenhum sinal de funcionamento. Pelos nossos cálculos, poderia ser a correia dentária (sic) ou a bateria. Um senhor de bicicleta que saiu do mato me informou que no horizonte havia um posto e talvez uma borracharia. Mal falei isso a Vário e ele desatou numa corrida em busca de uma solução no desconhecido. Começou a chover. Meu celular e o de Rodrigues não funcionavam e estávamos precisando cagar. Mandei numa boa atrás dos matos da via local, mas Rodrigues não teve tanta sorte, pois enquanto estava nu com o dejeto quase caindo, um carro vermelho surgiu em sua frente, vindo do mato, do nada, interrompendo seu prazer de cagar em paz. Mas ele conseguiu fingir que não viu a pessoa olhando tensa pra ele e terminou o serviço. Foi o que ele me disse. O tempo foi passando e Vário não voltava do além, e o máximo que conseguimos foi o número de um guincho com um maluco que parou pra tentar nos ajudar. De repente Vário desembarca de um carro estranho, sorrindo e desejando feliz ano novo para o motorista. Ele havia conseguido alguém para trazer uma bateria nova. Acreditávamos e quase rezávamos para que o problema fosse a bateria. O boy chegou de moto e… não era a bateria. Suspiramos em conjunto. Vário pegou a arma no porta luvas e atiramos em nossos peitos. Mentira. Na verdade, o boy da bateria sabia de um mecânico gente boa na cidade de Rio Verde, um tal de Kenin, que estaria trabalhando naquele dia de fim de ano que ninguém trabalha. O problema foi a logística toda envolvendo o problema no carro. Pois era dia 29, sexta-feira, 16 horas, e todos os mecânicos de todas as cidades estavam trabalhando pra entregar os carros até as 18 horas e só voltariam a trabalhar dia 2 de janeiro. Era grande a possibilidade dele não resolver nosso problema e ficaríamos ilhados até o dia dois em Rio Verde. O maior problema era que teríamos que perder o ano novo em Valadares e cancelar os shows de Goiânia e Brasília, pois não tínhamos muitas esperanças no conserto do Interceptor, que não costumava se comportar dessa forma, parando de funcionar do nada e tudo mais. Vário ligou para o guincho e não pestanejou na sua esperança. Fomos direto para a mecânica de Kenin em Rio Verde. Tudo coube no orçamento da turnê. Chegando na mecânica, Kenin descobriu que, além da correia dentada, que ele pediu pra buscar na hora numa loja vizinha, duas válvulas haviam empenado e talvez o carro não voltasse a funcionar facilmente. Mas trocando a corrente havia uma chance dele voltar a vida e ter como dirigir com muita calma e paciência até Goiânia, no máximo. A correria deu certo, Kenin trocou a corrente e o carro ligou quase morrendo. Ainda era dia, mas o relógio marcava quase oito da noite e nós saímos de Rio Verde com o Interceptor imitando um Fusca 72 ou um Caminhão de 1960, no máximo. Subindo ladeiras na primeira marcha e com um medo real do carro morrer de novo, chegamos em Goiânia e no apartamento do Chrisley, da banda Lutre, umas dez da noite. Tomamos banho e corremos para o Complexo – bar, estudio, casa de shows, lugar de drogado que visitamos e fizemos nossa apresentação. Vário apresentou mais amigxs e pessoas reais de Goiás e arredores, Rodrigues bebeu de graça, contamos diversas vezes a história de como quase tudo deu errado naquele dia, vimos o show muito bom do Hellbenders e de uma outra banda que não lembro o nome e tocamos muito alto. O baixo soava estrondoso e muito grave, o vocal alto e definido, a bateria tava tinindo no espaço pequeno, apenas com microfonação no bumbo, na medida. Gastamos ali toda a energia que o Interceptor gastou naquele dia cheio de loita pra resolver, e talvez por isso foi o melhor show da turnê. A gente queria tanto tá ali e por tão pouco não chegamos que foi mesmo uma realização o momento do show, marcando um aniversário brutal de Vário. A galera tava tão violenta e gostando tanto da apresentação que Rodrigues teve de fugir do público em alguns momentos pois ele não tava aguentando, coisa rara de se ver. Ficou todo mundo tão louco nesse dia que nós e os amigos do Complexo esquecemos de passar o chapéu pra pegar a grana do dia. Se isso não é sintomático eu não sei o que é, valeu a pena pra caralho esse show.  

Hihihi Goiânia Uma publicação compartilhada por Rodolfo lima araujo (@rodolfopopfuzz) em

“Em toda cidade eu e Rodrigues tiramos uma foto olhando pro lado e pondo a legenda ‘hihihi o nome da cidade’, como se pode ver no Instagram dele.”

 

Era quase manhã do dia 30 quando acabou o evento e fomos pra casa, dormir bem pouquinho e partir para Brasília e depois ir direto para Valadares. Cinco minutos na estrada e uma chuva mais que brutal nos arregaça, fazendo, evidentemente, o carro morrer. Muita tensão, pois não podíamos mais gastar com guincho, mecânico, peça e perder nenhum minuto. Mas Vário é obstinado e na chuva torrencial descobriu e enxugou o ‘cebolão’ alagado, próximo ao motor. Interceptor respirou fundo e de súbito ligou. A essa altura Ned Stark já tinha sido assassinado e Joffrey já era rei. De repente estávamos em Brasília, chegando no Espaço 23, onde foi o evento. Aos nossos olhos aquela cidade parecia ser mesmo do futuro, estranha mesmo. A banda Toy Fungus fez seu primeiro show e emprestaram os cubos de guitarra e baixo para tocarmos. Galera era firmeza e curtiu bastante o nosso show, principalmente Anderson, que organizou o rolê e dançava singular e maravilhosamente, mostrando sensibilidade e talento enquanto pessoa. Agradecemos a todas e todos e partimos, logo depois do show, em nossa jornada até Governador Valadares – 15 horas de viagem.

“Mas eu amo Joffrey, Cersei. Eu juro que o amo e serei uma esposa irreprovável se me deixar casar com ele”, disse Sansa à rainha enquanto se ajoelhava e chorava desesperadamente. Foi nesse pique que passamos uma longa noite na estrada escura e cheia de pedágios que liga o Distrito Federal a Minas Gerais. Depois de dirigir na madrugada e ver Rodrigues se esforçar pra não dormir, chegamos na parte mais tensa da estrada, em Minas, e Vário acordou e assumiu. Não lembro de mais nada porque dormi e acordei na casa da mãe de Vário, em Governador Valadares, capital do vôo livre, no dia 31 de dezembro. Havíamos chegado inteiros, com o carro no mesmo estado do momento: por si só, uma espécie de milagre contemporâneo. Era o último dia do ano e descansamos e festejamos de noite com Vário, sua namorada, sua família e seus amigos de Valadares e de BH que compareceram. Os próximos quatro dias, passamos dormindo, comendo, vendo filme, trabalhando pouco e bebendo com todos os amigos presentes. Existe uma conexão entre Valadares e Maceió, parece que todas as pessoas são em medida desregulada auto-destrutivas e muito interessantes, e estão sempre cruzando a linha entre a loucura e a estupidez. É só uma teoria.

 

ALÔ VITÓRIA! HOJE TOCAMOS AÍ A PARTIR DAS 22 HORAS NO STONE PUB! Passando aqui também pra dizer que eu criei um tumblr pra upar essas foto que tô tirando dessa câmera digital zuada que achei aqui em gv. Só procurar aí http://vitorbrauer.tumblr.com

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“Kennedy, Gari e eu em Valadares.”   Dois dias antes de sairmos para o Espírito Santo e o Rio de Janeiro, o cara do evento de Realengo, baixada carioca, cancelou o rolê e ficamos sabendo por uma postagem no evento do Facebook. Depois ele disse que teve infecção intestinal e entendemos. Tentamos muito, mas não conseguimos marcar um show no Rio nesses dois dias, o que foi algo terrível de cara, mas superado após o ótimo rolê em Vitória. Dia 5 de janeiro e Suzanne e Jordana foram conosco. Chegando em Vitória fomos bem recebidos pela Jujs, tinha comida sem glúten na cidade, o Stone Pub tava cheio, o show da Whatever Happened to Baby Jane foi massa pra caralho e nós vendemos muito merch mesmo. O rolê em Vitória foi tão perfeito que a gente tava começando a pensar que seria difícil eleger o melhor show da turnê. A corda Lá do meu baixo pocou no meio de uma improvisação na metade do setlist, deixando o show mais louco ainda pra mim. Agradecimentos ao Arthur e a Mariah que ajudaram na organização toda. Vazamos do Stone Pub, dormimos um pouco e no dia seguinte, 6, saímos cedo e chegamos tarde em Minas Gerais. Já que o rolê no Rio foi cancelado, fomos aproveitar a casa da Jordana em Mariana e passear por Ouro Preto. Vário mais uma vez dirigiu tudo da melhor forma possível, com muita cautela e ideias na cabeça. O carro estava consertado já, a viagem era outra.  

Aooooo Vitória foi bom demais carai, um dos melhores shows da turnê! Muito obrigado a todo mundo que foi e quebrou tudo, a whatever happened to baby jane e todo mundo da organização que fez um trabalho perfeito, quem dera todos os shows fossem assim. Valeu mermo! Domingo a gente TOCA EM BH no reveillon da Geração Perdida no MATRIZ! Vida longa Vitória e Vila Velha! Uma publicação compartilhada por Vitor Brauer (@vitorbrauer) em

“No Stone Pub, em Vitória.”

De repente o sol me acordava no centro de Belo Horizonte, estávamos sem comer há muito tempo e era dia 7, dia do grande Réveillon da Geração Perdida na Matinê da Saudade, no Matriz. Eu e Rodrigues nos alimentamos e fomos para o pico, onde teve show de todos os artistas da Geração. Foi um dia sensacional em que pensamos  sobre o talento de nossos amigos e de todo mundo interessado e envolvido com aquela cena específica. Tocaram Pedro Flores, Wagner Almeida, Porquinho e Batista, Fernando Motta, Paola Perdida, Quase Coadjuvante, Fábio de Carvalho, Aldan e Desgraça. Deu uma galera grandiosa e todos os shows foram fodas. Depois fomos beber. No outro dia demos um rolezinho bonito no mercado com xs amigxs e jantamos na casa do Batista, que me deu uma corda Lá nova em folha (eu tinha tocado o show em BH com o baixo do Fernando Bones, um salve pra ele). Na madrugada do dia 9 Vário buscou a mim e a Rodrigues na casa de um broder do Cícero (da Lupe de Lupe) e pegamos o beco de volta para Valadares. Mais uma vez dormi numa cidade acordei na casa da família de Vário. Comecei a duvidar da realidade, era talvez a segunda vez que isso acontecia.

 

Muito obrigado Geração Perdida e todos os 130 loucos e loucas que encararam 8 horas de música ontem no Matriz. BH I HATE YOU BUT YOU BRINGING ME UP! Foi bonito demais ver todos vocês ontem. Próximo show é sexta em Salvador.

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“Tocando ‘Eu Já Venci’ no Réveillon da Geração Perdida.” Ficamos planejando os próximos dias e anos de nossas vidas, assistindo MTV, fumando cigarro e jogando bola com a turma valadarense. Aproveitamos e assistimos o novo do Star Wars no cinema local. Na sexta-feira, dia 12 de janeiro, Kennedy, nosso amigo que nunca havia chegado perto do Nordeste ou de qualquer praia, juntou-se a nós. Saímos 5h30 para ter vários problemas técnicos no carro e encarar os 1200 km até Salvador. Foram 16h de viagem e, chegando lá diretamente no Bukowski Porão Bar, fizemos um show suado e escuro para as punks e os punks presentes, inaugurando bem os rolês no Nordeste. Tocaram Zaul e The Honkers, que fez um show maluco e foda. Nossos amigos da Ximbra estavam lá, assim como o ótimo Cairo, que produziu o evento. Chegou a hora de vazar, iríamos dormir na casa da Laís, amiga do Kennedy, mas Interceptor, que já tinha pedido duas trocas de pneu e um conserto de trava de cinto só nesse dia, foi mais longe. O pneu esquerdo traseiro de repente estava com um corte na borracha, que estava solta, batendo na lataria e fazendo um barulho absurdo sempre que o carro se movimentava, tornando os 12km até a casa da Laís uma viagem lenta e dolorosa, perpassada nas avenidas vazias, sob a madrugada quente e sombria da capital da Bahia. O carro podia parar a qualquer momento e não havia vida nos arredores, só os carros que passavam por nós com gente fazendo sinal de “se fuderam, otários” pela janela, mas o destino é cabuloso e conseguimos chegar. O Interceptor conseguiu! Dormimos maravilhosamente bem e no dia seguinte consertamos o pneu, fomos à praia e descansamos. Kennedy viu e sentiu o mar pela primeira vez em 25 anos. “A água é mesmo salgada!”, disse ele enquanto se movimentava tentando imitar os movimentos das pessoas que nadavam ao redor. Em casa cozinhamos e dormimos mais. Nesse dia, Rodrigues tocou com sua banda Ximbra em Salvador e nós pudemos ter um dia pra descansar. No dia seguinte, 14, a viagem até Maceió teria sido mais tranquila se perto de Sergipe um policial corrupto não tivesse pedido educadamente R$195,00 pelo rachado no vidro. Não podemos dizer se pagamos ou não, ou se isso é verdade ou não, pois corrupção passiva é crime. Enfim, algumas horas depois estávamos na casa da minha família em Maceió, Alagoas. De cara começamos a produzir o disco, pois Vário já tinha muitas ótimas ideias engatilhadas. Rodrigues se ausentou pela vida mundana e voltou três dias depois, quando já tínhamos gravado uma boa parte do instrumental. Então fomos para Recife, no dia 19. Foi o primeiro rolê que fizemos na Mansão do Amor e, apesar dos atrasos e dos menores de idade que não puderam entrar, o som estava ótimo e o show foi bizarro de bom, tanto o da minha banda Amandinho quanto o da Desgraça. Tentando diminuir a dor em nós e em todos que a conheciam, dedicamos o show à Mari, uma amiga minha muito querida e talentosa que faleceu dois dias antes do evento. Ela adorava o Desgraça e ainda estou tentando aceitar que não a verei de novo, mas sei que isso o tempo há de curar.  

Show em Recife foi foda e ontem o Guaiamun também. Hoje tocamos em Maceió a partir das 6 da tarde no Pub Fiction. Tocaremos alguns clássicos da Lupe de Lupe também então quem curte pode comparecer. Uma publicação compartilhada por Vitor Brauer (@vitorbrauer) em

“Mandando ‘Religião’ em Recife.”

Desse dia pro outro dormi 3 horinhas e de repente estava cansado e fodido no sol escaldante de Aldeia, esperando a passagem de som da Amandinho no Festival Guaiamum Treloso, no sábado, 15. Com os atrasos da produção nossa passagem foi cancelada e fomos a única banda do festival a tocar sem sequer passar os volumes. Mas foi divertido pra caralho, estava todo mundo lá, incluindo o Andrei (lembra do nosso amigo de Sorocaba?) que fechou o festival com sua incrível banda Francisco El Hombre. Tomamos meio papel cada para aguentar o dia inteiro de festejos. Vimos tudo e voltamos destroçados e famintos para casa. Acordamos em cima da hora, era dia 16 e corremos pra Maceió, para o Pub Fiction. Toquei primeiro com a Rigby, projeto indie roquista da minha irmã Julia, e depois com a Desgraça. O microfone de Rodrigues estava com defeito, então eu e Vário, durante algumas músicas, tocamos sozinhos rápida e pesadamente. Algumas pessoas que assistiram mais de um show disseram que esse foi o show que a gente mais tocou. Parecíamos dois demônios. Capona fechou a noite com seu show que levou até familiares ao salão e ajudou a gente demais com a bilheteria.

Nossa, já tem muito texto e ainda tem a última leva de datas. Me perdoe Deus, se é que existes… Mas acontece que como estávamos em Maceió continuamos na produção do disco, sem folga, até irmos para o interior do Ceará, no dia 21. O dia inteiro viajando e de noite chegamos na casa do Luiz, em Juazeiro do Norte. O show foi no Raul Rock Bar, com uma banda de thrash metal, a Úlcera. A galera era mais que gente boa e mesmo com a chuva que tava rolando algumas cabeças colaram e o rolê foi muito foda. Esse rolê em Juazeiro do Norte foi outro providencial para a turnê, Vário fez questão de ressaltar: do ponto de vista monetário e logístico Campo Grande, Juazeiro do Norte e Vitória salvaram a turnê de ser um desacerto. Estávamos na reta final, obcecados por fazer os últimos dois shows e terminar o disco. Decidimos então não dormir em Juazeiro e ir direto para Fortaleza, logo depois do evento. A viagem foi tensa, muito tensa, pois não parou de chover um segundo nas 7 horas até a capital e a estrada era uma loucura na primeira metade. Vário se garantiu mais uma vez e dirigiu tudo sem dormir, o cara é uma máquina.

 

Desgraça

Uma publicação compartilhada por Rodolfo lima araujo (@rodolfopopfuzz) em

“No Raul Rock Bar, em Juazeiro do Norte.”   Era dia 27. Descansamos um pouco na casa do Marcelo Diniz, amigo poeta de Belo Horizonte que hoje mora em Fortaleza, e fomos para o Cena Casarão passar o som e começar o evento. Continuava chovendo e por isso não deu tanta gente. Mas quem não foi, sinceramente perdeu porque foi uma noite muito foda. Lenildo e Allan fizeram acontecer e são parceiros de sempre. Monquiboy-Boo fez um show doido, nós tocamos e vimos as pessoas endoidarem e curtirem o peso da nossa penúltima apresentação da turnê, e depois o Frabin, lá de Floripa, que já conhecíamos de outras estradas, mandou muito bem num show que assisti chapadásso. Depois fomos dormir na casa do Marcelo, um oasis no meio de tanta loucura. Vale dizer que em Fortaleza reencontramos, além do Frabin, também nossa grande amiga Bia, que hoje mora no Rio de Janeiro e foi no show lá também. Abraço Biazera! Dia 28 de janeiro e em seis horinhas de viagem estávamos em Natal. Colamos direto no Alchemist, onde tocamos com a Heresia, a Insane Madness e a Born to Freedom. Teve campeonato de Mortal Kombat de Super Nintendo e muita gente legal no evento. Estávamos com muita vontade e suamos bastante no que foi o último show da “Sem Sair na Rolling Stone – Férias da Desgraça”. Dormimos na casa da Mari e do Shiltinho, onde sempre nos sentimos muito bem, e no dia seguinte pisamos pra Recife. Shilton sempre um salvador de pátrias em Natal eu digo. Ainda conseguimos marcar um rolê acústico para o dia 31 na Rouge Creperia. Toquei meia hora e Vário mandou 3 horas e meia de voz e violão, atendendo todos os pedidos da turma interessada que apareceu. Em Maceió faríamos outro show acústico, mas não deu certo e nos concentramos em finalizar o disco. Vário não parava de mixar nem por um segundo durante todos os dias até o dia 6 de fevereiro, quando tudo acabou e ele e Kennedy pegaram a estrada de volta para Belo Horizonte.  

meus primos vazaram pra valadares e não tenho mais com quem brincar… corsinha renovado atrás e muitxa amizade na frente 💥 Uma publicação compartilhada por Felipe Soares (@felipesdds) em

“Eu, Vário e Kennedy momentos antes deles vazarem de Maceió.”

Ou melhor, tudo poderia ter acabado… Se no interior da Bahia um maluco não tivesse aparecido do nada nas estrada e os meninos não tivessem o atropelado. Infelizmente isso aconteceu, e eles ficaram na cidade de Conde até resolverem tudo; uma odisséia da qual não fiz parte pois em só um dia eles fizeram o que em situações normais demoraria um mês. Atropelaram um bróder, salvaram a vida do cara, passaram 12 horas conversando com policiais da polícia rodoviária estadual, foram liberados pela polícia, pois não foi proposital, conversaram com a família para ver se tava tudo tranquilo, convenceram o delegado da cidade para liberar o carro antes da perícia mesmo o carro estando no nome de outra pessoa, chamaram guincho pra levar o carro a uma cidade 70 km distante, trocaram o parabrisa dianteiro, pois estava destruído, e finalmente pegaram 15 horas para Governador Valadares, pois era o objetivo da viagem. O que importa é que o rapaz que foi atropelado não se machucou muito e passa bem. Segundo a população local esse cara já foi atropelado algumas vezes no mesmo lugar. Não que isso justifique alguma coisa, mas o cara é feito de ferro porque já foi até atropelado por um ônibus e passa bem. Os meninos fizeram o socorro dele e acompanharam o estado dele no hospital até irem embora.

Por fim, dia 28 de fevereiro sai nosso segundo disco, “Madrugada”, com seis músicas, de meia-noite a cinco da manhã, com elementos noturnos e de dance music, muita fritação pra toda a família. É isso. Que venha a próxima turnê no final do ano com mais loucuras e mais sortes e azares pra todos nós. Viver é foda.