O trio Devotos completa 30 anos sem se eximir da luta

por em quarta-feira, 10 outubro 2018 em

LinkedIn

O cenário político está posto e a luta é contra o fascismo. Bandas de rock, punk e hardcore principalmente, sempre foram responsáveis – nem todas obviamente – por lutar por meio da música contra racismo, homofobia, machismo, capitalismo e tudo que vai de encontro ao retrocesso. A Devotos está nessa luta há 30 anos. Lançou o disco O Fim Que Nunca Acaba que assim como o do Facada (CE) são álbuns que servem de trilha para os dias atuais e futuros.

O Fim Que Nunca Acaba da capa – feita por Celo e cheia de simbolismo – até o último acorde/letra cantada, passando pelas participações de Maestro Forró, Maciel Salu e Carlão, é um combate a tudo que vemos no dia a dia. Situações, atitudes reprováveis por qualquer pessoa minimamente civilizada. Infelizmente nem todos pensam assim e nossa luta tem que ser diária.

O trio Devotos é do Alto José do Pinho, um morro em Recife, onde eles promovem projetos sociais e viram a vida melhorar. Não com muita ajuda do poder público, mas ajuda deles e de outras pessoas preocupadas com a comunidade. A sonoridade que mescla influências é a mostra que as diferenças podem conviver juntas. Mas não associe aceitar e conviver com diferenças a discurso de ódio. Esse tem que ser combatido.

Violas, riffs de Metal, trumpete e rabeca, pegada eletrônica e até dançante do reggae estão lado a lado. Tudo embalado por letras que versam sobre o social. Sobre discriminação, sobre violência, sobre o poder que a religião exerce nas pessoas, sobre a vontade de morrer e de matar, sobre resistir e combater. O disco é o melhor do ano. Cumpre um espaço de discurso que hoje quase só vemos no rap, supre uma falta de posicionamento de tantas bandas. Destaco “Fé Demais”, “Dias de Vida” e “Não Desista”.

Abaixo três perguntas enviadas a banda e respondidas por Cannibal.

Ouvindo o disco ficou muito forte a mescla com outras influências, coisa que já vem dos outros álbuns. Como se deu essa mescla e as participações de outros artistas nesse disco?

Essa mescla já está em nosso DNA, cada um tem um gosto musical diferente mas a menta aberta para tudo que está rolando. Para nós isso é natural, moramos em uma comunidade que rola de tudo, maracatu, afoxé, rock, rap, reggae, brega, costumamos dizer que o Alto José do Pinho é uma rádio ligada em varias estações. Você sai andando pela comunidade e escuta de tudo. Musicalmente falando, essas junções no punk rock não é nada novo, Bad Brains já faz isso a muito tempo e o The Clash também, só para sitar duas bandas, mas tem várias novas e antigas que bebem da mesma fonte. O importante dessas misturas é ter identidade, ai sim você tem que ter cuidado quando faz, tem que ser natural e de coração sem querer forçar. As guitarras e violas feitas por Neilton tem muita propriedade, tem muita identidade, alem de ser muito inteligente, ele é um pesquisador do não convencional e consegue encaixar isso na sua arte principalmente na música. A batera de Celo é muito percussiva e isso enriquece nosso punk rock HC, somos definitivamente uma banda tupiniquim, conseguimos uma identidade musical, não é fácil para os puristas aceitarem mas escolhemos não ser só mas uma banda de punk rock HC, mas principalmente primeiro nos agradar e depois passar para as pessoas. Ter Maestro Forró, Maciel Salú e Carlão participando do nosso disco só confirma nossa diversidade cultural em Pernambuco, os ritmos são diferentes mas a temática são as mesmas, as verdades em nossas composições nos unem, estamos juntos e misturados na música e nos projetos.

O discurso social sempre foi forte no trabalho de vocês, tanto na arte de capa como nas letras. O atual cenário político e social foi enredo para as letras ou o contexto é amplo?

Os temas sociais nas nossas músicas sempre enfoca o cotidiano, mas não ficamos presos só nas mazelas políticas. Falamos do racismo, intolerâncias e etc. Mas tem uma coisa que sempre expressaremos: alto estima, valorização humana, você se sentir necessário, isso é essencial para mudar um quadro social. Politicas públicas precisam de pessoas que tenham ternura para mudar um quadro sociai, essa ternura está nas verdadeiras ONGs que tem compromisso moral com deveres e direitos do povo, nas rádios comunitárias. Realmente o contexto é amplo.

Nesses 30 anos de carreira como vocês veem as mudanças da comunidade de onde vocês são e no cenário local musical?

O Alto José do Pinho teve uma mudança muito positiva quando a Devotos (ex do ódio) mostrou a comunidade para o mundo. Antes disso o Alto era conhecido pela violência e o tráfico. Sempre teve o maracatu, as escolas de samba e o afoxé, mas as mídias sensacionalistas só subiam a comunidade para mostrar as mazelas. Em 1988 a Devotos surge e na sequência outras bandas. Devotos sempre foi mais ligado ao movimento punk, mas nunca tivemos separatismo com o que rolava na comunidade, mesmo poque somos nascidos e criados aqui, portanto antes de sermos músicos somos amigos. A mídia começou a dar uma atenção ao que estava rolando na comunidade e com o tempo estávamos quase todos os dias nas páginais culturais dos jornais, dando entrevistas nas rádios e TVs, isso alavancou a alto estima da comunidade, as pessoas começaram a ter orgulho de falar que moravam no Alto José do Pinho e nós como banda começamos as ações sociais na comunidade: Alto Falante, Rock Criança, Natal na alturas, montamos uma rádio comunitária na comunidade onde a comunidade usufrui muito e montamos em três outras comunidades rádios iguais a nossa. Hoje o Alto José do Pinho continua o mesmo lugar, visualmente falando continua a mesma coisa principalmente o descaso de politicas publicas. Exemplo: Uma creche, uma área de lazer… Mas a coisa mais positiva é ver os filhos dos nossos amigos fazerem ações sociais na comunidade e falarem que se espelharam em nós. O Alto Sustentável é um projeto maravilhoso, a ideia é tirar os lixos da rua e nos locais colocarem jardins. É um trabalho árduo porque a maioria das pessoas da comunidade é que colocam o lixo nas ruas, mas eles explicam a importância de não jogar o lixo nas ruas. É OUTRO PUBLICO, OUTRA GERAÇÃO, o rock hoje no brasil ainda tem bastante pessoas de público e de banda, mas as causas sociais estão na grande maioria feitas por suburbano que quer mudar um quadro social através da sua arte.