A Mulher Cromaqui e MC Ririca, Catarina Dee Jah, traz a Natal sua pesquisa sonora

por em terça-feira, 9 maio 2017 em

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Catarina Dee Jah pode ser novidade por Natal, já que não está nas rádios e faz muitos anos que soltou seu disco de estreia Mulher Cromaqui (2013). Mas ela é uma veterana da música, seja como vocalista ou como DJ, coisa que começou ainda quando criança, apreciando os vinis do pai e de um vizinho. O vício nos bolachões seguiu em frente e serviu para pesquisas musicais e para animar festas. Lá em 2013 Catarina já falava da força da mulher e em sua independência. Isso sem meias palavras em músicas como “Mulher Tira-Gosto”, “Kay Fora”, “Amufinada”  e “Raça Desunida” que fala da falta de unidade entre as mulheres, a sororidade. Catarina também trata de temas como alienação, desilusão amorosa e declaração de amor (Sarará), ou seja, temas do dia a dia que passeiam sonoramente por cumbias, bregas, punks eletrônicos e o que mais Catarina achar como meio para passar o seu recado que sempre é de luta.

Catarina vem a primeira vez a Natal não com banda apresentando seu disco, mas com sua festa Fogo na Shanah, sucesso por onde passa, e com seu novo projeto Mc Ririca, um lado mais arriscado, segundo a própria, e até meio que uma cobaia kamikaze.

Batemos um papo com Catarina sobre a vinda a Natal e sobre seu trabalho de DJ.

Por aqui está muito em voga esse tipo de festa com dj, mas pelo que sei seu trabalho se estende a uma pesquisa mais ampla musicalmente. Como isso começou e porquê?

Começei a colecionar LPs com 13 anos. Tinha um vizinho aqui em Olinda que ouvia muito brega roots, dor de cotovelo e merengue. Quando ele se mudou fiquei em busca dessa memória musical. Daí me perdia nos sebos, coisa que herdei do meu pai também. Naturalmente fui buscando compartilhar esse acervo com os amigos e fui me tornando DJ. Comecei a produzir festas e ajudar algumas bandas em suas pesquisas por referências.

O seu disco já apontava para uma diversidade sonora. Isso sempre norteou seu trabalho?

Eu fui muito influenciada pelos primeiros discos do Run DMC, Beastie Boys e Beck. Pirava naquele quebra-cabeça de samplers malucos de estilos totalmente variados. Iisso me influenciou bastante, esse lance de picotar e formar algo novo. Nunca me limitei em estilos ou ceninhas musicais. E os jamaicanos arremataram meu coração ao me mostrar que com pouco se podia fazer muito. O punk rock também ao instigar o conceito de autonomia. Até hoje busco esses pilares no meu trabalho artístico.

A fogo na shanah já aconteceu em vários lugares. Existe alguma seleção especial para cada festa/lugar ou segue uma linha já definida por você?

A Fogo na Shanah foi o terreno que criei para quebrar preconceitos musicais. Testar sets e pesquisas que ninguém ousava. É meio frustrante ver que o grande público demora a entender. E repetir, repetir, repetir é tedioso. Hoje é tudo muito ligeiro. Em uma noite te sugam um set que demorou anos de pesquisa com um simples Shazam em riste. Garotada tem que imaginar e respeitar quem veio de um mundo onde não existia internet e ter orgulho de ir pra festa e escutar a pesquisa que está sendo descorrida ali. Ir mais com essa gana de descobrir sons que nem imaginava que curtia em vez de querer ficar na zona de conforto e ouvir o de sempre. É claro que fico querendo harmonizar o set com os outros djs e bandas, imagino o público, mas vai saindo na hora.

Como é essa experiência com(o) a MC? Como rola o processo entre vocês?

MC Ririca é o meu playground. Ela que se arrisca no meu lugar, minha cobaia kamikaze. Tudo que o mercado careta não deixa Catarina fazer. Ela é casca grossa, já deu até um mata leão num cara que veio se inxerir pra cima dela no show. Eu aprendo muito com ela. Ela não sofre tanta pressão, não tem medo de errar, se entrega. Eu disparo as bases, mas as vezes a gente briga antes do show. Ela diz que eu sou fresca, que exploro ela, só porque eu fico com a maior parte do cachê. Tento baixar a bola dela, afinal eu que tirei ela do anonimato e tenho mais experiência. Estamos produzindo um EP dela com vários riddins e uma base do Jaloo também. Mc Ririca tem que me respeitar e eu aturo ela. Assim vamos. Acho que vai ser tudo na paz aí.