Debate sem meias palavras

por em quinta-feira, 27 novembro 2008 em

LinkedIn

Sergio Ugeda aparenta ser um sujeito despreocupado. De camiseta e bermuda, pés descalços,  exatamente a mesma indumentária com a qual minutos antes se apresentara com sua banda, o Debate, na penúltima noite da programação do Festival DoSol 2008, o homem recebeu a aproximação da equipe d’ O Inimigo com a cordialidade de um barman de barraca de praia. “Ôpa, tudo bem? E aí, que cês mandam?”, saudou do lado de lá, como que passando um copo de cerveja invisível.

Ainda um tanto desnorteados pela performance do grupo no palco da Casa da Ribeira – um experimento tão ousado quanto hermético, onde Sergio e o companheiro de banda Eduardo Ramos literalmente compõem o repertório diante da platéia – optamos pelo caminho mais fácil e óbvio de uma dúvida que encasquetava atrás da orelha. Afinal, como é que o Debate, um trio roqueiro quase matemático, se desconstruiu até virar… aquilo?

“O baixista e o baterista que tocavam comigo saíram. Aí, não deu, tive que mudar”, diz Sérgio se referindo aos músicos Marcelo Mandaji e Richard Ribeiro, respectivamente. Ok, mas arrumar outros baixista e baterista não resolveria o problema? “Você já ouviram o baterista do Debate tocando?”, devolve o entrevistado, que colhe de volta uma enérgica resposta afirmativa. “Então!? Onde é que eu ia arrumar outro cara pra tocar daquele jeito? Além do mais, o Richard é meu amigo de infância. Começamos a aprender a tocar juntos, é foda”, conclui. O baterista, assim como Ugeda, já passou pelas fileiras do finado Diagonal, grupo emblemático da cena alternativa de anos recentes.

Sobre Eduardo Ramos, multi-instrumentista que o acompanha na nova encarnação do Debate, Ugeda diz ter uma relação musical do tipo “água e óleo”. A discordância entre os dois, principalmente em termos musicais, é o que vem norteando os movimentos da banda. No show, os dois músicos sentam aleatoriamente em algum dos instrumentos dispostos no palco – percussão, samplers, um kit de bateria e nenhuma guitarra a vista – e deles extraem o que lhes der na telha. O outro vai respondendo e, assim, numa conversa onde sobram olhares e o exercício pleno do método das tentativas, a música vai sendo construídas no ato. O resultado é que cada show funciona como um momento único, impossível de ser repetido. “A gente não ensaia, nem passa som. Tudo acontece no palco”, entrega Ramos.

Em Natal, sobrou até para um membro da platéia a tarefa de erguer o show do Debate. “Normalmente isso não rola. Ás vezes, quando tocamos em lugares onde o público fica mais próximo, tem alguns que ficam apertando botões, querendo interferir. Geralmente não gosto muito, mas aqui funcionou legal”, diz Ramos. Mas a espontaneidade do palco funcionaria em um estúdio? “Não creio. Só se alguém gravasse um show bom, mas ainda assim não sei se ficaria legal”, confessa . Ugeda, ausente da conversa por alguns minutos ressurge e, sem sequer saber qual era o assunto do momento, arremata: “Discordo!”

Orgulhosamente a deriva

Além do Debate, Sergio Ugeda também responde pelo selo Amplitude. De vida relativamente curta, a gravadora já colocou no mercado bolachinhas de gente como Elma, Satanique Samba Trio e Fóssil, além do próprio Debate. Um currículo não menos do que invejável, acrescido de um cuidado especial com a arte e a embalagem dos discos que, ao contrário do que alguém poderia deduzir, não se reflete no preço final que chega ao consumidor. Após o show do Elma, na mesma noite e no mesmo local onde se apresentou o Debate, Ugeda vendeu um bom punhado de discos ao módico preço de R$ 10 cada um.

“Tem que ter algo que faça valer a pena, que faça o cara querer ter isso aqui”, diz segurando alto um disco e batendo com o nó dos dedos na capa. “A arte tem que ser bacana. Na Amplitude consigo isso, porque a gráfica onde imprimimos é dos meus pais”, explica.

Atualmente, o site do selo está praticamente desativado. Na página não há catálogo, loja virtual ou qualquer informação visível sobre o selo ou os artistas. Só um curto texto explicativo que atenta para novidades futuras e um campo em branco onde o visitante pode colocar o e-mail e assinar uma newsletter. O informativo, pelo jeito, ainda funciona a pleno vapor, uma vez que Ugeda finalizava da mesma forma a conversa com todos os que o abordavam no balcão de entrada da Casa da Ribeira: “Posso anotar seu e-mail pra cadastrar na mala direta do selo?”

Os rumos futuros da Amplitude, porém, ainda são incertos. “Sinceramente, estou meio descrente quanto à distribuição dos discos. É muito difícil fazer o material chegar às pessoas”, diz Sergio. “E ainda por cima me fodi, porque tomei calote de um monte de gente. E não foi de loja pequena não. Tô falando do Submarino, da FNAC, da Cultura…”, desabafa, admitindo não saber  que caminho tomar num futuro próximo.
No fim, ainda sobra uma ponta de otimismo. “Se o selo não vai bem, as bandas por outro lado estão melhores do que nunca. Não é?”, finalizou, enquanto anotava o e-mail de mais um transeunte

Foto: Isabela Santos