Entrevistão: Danina Fromer

por em quarta-feira, 8 julho 2009 em

daninaOK
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Quem é que contagiado pela batida do funk, e vá lá, por umas doses de alcool na cabeça, já não dançou? Acreditando que o funk pode salvar o mundo Danina Fromer, Luciano Sabino e Kavad Medeiros andam agitando festas de todos os tipos em Natal. Danina já participou da Orquestra da Casa Talento Petrobrás e é conhecida do cenário local por ter tocado no Dharma e Eletro Bilhar. Para tocar o terror nas apresentações o trio possui músicas como “EMOrrágica”, “Funk da SAMU”, “Miguxa do Funk”, “Dança da Eutanásia”, “Golpe do Sequestro” e contam com dançarinos. Sem falar em Danina se transformando em Kathiusca, seu alter ego “montado”.

Confira abaixo a entrevista com a baixista, violinista, vocalista e drag queen.

[O Inimigo] – Quem é você no midway [trecho da música “Miguxa do Funk”, inscrita no Festival MPBeco, e que faz referência ao point da juventude natalense funkeira ou não]?

[Danina Fromer] – Eu não sei dizer quem eu sou no Midway. Sei que me expresso muito bem através de Kathiusca e do Emblemas. É exatamente por não saber dizer quem sou eu no midway que uso a música pra falar por mim.

Fala como se deu a transição da orquestra, para o indie rock e por fim para o funk.

Bom, eu tocava pop rock na orquestra, além de claro música erudita e outros estilos. A gente fazia tanto um trabalho erudito como banda baile (que toca tudo). Daí nunca fiquei muito distante do rock. Tive outros projetos paralelos sempre também: Dharma, Playmobile, Eletro Bilhar. A transição mesmo foi quando eu conheci UDR e Miami Bros. e me fascinei. Daí comecei a fazer de brincadeira, as pessoas gostaram, coloquei on-line e surgiu uma proposta de show. Deu certo e depois disso sempre teve gente chamando. A gente não teve escolha. E é meu primeiro projeto realmente meu. Onde faço coisas que realmente penso e gosto. Sou eu, sabe? Parando o show no meio pra tirar onda com quem passa, pra criticar a galera que fala mal, mas tá ai até o chão. Um monte de patricinha que fala mal das periguetes e quando a gente joga o tambor pro alto, elas estão em cima do balcão do nosso lado. Eu gosto disso, de fazer a geral esquecer onde é e onde está pra ser feliz de verdade.

No fim é hipocrisia.

Tem uns que são hipócritas mesmo. Mas tem gente que não sabe que gosta. Aí eu num gosto nem de criticar. Prefiro esperar que a pessoa descubra. E se ela deixar, a levarei para um labirinto de magia e sedução de onde ela não vai querer sair. [risos] É mais ou menos como um homofóbico que quase sempre é gay e só não sabe ainda. Ele fala mal porque queria ser e não pode. Porque ele mesmo disse a si que não podia. No dia que ele descobre que pode é só alegria. O roqueirinho não rebola e não deprava porque disseram pra ele que aquilo era banalizar o sexo. Ele não entende a necessidade do momento lúdico. [risos] Além de ter vergonha. Porque o amiguinho vai rir dele. É imaturidade na verdade. Isso pra quem gosta da ludicidade né? Tem gente que prefere ver televisão. Tem gente que vê futebol. Tem gente que vai pro funk. Tem a galera do filme cult e do livro de filosofia. Nada contra, eu faço isso!!! Mas que o funk é ESCÂNDALO, é sim. [risos] Eu vejo como uma alternativa a mais pra você ser feliz.

Engraçado isso que você falou do momento lúdico. Na verdade quando o cara monta uma banda, tem uma imagem pré-determinada do que aquilo deve gerar, mas se nega a fazer coisas que, por exemplo, seus ídolos fazem. Quem entende isso, geralmente se sai melhor. Sabe usar a favor.

É um palco pô! Todos os seus movimentos ali tem que ser friamente calculados. [risos] E a música tem por objetivo fazer cada um esquecer da realidade. Tem um mito que eu gosto de falar, que é grego sobre a música de Apolo e a de Dionísio. Apolo tocava lira e só coisas muito bonitas, finas e rebuscadas. Enquanto Dionísio usava a música paras as pessoas esquecerem de si, nas suas festas do vinho. Você não pode dizer que Apolo era melhor que Dionísio. Os dois usavam a música como forma de manipulação, de cada pessoa se libertar de regrinhas mentais, medos, expectativas. A música é uma sessão de terapia, todo mundo sabe disso. Quem rejeita Dionísio só pode ter algum problema muito sério. E não sou eu que estou inventando isso. [risos] Nietzsche mesmo diz que “se uma mulher tem tendências eruditas muito fortes e rígidas, há algo de errado na sua sexualidade”. Nietzsche era um defensor da música de Dionísio, enquanto todo mundo adorava Wagner e sua música apolínea e católica. Quer dizer, Nietzsche era funkeiro!

Então quer dizer que de filósofo e funkeiro todo mundo tem um pouco?

Não! [risos] Mas o mundo seria melhor se fosse assim. As pessoas preferem ser médicos e loucos (não raciocinar antes de agir e tentar curar os outros). Luto por um mundo de funkeiros conscientes.

Talvez esse seja um dos problemas. Outros estilos enquanto foram marginalizados não agradavam a classe alta, como o samba. Você acha que o funk um dia estará no mesmo patamar?

Acredito que sim e trabalho pra isso.

O que o funk como música eletrônica brasileira tem de melhor, de diferencial em relação aos sons eletrônicos gringos?

Melhor que os gringos não sei. Mas é muito dançante. Muito mesmo. Os graves e as cornetas são frenéticos e possui identidade. Coisa que na música eletrônica é até complicado. Porque tem tecno que parece house, que parece psy. E as definições às vezes não são satisfatórias. Há quem diga que o funk é tão característico que é limitado. Mas tem uma galera nova produzindo aí que vem provando que não é bem assim. Quando você ouve aquele gravão e as cornetinhas num tem pra onde. Seu ouvido fica esperando a Tati Quebra Barraco com o timbre esganiçado dela. E tem mais, se vier alguém com voz bonitinha cantar, perde a graça.

Muita gente de outros estilos mais “convencionais” prefere não se “misturar”. Vocês participaram do MPBeco arrancando muitos aplausos. Como foi isso?

Luciano gosta de falar que é porque a gente é ousado mesmo. Sempre que convidam a gente pra um lugar que supostamente não dá certo a gente topa, faz um show específico para aquilo, todo preparado. Com cenário, figurino, coreografia. E acho que foi isso que conquistou o público do MPBeco. A gente tocou funk na praça de alimentação do Orla Sul uma vez e foi legal. Fomos convidados pelo Marcilio Amorim que estava na organização da Feira Mix lá. Uma coisa que também facilita muito nossos contatos é porque o show é divertido. Daí muita gente fica com vontade de participar. Tem dois meninos que dançam as vezes com a gente, quando a agenda deles bate. E a estrutura do show também permite. Eles viram um show e gostaram. E a gente viu eles dançando lá embaixo. Aí perguntei se eles não topavam fazer em cima do palco. Descobri que um deles canta. Aí já fizemos com eles no MPBeco.  Victor Varcelly e Lucio Luis. A gente chama a dupla de VivaLulu. [risos] Das bandas independentes de Natal acho que só a gente leva essa galera para show sempre. Eu vi o Mad Dogs com dançarinos num show na Casa da Ribeira, mas era teatro, é outra história, não é? Em show, show mesmo, a galera em pé e tal, é muuuito raro.

Como funciona o processo de composição do trio?

Muita gente chega pra mim e diz: fiz um funk! As vezes tem algo bom, muitas vezes não. [risos] Eu faço as bases eletrônicas e nós juntos, com ajuda de amigos ou não, fazemos as letras. Daí vamos ouvindo e vendo qual encaixa com qual. E vai nascendo. Tem muita letra sem base e muita base sem letra. Temos parcerias também, a maioria virtual. De produtores que ouvem a banda e se oferecem para fazer bases. Já aconteceu de uns cinco de se oferecerem. Estamos achando ótimo. No caso do Solange Tô Aberta eu lancei a proposta para Paulo e fizemos a letra na hora. Daí eu preparei a base, cantei por cima, mandei pra ele e ele mixou e masterizou. Acrescentando mais coisas também. Demorou dois meses e a gente não se viu pessoalmente ainda. Durante esse processo eles estavam em turnê na Europa.

Eles tocaram aqui em uma edição da PUM. A festa geralmente é voltada ao público gay. Essa barreira está caindo, vocês estão tocando para outros públicos, não é?

Estamos e sendo bem aceitos. A gente tenta falar de putaria sem vulgarizar muito. E a gente adequa o repertorio também. [risos] Fazemos uns covers com letras bastante agressivas que nem todo público aceita bem. Por exemplo, o MPBeco. Mas a galera do funk, funk mesmo, gosta do nosso show e tem divulgado.

Você gosta muito de se “montar”, não só no palco. Nele especificamente serve para entrar no clima? É uma parte do show?

É parte do show, mas não funciona muito pra entrar no clima, não mais. Eu e Kathiusca entramos num processo de simbiose e muitas vezes eu esqueço que estou montada, ou que não estou. [risos] Antigamente funcionava, hoje em dia não mais. Faz parte do cenário, o visual. É muuuuuuuuuuito importante e faz com que eu me sinta bem. Pra entrar no clima eu costumo passar pelo menos umas 4 horas antes do show com os meninos da banda só nós 3, no máximo mais uns 2 ou 3 amigos e ficamos conversando, rindo, ensaiando passinhos. Enfim, friviando. São nesses momentos normalmente que surgem nossos vídeos da internet por sinal. [risos]

O circuito de festivais independentes é muito importante hoje, você acha que está faltando abranger o funk e outros estilos? Está muito centrado em rock?

Sim, muito. A gente não se encaixa em nenhum festival. O Skol Beats colocou a Deise Tigrona em 2006. Mas não é independente, não é? Fora ele, eu pelo menos não vi mais nenhum você viu? [risos]

Ano passado teve Barbiekill no MADA, DoSol e APR, mas é eletrorock.

Barbiekill ainda era rock. Ano passado salvo engano teve Rastafeeling no MADA, foi um caso raro também. Vejo gente comentando que os festivais perderam público. Talvez seja hora de abrir a mente pra outros estilos independentes. Com a atitude rock’n’roll, mas um som novo.

Aqui em Natal, vocês tem procurado os locais para tocar ou estão chamando?

Varia. O Galpão [29] normalmente convida. Os locais que procuramos normalmente se assustam com a proposta e depois que ouvem falar da repercussão nos outros locais, nos convidam. Aconteceu com o Taverna [Pub Medieval Bar], por exemplo, que ainda não rolou o show. Estamos nos planejamentos com o Sancho também. Pra Natal é algo novo, normal os donos terem receio de arriscar. Devagarzinho a gente tá mostrando serviço.

Onde querem chegar?

Queremos fazer shows em vários locais diferentes, mostrar nosso trabalho por aí. Por enquanto o objetivo são outras cidades do Nordeste. E surgiram alguns contatos na Rio/São Paulo. A longo prazo quem sabe até sair do país, mas vamos com o pé no chão. Não queremos ficar ricos. [risos] Queremos tocar.