Sempre Rock

por em segunda-feira, 5 novembro 2018 em

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O que é que vem depois do rock? “O rock é uma fênix, sempre renasce das cinzas”, é uma bela metáfora dada por Marcos Odara, baterista e fundador do trio Crove Horrorshow, para justificar a pergunta em referência ao título do primeiro álbum dessa lendária banda sergipana.

O grupo surgiu em 1985, no boom do rock brasuca, pelas mentes do cantor, compositor e guitarrista Luiz Eduardo e de Odara. Em sua formação passaram alguns baixistas. O batismo nominal da banda foi uma sugestão do músico e produtor Helder Aragão, mais conhecido como DJ Dolores, figura carimbada da música moderna brasileira (autor da arte da capa e do encarte).

Após mudanças na formação, composições e gravações esparsas ao longo dos anos, finalmente gravaram em 2014 o disco Depois do Rock – o único até o momento -, composto por doze faixas com a produção da banda e o auxilio luxuoso de Leo Airplane (Plástico Lunar). O titulo meio enigmático, é na verdade uma confirmação particular do que a banda sentia e desejava após a longa trajetória. “O título faz referência a nós mesmos. Pois a banda tava num hiato tremendo. Há muito tempo sem tocar. Daí esse título se encaixou muito bem no contexto. Deu um gás”, esclarece Odara.

A sonoridade passa por gerações, agregando essencialmente referências desde os clássicos do hard rock 70 mais o rock anos 80, sem soar dejà-vu. Mesmo com uma acentuada e peculiar estrutura que varia entre as duas gerações rocker – bases, arranjos, timbres de guitarras e letras discursivas e poéticas – o som se mantém precioso e até modernoso. Há de se destacar a poderosa secção rítmica com a bateria pesada de Odara (também baterista da citada Plástico Lunar) e o baixo encorpado e virtuose de Fabinho da Snooze, vintage marcada em todo play.

Para falar da histórica trajetória do combo, conversamos com Luiz Eduardo, que é Professor Doutor da Universidade Federal de Sergipe, numa entrevista especial para O Inimigo.

A primeira pergunta que vem é por que tanto tempo para gravar o primeiro disco cheio?

Luiz Eduardo – Bem, somos uma banda dos anos 80. Começamos em 85/86, numa época em que mal tínhamos instrumentos. Gravar um disco era um sonho, mas era impossível para três garotos de Aracaju que sequer tinham semelhanças étnicas suficientes para se colocar como uma das bandas de rock que estavam em alta na época. Gravamos uma demo com duas músicas em 86, em Recife, depois gravamos mais duas, em 88, num estúdio de Aracaju, e depois, em 96, gravamos outra demo com nova formação (o baixista Gutierre) e quatro músicas. O retorno, com Fábio Snoozer no baixo, se deu em 2009. Começamos a gravar em 2011 e o disco Depois do Rock saiu em 2013. Muitas das paradas do Crove se deveram à minha profissão, pois, como professor universitário, me afastei de 97 a 99 para o Mestrado, depois de 2002 a 2006, para Doutorado, e em 2011, para pós-doutorado. Não somos mais conhecidos, acredito, porque somos de Aracaju.

De certa forma trinta anos de existência faz com que a banda seja referência na cena rock sergipana. O que acham dessa abordagem?

Acho legal essa ideia de que somos uma banda cult local. De fato, a maioria dos músicos de outras bandas ouviram e/ou foram influenciados pelo Crove em Sergipe, e isso nos orgulha. Fomos persistentes e irredutíveis. Nosso set list só tinha música autoral. De vez em quando executávamos alguns covers, do Cure, dos Voluntários da Pátria e Durutti Column.

Quais são as influências musicais da banda? A sonoridade da banda remete ao rock setentista inglês e ao pós-punk anos 80, além de um certo lirismo psicodélico pop. Como você definiria?

Antes do Crove eu tinha outra banda, Perigo de Vida, que era uma espécie de hard rock. O ano era 82 e bandas como Barão Vermelho e Herva Doce começaram a surgir no Brasil. O que me fez montar o Crove foi mesmo a influência do rock inglês de 1984: Cure, Echo, Smiths, Siouxie and the Banshees, etc. Sempre ouvimos também rock carioca, brasiliense e paulista nos anos 80, mas eu e o baterista, Marcos Odara, sempre ouvimos muita MPB, Gil, Caetano, Alceu, Zé Ramalho, Lô Borges etc.

O disco foi bem produzido com a participação de algumas figuras carimbadas. Apesar de algumas composições serem antigas, não soam nostálgicas, com destaque para a excelente secção rítmica – baixo e baixo vintage. Fale sobre o processo de feitura do disco.

O disco foi produzido por nós mesmos, depois de dois anos de ensaio com essa formação. Quem ajudou a dar um caráter vintage foi Leo Airplane, que toca teclado em “A Dança do Forró” e mixou o disco. Tocávamos juntos em outro projeto, de cover black music, Funkin’Soul. Depois ele me acompanhou nos dois discos solo que lancei, Recomeço”(2001) e This Is My House (2017). No Depois do Rock não mexemos nos arranjos. Tocamos exatamente da maneira que tocamos ao vivo. Aliás, a gravação foi quase ao vivo. Só mesmo os vocais foram colocados depois.

A impressão que se tem hoje em dia é que a música tornou-se um mero acessório.

Acho que a música, independente do estilo, continua desempenhando uma função muito importante na vida das pessoas. Se antes, para se ouvir o LP ou mesmo uma fita cassete, era preciso todo um ritual, regado a vinhos, amigos reunidos etc., hoje a música está presente nos aparelhos de celular, computadores, de modo que faz parte do cotidiano das pessoas de forma muito presente. Da minha parte, a música é como ar para respirar. Profissionalmente, como músico, tenho minhas limitações, pelas razões expostas anteriormente.

O que você pensa à respeito dessa nova condição tecnológica e de hábitos com relação à música?

A abordagem tecnológica foi uma maravilha para os músicos, pois democratizou radicalmente os processos de composição, produção e até de distribuição da música. Eu mesmo, apesar de fazer as músicas ao violão, sempre experimento alguns arranjos com programas de computador, desde 2000, mais ou menos.

Qual a sua opinião sobre a atual cena rock sergipana?

Acho que a cena de Sergipe está muito rica e diversificada, apesar dos poucos espaços dedicados ao estilo em Aracaju. Temos The Baggios, que está em outro nível com relação às bandas daqui, com destaque nacional e internacional. Acabou de lançar um excelente single, pelo edital da Natura. Temos também as bandas, por assim dizer, clássicas, como o Karne Krua, punk/hardcore; o Snooze, que é indie, e bandas mais novas, como Cidade Dormitório. Há uma cena também de música alternativa muito forte, mas não necessariamente de rock, e uma série de bandas cover, que são as que tocam mais no final de semana.

Quais são as pretensões atuais da banda?

Pensamos em lançar mais um álbum, Real Crove, com uma média de 12 músicas antigas e não gravadas. Estamos sem ensaiar no momento porque em Aracaju não há espaço para artistas autorais. As pessoas querem sair à noite para ouvir o que já conhecem.

Foto: Snapic