Coquetel Molotov aposta na diversidade de ritmos e identidades

por em terça-feira, 27 novembro 2018 em

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Em 2003, seu primeiro ano, o festival Coquetel Molotov tinha local no Teatro da UFPE, de boa lotação, mas de proporção mediana. Nesse palco se apresentaram gigantes do INDIE como Teenage Fanclub, Dinosaur Jr e The Kills, passando por monólitos vivos da música experimental, como Tortoise, até a notória Invasão Sueca, que trouxe ao Recife bandas como Peter Bjorn and John, Jens Lekman, Shout out Louds e El Perro del Mar. Ainda passariam pelo palco do Teatro da UFPE nomes distintos e singulares que vão de CocoRosie e Dungen a Racionais MC’s, que quase põe o teatro abaixo. A relação entre todos esses nomes, o espaço e a proposta do Festival se reuniam em torno da tentacular tag da música independente, indie e alternativa, que embora pareça apontar para uma estética particular, como a de bandas de garagem, sons eletrônicos experimentais e performances exóticas, foi alterando suas características ano após ano, tornando-se mais inclassificável cada vez mais. O lineup do No Ar: Coquetel Molotov e seus headliners tão distintos entre si confirmam essas novas tendências da música independente; de funk carioca a techno, de rap a ciranda e bregafunk, a programação do Festival foi um desfile de pluralidade e múltiplas formas e identidades musicais.

Chegando aos 15 anos em 2018, o No Ar ocorreu mais uma vez no Caxangá Golf Club, mesma sede da edição de 2017, mais confortável e transitável, com espaço para três palcos, uma feirinha e um food park, com amplo gramado de golfe ao redor, onde os passantes podiam estender suas cangas e restar tranquilamente na grama. Nessa edição, nomes como Duda Beat, Djonga, Boogarins, Connan Mockasin e Heavy Baile arrastavam fãs para o festival, que iam se espalhando pelo Caxangá Golf & Country Club conforme as horas passavam.

Como a programação se iniciava cedo, para aproveitar a tarde na grama, para fazer caber todos os nomes locais e ~estrangeiros na programação, este repórter não conseguiu chegar a tempo de ver Catavento, banda que queríamos muito ter visto, e Guma, novo destaque da música recifense. Os relatos sobre ambos os shows, que podemos repassar, é que foram duas boas execuções, embora para pouca gente. Mas já às 16h um público considerável se aboletava à frente do palco Natura para ver a pernambucana Duda Beat, sucesso da música indie for real de corno. Eduarda Bittencourt, inclusive, merecia um horário mais nobre dentro da programação; embora um show à luz do dia, com a iluminação natural no palco, tenha seu charme e garanta alguma energia extra pra platéia recém-chegada, a quantidade de pessoas que estavam ali para ver a intérprete de “Bixinho” era bastante considerável. Com esse apelo das massas, Duda fez um show com todos seus hits e ainda sua já conhecida versão de “High By The Beach”, de Lana Del Rey, batizada aqui brasileiramente de “Chapadinha na Praia”. Uma verdadeira união de sentimentos na platéia culminou em um coro a plenos pulmões de uma versão dançante de “Bixinho”, fechando a apresentação.

Após Duda Beat, os destaques se dividiam entre os shows de Potyguara Bardo e Mestre Anderson Miguel, em horários conflitantes, mas justos para públicos distintos que podiam conhecer duas expressões diametralmente diferentes no mesmo lugar. Potyguara fez aquele que foi, talvez, o show mais lotado e aguardado do Palco Aeso. Iniciando seu setlist com “Karamba”, acompanhada do trio Lipstick, que mais tarde comandaria a Batalha de Vogue no Palco Natura. O show de Potyguara teve música nova, cover de Habib, do Rouge junto com Rich Girl, de Gwen Stefani (momento em que aleatoriamente choveu em Recife), e ainda uma versão de “Blue Jeans”, de Lana del Rey, culminando com a explosão extrema da platéia com o final dropado do hit “Você Não Existe”. No Palco Coquetel Molotov, o principal, o Mestre Anderson Miguel apresentou suas canções regionais, apadrinhado por parte da banda de Siba, que também participou do show. Maracatu, cavalo-marinho, ciranda e quetais foram executadas com maestria pela jovem autoridade, que aos 22 anos já é Mestre. Nome que evoluirá e deu conta do recado tocando para um público considerável.

Na sequência, Maria Beraldo apresentou seu espetáculo baseado no disco Cavala (2018) e com isso garantiu seu posto entre os melhores shows de todo o evento. A cantora e instrumentista de São Paulo tem uma face performática que é ao mesmo tempo brutal e sutil, com alguma violência no modo que empunha e toca sua guitarra, sugerindo uma SIRIRICA na guitarra, que fez o instrumento GEMER, ou quando solta suas bases e faz um solo de clarinete, com uma sonoridade gutural que incomoda mas fascina. A estética de Beraldo aponta para outra tendência que se repetiria na noite (e, por consequência, na música brasileira atual): o trans-humano, o abjeto, o esquisito, onde seu figurino, um collant preto e bege, seu corte de cabelo preto e loiro, dois enfeites que pareciam ser ferros apertando suas maçãs do rosto, compunham uma imagem nova, apontando para o desconhecido.

No palco principal, Anelis Assumpção apresentou seu Taurina (2018) com uma banda formada por FERAS da nova música brasileira, como Thomas Harres na bateria, Zé Nigro nos teclados e Saulo Duarte na guitarra. Um dos destaques do ano, Anelis tocou músicas de seu novo disco e também algumas de discos anteriores, em execuções sofisticadas que em nada deve a qualquer medalhão da MPB. Algo ancorado entre uma Gal Costa e a estética do próprio pai de Anelis, Itamar Assumpção, ficam evidentes na performance. No mesmo palco, o público fã do neozelandês Connan Mockasin começava a se reunir. Enquanto isso, Julien Barbagallo, baterista do Tame Impala, conduzia no palco Natura seu setlist calcado em canções setentistas em francês. Não é nenhum Tame Impala, mas teve lá quem curtisse.

Connan Mockasin subiu ao palco com sua banda quando já badalavam quase as 20h30 da noite, enfileirando seus clássicos, como “It’s Choade My Dear”, “Forever Dolphin Love” em versão estendida e “I’m The Man That Will Find You”. O show de Connan tem a lentidão aquosa de seus discos, pontuada pela bateria marcante e pela constante improvisação, que leva as músicas para extremos, quando a banda acelera ou diminui a pegada. Na sequência, os goainos do Boogarins subiram ao palco em seu retorno ao país após dois meses na Europa. Apresentando seus hits, como “Avalanche”, “Lucifernandis” e “FoiMal”, a banda fez seu costumeiro noise, com sua correspondente intensidade. Infelizmente, não vimos o show do Deaf Kids e de Luedji Luna, que aconteceram no mesmo horário. Ambos foram elogiados, principalmente o de Luedji, classificada até mesmo como melhor show da noite por quem viu.

Um dos destaques-revelação trazendo seu som baiano raiz, sotaque musical forte a cada festival pelo Brasil, Jotaerre fez um show elétrico no palco Natura. Surpreendendo muitos, foi uma das grandes performances do Coquetel Molotov. Tocando faixas de seu disco mais recente, Choraviolla 2, Jotaerre mandou muita pressão com sua swinguera advinda do grupo Psirico e de noites de muito groove arrastado na Bahia. Concomitante ao show de Jotaerre, o mineiro Djonga comandou uma horda ensandecida no palco principal. Trazendo ao palco sucessos de seu elogiado O Menino que Queria Ser Deus, o rapper também aproveitou o espaço para denunciar o racismo e cobrar posicionamento consciente por parte de seus fãs. A sequência “A Música da Mãe” e “Geminiano” balançaram as estruturas do Caxangá Golf Club.

Apesar do percurso de várias performances poderosas, nada nessa noite poderia se comparar com a fuzilaria liberada pelo show do Teto Preto. O trans-humano que falamos mais acima aqui está totalmente estabelecido. Perder a característica de homem/mulher, estar livre para ser qualquer coisa, inclusive um mistério, um ser-experimental, parece ser o discurso central na apresentação do Teto Preto. O grupo, capitaneado pela forte presença de Angela Carneosso/Laura Díaz, cujo figurino era composto por seu corpo nu e uma estrutura dourada que pareciam ombreiras, junto a um capacete que poderia ser também uma coroa, executou os novos petardos contidos em seu disco Pedra Preta. Loïc, o bailarino francês que faz parte do grupo, também chamou a atenção com sua performance. O show de Teto Preto é uma exortação ao exótico.

No palco principal, MC Troinha fez seu show de bregafunk para aqueles que só ouviam suas músicas na balada, com a energia de quem toca em casa, com direito até mesmo a mosh na platéia, sendo carregado pelo público. Por fim, o Heavy Baile subiu no palco já com jogo ganho. Um verdadeiro RECITAL de funk carioca, o show do grupo carioca é um excerto de baile funk levado para quem não é de baile funk. Música eletrônica experimental e discursos políticos engrossam o caldo, também enriquecido pelas presenças dos três bailarinos e a condução carismática do MC Tchelinho. Fecharam o festival no palco principal ao som de sonoros #EleNão.

Por fim, a edição de 15 anos do Coquetel Molotov demonstra a pluralidade e a livre associação de ritmos que compõem o cenário independente brasileiro. Saídos do indie rock mais purista, o Festival cresceu junto com a cena alternativa nacional e hoje interage com as características desse ambiente: a diversidade temática, rítmica e identitária, cada vez mais inclassificável e plural.

Foto: Tiago Calazans