Chapa Mamba no limite do empeno máximo

por em domingo, 27 setembro 2015 em

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Assim que ouvi o primeiro disco da Chapa Mamba, no começo do ano passado, senti aquele comichão que bate quando a gente descobre uma banda muito boa, da qual quase ninguém ouviu falar. Essa sensação, que pode variar bastante de intensidade dependo do grau de relação que você tem com a música, se traduz numa necessidade/obrigação de correr & mostrar aquele som para o maior número de pessoas possível.

De lá pra cá, fiz exatamente isso e acho que posso dizer, sem falsa modéstia, que aproveitei bem todas as oportunidades de passar o som da Chapa Mamba adiante, com excelentes resultados (i.e., a galera curtiu altos). É claro que eu não era o único fazendo isso. Um monte de gente com mais amigos que eu também comprou a briga e em pouco tempo, a dupla estava recebendo as muito merecidas loas em blogs e rádios gringas, como Riot in My Brain, Jotcamp e WFMU, e em patrícios de responsa, como Miojo Indie e Amplificador.

Achei que daí pra frente o aeroporto seria o próximo passo para a Chapa Mamba. Até que em outubro passado consegui vê-los ao vivo, quando eles vieram a São Paulo para lançar a coletânea Gran Noise Family, junto com Wallace Costa, Hierofante Púrpura, Trash No Star e outras bandas do cast da Transfusão Noise Records.  Numa noite de sábado, eles tocaram num palquinho armado literalmente num canto de parede, pra um público de 12 pessoas, incluindo os membros da banda que havia tocado antes. Não foi o festival de histeria e plateias alucinadas como eu esperava (e, sinceramente, torcia). Bom, azar de quem não apareceu. Sem meias palavras: foi do caralho!

Depois daquele show, batendo um papo e tomando uma cerveja com Stêvz (guitarra e voz) e Bruno Lima (bateria e voz), eles comentaram que já tinham o próximo disco pronto, pra soltar logo menos. Esse disco acabou sendo Banda Forra, que sairia em fevereiro de 2015, DEPOIS de um Split 7’’ com a Treli Feli Repi.

Agora, exatos nove meses depois do último filho, a Chapa Mamba volta mais uma vez com O Campo Sutil, terceiro e, de longe, o mais doido álbum da carreira deles até aqui. Quase sem letras, experimental sem ser chato, barulhento, empenadíssimo. E com cover do Twisted Sister!

Em vez de tentar explicar, melhor é confundir ainda mais. E pra isso, ninguém mais apto que um dos pais da criança, o próprio Stêvz, agora morando em Porto Alegre, de onde toca a one-man-label Chupa Manga Records e mais um monte de outros projetos legais em música, quadrinhos, zines e quetais na Editora Beleléu.

Por e-mail, Stêvz falou sobre o processo de produção de O Campo Sutil, da nova formação da banda, que agora inclui o baixista Binho, e do possível fim da era de apresentações ao vivo da Chapa Mamba (falei que vocês iam se arrepender de não ter ido no show).

Dê o play em O Campo Sutil e confira o papo:

O Inimigo: Como foi essa doidera de gravar e lançar dois discos em menos de um ano?

Stêvz: Pois é, na verdade o Banda Forra começamos a gravar assim que lançamos o primeiro, em fevereiro de 2014. Ele já estava pronto antes do fim do ano, mas seguramos um pouco pra lançar o vinil Ipsilone primeiro. O Campo Sutil começamos a gravar em novembro, e acho que foi o mais demorado pra finalizar. Rola uma certa impaciência pra botar as coisas pra jogo logo, e partir pra próxima. A idéia era lançar vários EPs mais curtos, mas acabou virando um álbum completo.

Apesar desse disco me soar um pouco mais experimental que os anteriores, a produção pareceu menos crua. Houve essa intenção de dar uma “polida” no som?

Sim, na verdade acho que estou aprendendo a mixar melhor, o que acaba aparecendo no resultado, ainda bem. O processo de gravação foi o mesmo do Banda Forra: gravamos todas as baterias primeiro, em quatro SM-58 fudidos numa faixa estéreo, e todo o resto gravo em casa depois. Dessa vez, fiquei mais tempo em cima de cada faixa, experimentando um pouco mais.

“Hortaliças”, por exemplo, é uma das minhas favoritas do disco novo e é quase toda só guitarra, a música inteira. Imagino que ela seja fruto dessas horas extras durante a gravação.

Na real, o processo dessa foi um pouco diferente. O Bruno me mostrou a ideia da base no baixo, há um bom tempo. Semanas depois fiz uma harmonia, tocamos algumas vezes e ficou nisso. Só quando estávamos gravando o disco lembrei dela e completei a melodia, modifiquei algumas partes e cheguei a começar uma letra que acabou ficando de fora. Foi terminada, de fato, na gravação, mas era uma ideia antiga.

Qual é a tua faixa favorita do disco novo?

Rapaz, provavelmente “Hortaliças” mesmo. Até por razões sentimentais, foi uma música que levou mais de ano pra tomar forma, o processo foi bem diferente, e acho a mais completa melodicamente nesse disco. O nome veio de uma provocação do Bernan, irmão do Bruno, enquanto tocávamos uma versão preliminar dela no meio de algum churrasco. Mas também gosto muito da faixa de abertura [“Fricção Científica”], é um número que vínhamos tocando em todos os últimos shows, toda de improviso. Gravamos antes mesmo de estar definida, um take longo de bateria do qual usei só um trecho. Os outros instrumentos também foram todos de primeira, deu liga. Mas legal que pra mim essa gravação ainda é um esboço, a composição continua em andamento.

Nesse disco novo muitas das faixas não tem letra e em “Ninguém Presta” vocês já tinham cantado que “ninguém presta atenção na letra”. Qual é a importância que o texto tem no teu processo de composição?

Acho que uma importância cada vez menor, na verdade. O primeiro disco é totalmente focado nas letras, mas eram músicas que já tocávamos há pelo menos 3 anos, e tinham sido muito lapidadas até aquele ponto. Desde então, tenho terminado várias das faixas durante o próprio processo de gravação. É outra forma de fazer as coisas, mas o que foi possível no momento. Não sei se fez falta, o texto agora aparece mais nos títulos das faixas, no conceito do disco, etc.

Pouca gente sabe, mas Stay Hungry, do Twisted Sister, foi um dos discos que mais ouvi numa certa fase da adolescência. E aí, qual é a desse cover de “I Wanna Rock”?

Essa é pra tocar no rádio. Haha, na real é uma música que eu curto de verdade, e talvez precisássemos mostrar esse lado adolescente bobo também, pra validar nossa carteirinha indie, né. Eu gosto de fazer versões que sejam diferentes do original, acho que ficou divertido. Depois fiquei sabendo que o Dee Snider cantou com o Angra no Rock in Rio e roubou o show, o cara é foda.

Na época do primeiro disco, vocês conseguiram alguma repercussão em blogs gringos como o Riot in My Brain e da rádio WFMU. Me fala um pouco disso, como rolou esse contato.

Nossa assessoria de imprensa (cof, cof) trabalhou muito mandando e-mails para blogs especializados e CD-Rs pelo correio para algumas rádios universitárias. O primeiro disco tocou bastante na WFMU, foi uma ótima surpresa, e ajudou a dar alguma visibilidade internacional, saiu em uma lista da CMJ, etc. Banda Forra também tocou na WNYU, na KXLU, mas ainda não nos chamaram para o programa do Faustão.

Vocês fizeram alguns shows como um trio, com um baixista. Ainda tá rolando essa formação, como é que rolou isso?

Essa é a formação atual da banda, como power trio. O Binho já era amigo do Bruno e curtia a banda, tirou todas as músicas em uma semana e já estávamos fazendo shows com ele. Apesar de antes estarmos nos virando como duo, com o uso de artifícios como pedal de loop, etc, o baixo realmente ajuda a segurar a onda, a dar peso. As músicas estavam ficando mais complexas, e ele entrou na hora certa. Mas, na real, a situação agora é a seguinte: eu me mudei para Porto Alegre no começo do ano. Estava terminando o disco sozinho, mas o Chapa Mamba está sem tocar desde então. A logística ficou um pouco mais difícil, agora precisamos bancar passagens aéreas. Talvez seja o fim de uma era.

Opa, fim de uma era? Quer dizer que daqui pra frente, a Chapa Mamba deve gravar mais discos que fazer shows?

Pois é, ficou mais difícil tocar, agora. Vontade não falta, mas as circunstâncias têm que ser favoráveis. Espero conseguir marcar algumas coisas por aí, veremos.