Hopeful mostra Callado em aceitação da sua madureza interior e artística

por em segunda-feira, 5 março 2018 em

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É indiscutível que o álbum independente Hopeful é o estado de mudança do cantor e compositor alagoano Eduardo Callado. Cheio de esperança, o veterano artista é muito consciente no que faz e revela em seu novo trabalho a aceitação da sua madureza interior e artística, revelando-se um autêntico romântico em rebuscadas canções popsters.

Na belíssima música de abertura “Nothing, nothing, is gonna tear us apart”, quando diz nos primeiros versos “keep yourself alive and walking with me // try to keep me close to your heart”, declara-se numa legítima e particular ode ao bem querer; uma sútil manifestação de amor a existência que poucos sabem fazer.

Callado é um experiente compositor indie forjado na sonoridade do pós-punk inglês anos 80, sua referência mais marcante na sua trajetória musical ficou destacada em seu combo rock noventista com o Stonegarden. Mas hoje, atingindo a maturidade em todos os aspectos, se auto-descobre realizando sua celebração com elegância e rebuscamento. Deixando claro, sem a chatice e arrogância que os termos podem impor, mas com a sensibilidade que todo artista deve possuir.

Sua elegância está diretamente ligada ao seu modo educado e refinado de viver, definindo na práxis em todo o sentido sonoro do play: canções construídas com andamentos lineares focados na melodia e harmonizados na base voz, violão e teclados. Ficam expostas as saudáveis influências de cancioneiros pop como Bowie e McCartney na conduta conceitual da obra. Embora possa soar uma comparação prepotente, o requinte comprova o teor intencional desse trabalho. É fato.

Bom, provavelmente nada disso seria concretizado se não houvesse a produção do talentoso Dinho Zampier que faz toda a direção musical, também tocando piano e teclados, dando assim uma surpreendente timbragem setentista que é a sua característica como músico. A atmosfera “vintage” se completa com a participação do guitarrista João Paulo (Mopho), que dispensa comentários. As emoções são compartilhadas de forma perfeita, como bem quis Callado.

Embora a faixa de abertura sintetize toda a estética do disco, as demais faixas acompanham seu sentido, com desenvoltura e interligações primorosas. As músicas são longas – como requer toda contemplação – com exceção de “I Hope”, cuja faceta piano pop é a “mais acessível” entre todas. Destacam-se em especial a canção morosa “Eighteen Pieces” com cara de psicodélia pop floydiana; a deixa continuada com “Healing Time” apresentando um curto e angustiante solo de João Paulo; em “Rolling with the tide” é como se o Bowie estivesse numa session com Manfred Mann e o Coldplay. Embora o título aparente, “In the Darkness Hours” fecha-se o ciclo num festejo de agradecimento, com o suporte de amigos importantes como Fernando “Varnan” Coelho e Cris Braun. Vai querer mais o que?

Callado está em transe. Um transe particular no qual compartilha com o Mundo. Afinal uma boa obra, por mais pessoal que seja depois de proferida passa a pertencer a todos. Ele, como todo bom artista, tenta se esconder na humildade. A arte nada mais é do que administrar sabiamente a intensidade do ego com a expansão universal do nós.

Callado fez bem a si e faz bem ao Cosmos.

Foto: Fernando Coelho