Brincando à moda antiga

por em quarta-feira, 28 setembro 2011 em

LinkedIn

Todas as vezes que leio algo relacionado com a música produzida na Suécia, vejo que é praticamente inevitável logo em seu início o autor citar o ABBA com um certo teor cômico, desejando indicar que a música no país pode ir além do famoso grupo pop dos anos 70, mas que por algum motivo não vai. Ao menos é essa a minha sensação. Talvez essa manjada referência ainda consiga arrancar risos em alguma mesa de bar quando o assunto da vez é alguma nova descoberta musical vinda lá do país nórdico. Fora essa oportunidade creio até que deveria ser sujeito a pena grave quem ousar fazer uso de tal comentário cada vez mais repetitivo.

Quando se trata de rock, desde os anos 90 com o chamado “hard rock sueco” liderado por bandas como Hellacopters e Backyard Babies, a Suécia tem apresentado um bom número de boas bandas que variam de estilo, podendo ir do setentista clássico até o stoner, caracterizando assim o país como um berço importante e alternativo para o rock atual. Bandas como Witchcraft, Graveyard, Truckfighters, Asteroid e outras tem formado uma cena interessante, capaz de agradar facilmente quem as escuta com o talento de cada. Como acompanhante dessa crescente, fui apresentado recentemente ao Three Seasons, que neste 2011 lançou o seu debut Life’s Road digno de se tornar um daqueles clássicos memoráveis de topo das paradas. Isto é, claro, se estivéssemos nos anos 70.

Sartez Faraj é o líder do Three Seasons, que em seus shows conta com a ajuda de músicos adicionais. Sartez já havia mostrando seu alto potencial como músico em trabalhos anteriores quando participava da também ótima Siena Root. Seja como guitarrista, compositor ou vocalista, ele é capaz de se mostrar um músico muito acima da média ao tocar em um projeto e alavancar sua qualidade consideravelmente. É exatamente isso o que ele faz no Life’s Road, produzindo um disco que merece estar entre os melhores lançamentos de 2011. Mas que pode passar despercebido pelo olhar direcionado para outro caminho dos que buscam novas bandas para acompanhar por exigir um pouco mais de garimpo em sua procura.

A odisséia do Life’s Road começa com “Too Many Choices” e seu riff swingado aliado ao vocal elevado de Sartez lembrando um pouco o Mountain. Em seguida vem “Cold To The Bone” e o primeiro de vários refrães viciantes onde toda a capacidade da banda já está aprovada. “Down To The Bottom” mantém o ritmo stoner/heavy blues antecedendo “Each To Their Own”: são 11 minutos nos quais o Three Seasons exige muito de seus instrumentos em uma jam viajante cheia de inda e vindas, que se encerra com o refrão repetindo até a música se despedaçar. A esta altura o disco já te deixou alucinado e você espera até uma música ruim para ter do que reclamar. Mas é agora que vem “Feel Alive”, com um riff bem parecido com o da primeira faixa. Sartez continua brincando de gênio, vocais e versos perfeitos, refrão maravilhoso, guitarra vibrante, influência pura do Led Zeppelin, Hendrix e The Doors.

Trazendo a parte derradeira do disco, “An Endless Delusion” e “Since Our First Day”, cada uma com pouco mais de dez minutos. Mesmo se você for daqueles mais apressados que se a música demorar acaba apertando o botão para a próxima, recomendo dar tempo à música, ela vai até parecer bem mais curta. A primeira de início traz um instrumental leve pelos cinco primeiros minutos, depois de um tempo outra jam a base de muito improviso jazzístico aparece passando por cima. Na segunda Sartez vai dedilhando calmamente e fazendo um coro até explodir em mais um refrão, desta vez crescente e repetitiva de forma agradável.

A penúltima faixa é “Moving On”. Ela traz um mix de épocas, o setentismo já declarado com um pouco de anos 90 na pegada da guitarra. Encerrando temos a faixa que intitula o disco: “Life`s Road” vai trazendo o ouvinte de volta ao normal aos poucos com um coro leve no final, música um pouco mais suave e com a mesma qualidade de todo o trabalho.

Após escutar a primeira vez você terá a certeza que este disco vai te acompanhar por um bom tempo ainda. Sartez acertou em cheio nas composições e harmonias, dando a mesma importância a cada uma delas e colocando todas no mesmo nível criativo. Assim, acabou montando um disco brilhante, com um estilo retrô, mas mostrando que o rock de alta qualidade de tempos atrás e que muitos dizem estar em falta, ainda está vivo.