Bananada chega aos 20 anos com mainstream independente

por em segunda-feira, 21 maio 2018 em

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Na edição de 2018, o Festival Bananada completou 20 anos em boa forma, embora com os percalços naturais das mudanças (e isso não é uma ponte entre um corpo que faz 20 anos e um festival que também completa essa idade – é que de fato muita coisa mudou nesta edição), com um lineup que reforça a construção de uma espécie de mainstream da nova música independente brasileira. Grande parte dos shows foram de veteranos da CENA, gente que já entra em campo com o jogo ganho – o que confirma o alcance e a primazia das bandas brasileiras atuais. Em um espaço diferente dos anos anteriores, se mudando do gigante Centro Cultural Oscar Niemeyer (vetado pelo governo de Goiás) para o estacionamento do shopping Passeio das Águas, aconteceram alguns percalços na organização do evento, com algumas filas e atrasos que incomodaram principalmente no primeiro dia de evento. A cerveja artesanal era um requinte e uma aposta, já que não havia uma opção mais barata de cerveja no evento. Todavia, os shows apresentados acabaram conseguindo deixar mais de lado os problemas pontuais de serviço do festival.

Santo de casa faz milagre

Desde o primeiro dia de festival, os nomes goianos chamaram atenção. A cantora Bruna Mendez, que não é uma novidade em Bananadas, abriu os caminhos na sexta-feira (embora com um atraso que incomodou a plateia), com seu repertório baseado no disco O mesmo mar que nega a terra cede à sua calma (2016). Ao vivo as músicas fluem com mais viço, mais barulhentas, com a voz impactante de Bruna preenchendo os espaços. A apresentação teve participação do trio curitibano Tuyo, também esbanjando suas vozes, que entoaram uma versão acústica de “Nude”, faixa de In Rainbows, do Radiohead. No sábado, fazendo as honras da casa, a banda Lutre apresentou seu quase emocore muito sentido, com visível entrega dos músicos. A banda parece ainda um pouco verde, mas indica um caminho interessante a ser percorrido. No mesmo dia, a Carne Doce fez um show de grande monta – tocar em casa em dia de festa é diferente pra todo mundo. A vocalista Salma Jô já na primeira vez que descortinou sua voz no palco parecia especialmente inspirada e hipnotizante. A voz DENSA e forte de Salma conduzia o set da banda, que tocou músicas novas, como “Comida Amarga”, que constará no próximo disco, e hits já conhecidos, como “Passivo” e “Artemísia”. Mas o que é mais interessante no Carne Doce é a forma como a música ao vivo ganha estranheza e performatividade, muito pela atuação de Salma, mas também pelos desdobramentos misteriosos dos arranjos. No domingo, Brvnks, Boogarins e Hellbenders foram destaques de Goiânia. A Brvnks fez seu show enérgico e cheio de sentimentos da juventude, com sua banda 90’s e wavvesística. O Hellbenders tocou com carinho pra plateia que mais parecia uma torcida, tamanho apoio e fanatismo, acompanhando sucessos como “Brand New Fear”. O Boogarins, prata da casa tipo exportação, também se vale desses estranhamentos dos arranjos, mas aqui em dia de festa a banda fez um show fechadinho só para as mamães (o domingo de Bananada coincidia com o dia das mães). Tocaram “só as boa”, como disse o baixista Raphael Vaz, em reencontro especial de 20 anos com o Bananada. Os rapazes conversavam com a plateia, interagiam com os vídeos que passavam num telão no palco, faziam piadas. Quanto ao show em si, foi uma sequência noise que transitou entre músicas de Lá vem a morte (2017) e Manual (2015) até achando um espaço pro hit antigo Doce, de seu primeiro disco.

Mete dança

Como em outros festivais do Brasil, a presença de bandas baianas que reificam ritmos populares de Salvador foi um dos pontos altos do evento. ÀTTOOXXA, Baiana System e Larissa Luz levaram muito METE DANÇA pro estacionamento do Passeio das Águas. O som baiano atualizado e com muitos graves de dubstep é, de longe, o que se faz de mais atual na música brasileira hoje (ao menos no cenário independente ao redor). O ÀTTOOXXA fez um dos shows mais FEBRIS do festival, com destaque pros solos do guitarrista CHIBATINHA e pras quebradas pesadas da base eletrônica. Larissa Luz é já uma popstar: com um set EMPODERADO, fez a galera meter dança e botar a mão na consciência, sem machismo e sem racismo, cantando contra todo tipo de preconceito com muita GINGA. O Baiana System trouxe o peso de seus graves novamente ao Bananada, exatamente um ano após o primeiro show em terras goianas. Com público conquistado, Russo Passapusso e sua trupe seguraram o baile com seu groove arrastado. Muitos gritos de Viva Marielle, Lula Livre e Viva Matheusa ocorreram durante essa invasão baiana.

Empoderadas

A presença maciça de mulheres, negros e LGBTQs no lineup também necessita de menção especial. Tendo Pabllo Vittar como maior destaque, em um show repleto de hits, com direito a troca de figurino e coreografias, como bom show de diva pop, os discursos de empoderamento e de teor político da ordem do dia foram entoados com louvor durante todo o evento. Rimas e Melodias, grupo de rap formado só por minas, também engrossou o coro da luta das mulheres e dos negros. Emicida, Larissa Luz e Rincon Sapiência também contribuíram com discursos anti-racismo, com vivas a Marielle Franco e pedidos de Lula livre. Francisco, El Hombre também fez um show marcado por conteúdo político, num verdadeiro carnaval no palco. O Heavy Baile, grupo carioca de funk, encerrou sua apresentação com uma imagem de Marielle Franco pixelada num telão e um pedido: “Parem de matar minha gente!”, professado pelo MC e dançarino Tchelinho, negro e do Rio de Janeiro.

Heavy Baile nessa porra!

A propósito, o Heavy Baile fez um dos shows mais impactantes de todo festival. Projeto do DJ Leo Justi, que foi agregando outros artistas do Rio de Janeiro, o grupo fechou o evento no sábado, quase botando o Passeio das Águas abaixo. Mesclando sucessos do funk com seus feats com artistas como Tati Zaqui e MC Carol, sob comando do MC Tchelinho e um trio de bailarinos mandando passinho extremo, o show foi intenso e lisérgico. A parede sonora do funk carioca contagiou os presentes e até mesmo outros headliners: Pabllo Vittar, Matheus Carrilho, Titica (ambos participaram do show de Vittar) e o pessoal do Attooxxa subiram ao palco pra meter dança no baile. Heavy Baile toca na pixxta e toca na favela!

Banda grande em palco pequeno

Os palcos menores ficavam logo ao lado da entrada do evento, como uma isca para o público. Por lá, nomes como Giovani Cidreira, Menores Atos, Oruã, Brvnks, Gorduratrans, Ema Stoned, Negro Leo, Adelaida, Kalouv, Hellbenders, Camarones, Corona Kings, Deaf Kids, Jorge Cabeileira e o Dia em Que Seremos Todos Inúteis, e até Fresno se revezaram durante os três dias. Os destaques foram Giovani Cidreira, apresentando seu Japanese Food (2017) em um show impecável, com altas doses performáticas; Negro Leo e seu jazz torto, como se fosse um tropicalista revivido, uma ANTENA DA RAÇA, com seu trio psicodélico e psicofônico; a bela apresentação do trio de minas Ema Stoned, com seu rock instrumental espacial e cerebral, enfeixado por belos acordes e momentos de noise; a desolação GARAGE do Gorduratrans, naquele que talvez foi o show mais barulhento de todo Bananada; o Deaf Kids e seu LOLÓCORE, rápido e barulhento ecoando no estacionamento do Passeio das águas; e o emocore TRUE do Menores Atos, com um set baseado em seu disco Animalia (2014), mas engordado com músicas do novo disco, que está por vir.

Fala pra eles que é o rap!

Assim como em todos os espaços da música brasileira, o rap esteve em alta no Bananada. Rincon Sapiência e Emicida fizeram shows só com seu DJ os acompanhando e a decisão foi muito acertada. Os dois pareciam mais à vontade nesse formato clássico, enquanto que no show com banda (como nas ultimas oportunidades em que pudemos ver seus shows) as coisas não parecem fluir de forma tão dançante quanto com os graves altíssimos das picapes. Emicida fez um setlist violento, com suas músicas mais pesadas, de “Triunfo” a “Pantera Negra”. Coruja BC1 e Drik Barbosa participaram do show – Coruja cantou sua música “Django”, enquanto Drik participou nas faixas “Levanta e Anda” e “Mandume”. Rincon fez uma apresentação calcada em seu Galanga Livre (2017), com muito groove e liberdade pras pistas. Larissa Luz e Rimas e Melodias completaram as presenças do rap no Festival, com seus sets cheios de teor político e muito suingue, só na malícia. Outro nome importante do rap nacional deu as caras e encantou no festival: KL Jay comandou as picapes na sexta-feira e mandou um set finíssimo, que ia de Kanye West a Racionais e até Dua Lipa.

E quedê Gil?

Um dos shows mais esperados do evento era o Refavela 40, show de comemoração aos 40 anos do renomado disco de Gilberto Gil. Faltou informar à plateia que o show não era totalmente com Gilberto Gil tocando o disco na íntegra (o veterano tocou 8 músicas, nem todas de Refavela, como Three Little Birds, de Bob Marley). O show é um projeto de Bem Gil, filho de Gilberto, que comanda a homenagem com uma banda formada por alguns de seus irmãos e com alguns convidados, como o acordenonista Mestrinho, a cantora recifense Sofia Freire, a cantora paulista Anelis Assumpção (filha de Itamar Assumpção) e ainda Moreno Veloso (filho de Caetano Veloso).

Alternativo ou mainstream?

O maior homenageado desta edição do festival foi o produtor Carlos Eduardo Miranda, falecido no último dia 22 de março. Miranda era o apresentador das atrações dos palcos principais e era um dos elementos marcantes do Bananada. Roberta Martinelli, apresentadora do Cultura Livre, da TV Cultura, assumiu o posto nas apresentações sempre rendendo homenagens ao produtor, cujas memórias junto ao Festival ainda foi celebrada com um vídeo curto produzido pelo Mídia Ninja, que foi exibido algumas vezes antes de alguns shows. No vídeo, Miranda comentava como admirava a produção de um Festival que começou tímida, calcado no ROCK DE ROCKERO, e que depois foi se transformando em algo maior, alicerçando uma cena independente, fazendo com que uma cidade como Goiânia, fora do eixo (rs) Rio-SP, tivesse representatividade musical em nível nacional e até internacional (citando aí o Boogarins, banda que ganhou os rincões cantando em português, algo raro). A questão colocada por Miranda acaba ressoando na própria lição e reflexão que o Bananada nos traz nessa edição de 20 anos, em que apostou em artistas com público garantido: será que criamos, finalmente, um outro mainstream? Com a quantidade de pessoas e a qualidade dos shows apresentados, com poucas apostas e mais certezas em cada palco, não seria o caso de se tratar essa nova cena como um mainstream à parte, que nada à margem do grande centro, mas que já constrói um centro próprio significativo, com formação de público consistente? Mesmo a presença de Pabllo Vittar, que toca nas rádios e tem um alcance maior que uma Larissa Luz (por exemplo), não nos faz pensar que a Internet ajudou a borrar os limites entre o categórico, o minoritário, o deslocado das paradas musicais, e empurrou para o centro bandas e artistas que até então estavam restritos a quem frequentava os pequenos pubs, sótãos e bares (público que continua Brasil afora, já que é da essência dos cenários independentes), criando popstars de circuitos menores? São questões cujas respostas são respondidas aos poucos, em outros Bananadas, no crescimento exponencial de um Coquetel Molotov, na expansão de um Festival Dosol, e na tal da formação de público que, ao que parece, após 20 anos começa a se solidificar e até superar as expectativas de quem antes se preocupava tanto com essa tal.

Foto: Divulgação Bananada